Foto: Alexandre Correia

Morrissey na Super Bock Arena: Entre o incómodo e a devoção, as canções continuam a ganhar

03/08/2026

Review

Voz
9/10
Banda
10/10
Ambiente
9/10
Som
8/10
Overall
9.0/10
Billy Budd
The Youngest Was the Most Loved
First of the Gang to Die
Shoplifters of the World Unite (The Smiths)
How Soon Is Now? (The Smiths)
Now My Heart Is Full
Kerching Kerching
A Rush and a Push and the Land Is Ours (The Smiths)
Make-Up Is a Lie
Zoom Zoom the Little Boy
Life Is a Pigsty
Sure Enough, the Telephone Rings
The Bullfighter Dies
I Know It's Over (The Smiths)
Everyday Is Like Sunday
The Monsters of Pig Alley
Suedehead
Irish Blood, English Heart
Jack the Ripper

Encore:
There Is a Light That Never Goes Out (The Smiths)

Morrissey regressou a Portugal pela primeira vez em mais de uma década para apresentar o novo disco “Make-up Is A Lie”.  E valeu a pena a espera.

A primeira mensagem do dia, no meu WhatsApp, foi a pergunta que já se tornou ritual entre fãs de Morrissey: “Será que o homem acorda disposto e há concerto hoje?” Tem sido assim para os fãs do polémico ex-vocalista dos The Smiths nos últimos anos.

Depois de um 2025 marcado por uma percentagem absurda de datas canceladas, entre insónias, cheiro a carne, barulho e o que mais fosse preciso, e de um 2026 que também já vai somando alguns sustos, a desconfiança do público faz parte do pacote. Ninguém compra bilhete para Morrissey sem fazer, primeiro, essa reza.

Desta vez apareceu. E, já agora, atrasado. O concerto estava anunciado para as 21h, mas só arrancou às 21h40, atraso comunicado no recinto sem grande drama, quase como quem avisa que o café vai chegar mais tarde. A Super Bock Arena cheia esperou entre a ansiedade e a tolerância. Não houve revolta, mas havia aquele nervoso miudinho de quem sabe que, com Morrissey, nada está garantido até ele estar efetivamente em palco. Afinal, esperar por Morrissey já faz parte do espetáculo.

E essa espera dizia muito sobre a plateia. A Super Bock Arena estava cheia de fãs incondicionais, daqueles que sabem ao que vão e aceitam o risco como parte do ritual. O mais curioso era ver a amplitude geracional. Dos baby boomers aos adolescentes, estavam praticamente todos representados. Havia quem carregasse os The Smiths como memória de juventude, quem tivesse descoberto Morrissey já em carreira a solo e quem parecesse estar ali por herança familiar, arrastado primeiro e rendido depois. Poucos artistas conseguem juntar tantas idades à volta de uma contradição tão grande.

Há concertos que começam muito antes de o artista aparecer, se aparecer. Com ele, começam ainda antes de se entrar na sala. A longa introdução em vídeo, montada como quem organiza um altar privado de referências, cinema, ícones mortos, beleza antiga e provocação, já avisava o género de noite que aí vinha. Depois, luzes a apagar, e ali estava ele, vestido de negro, roupa social, camisa de botões, tudo já meio torto, como quem saiu tarde de um escritório sem tempo para se ajeitar.

É provavelmente o único homem no mundo capaz de entrar em palco como um dandy decadente e desengonçado ao mesmo tempo, elegante em teoria, amarrotado na prática. As primeiras palavras que disse, já virado para a plateia, foram em italiano: “Andiamo, andiamo…”. Mas ele sabia onde estava e provaria mais tarde.

E depois foi a voz. Está lá. Mais escura, talvez, mas ainda com uma autoridade quase cruel, capaz de atravessar uma arena inteira sem pedir autorização a ninguém. Confesso que fiquei surpreendido pela força com que chegou.

E depois foi a voz. Está lá. Mais escura, talvez, mas ainda com uma autoridade quase cruel, capaz de atravessar uma arena inteira sem pedir autorização a ninguém. Confesso que fiquei surpreendido pela força com que chegou. Foi, sem exagero, o melhor argumento da noite a favor de continuar a gostar dele apesar de tudo. O som saiu um pouco baixo, mas dentro do que costuma acontecer naquela sala. Para os padrões da Super Bock Arena, a qualidade esteve acima da média de onde assistimos.

A banda ajudou muito a dar corpo a essa voz. Forte, musculada, com uma dimensão quase física que puxou o repertório para um território mais pesado do que a memória de algumas canções faria esperar.

Destaque para os dois guitarristas: Jesse Tobias, que acompanha Morrissey desde 2004 e já tinha tocado na banda original de apoio de Alanis Morissette ao lado do lendário baterista Taylor Hawkins, e Carmen Vandenberg, presença rara e certeira nas guitarras. Matt Walker, na bateria, foi outro ponto alto, preciso e pesado quando precisava de ser. Juan Galeano, no baixo, e Camila Grey, nos teclados, fecharam um grupo que nunca deixou a noite cair na caricatura de “concerto de nostálgicos”.

O alinhamento abriu com “Billy Budd”, seguido de “The Youngest Was the Most Loved” e “First of the Gang to Die”, e só aí já se percebia que a noite ia equilibrar bem o material a solo com a herança dos The Smiths. Essa herança chegou cedo, com “Shoplifters of the World Unite” e “How Soon Is Now?”, esta última empurrada pelas guitarras para um território de sombra e vibração onde a canção parece sempre maior do que a sala que a recebe. “Now My Heart Is Full” e “Kerching Kerching” deram respiro, antes de “A Rush and a Push and the Land Is Ours” voltar a puxar pelos The Smiths.

Um dos momentos mais curiosos da noite foi “Zoom Zoom the Little Boy”, antecedida por um comentário sobre o “Livro do Desassossego”, de Fernando Pessoa. Foi um daqueles instantes em que Morrissey mostra que sabe exatamente onde está e para quem está a cantar, mesmo sem uma palavra em português.

Seguiram-se “Life Is a Pigsty” e “Sure Enough, the Telephone Rings”, esta antecedida por uma daquelas tiradas muito Morrissey: «When you think you have enough time to sit down and read a dirty book… the phone rings. No complaining.» [Quando pensas que finalmente tens tempo para te sentar e ler um livro picante… o telefone toca. Sem reclamações.] De seguida “The Bullfighter Dies”, com as imagens contra a tourada a acompanhar a canção: o Morrissey ativista, moralista, teatral, sempre a meio caminho entre o sermão e o espetáculo.

Depois veio o coração da noite. “I Know It’s Over” e “Everyday Is Like Sunday”, esta com uma introdução de piano ao som de “Clair de Lune”, tocada por Camila Grey, foram dos momentos mais bonitos do concerto.

Depois veio o coração da noite. “I Know It’s Over” e “Everyday Is Like Sunday”, esta com uma introdução de piano ao som de “Clair de Lune”, tocada por Camila Grey, foram dos momentos mais bonitos do concerto. “The Monsters of Pig Alley” manteve o tom mais sombrio, antes de “Suedehead” trazer de volta a elegância pop dos primeiros anos a solo e “Irish Blood, English Heart” chegar com energia de manifesto, ainda que hoje carregue camadas que já não se ouvem da mesma forma inocente. “Jack the Ripper” fechou o corpo principal do concerto, com a banda a sair de palco antes de voltar para o encore, “There Is a Light That Never Goes Out”, talvez a única forma correta de terminar uma noite destas.

Porque é impossível fugir a essa herança dos The Smiths. Quando essas canções aparecem, a sala deixa de estar só num concerto de Morrissey. Entra noutro lugar, mais coletivo, mais antigo, mais perigoso também. Perigoso porque continuam demasiado boas. Porque pertencem a gente que talvez já não queira pertencer inteiramente ao mundo dele e, mesmo assim, canta cada palavra de cor.

Não vou fingir que a contradição desaparece. Continua a ser difícil de gostar sem reservas de um homem cujas opiniões, fora de palco, há muito deixaram de ser apenas excentricidade para entrar num território bem mais espinhoso.

Não vou fingir que a contradição desaparece. Continua a ser difícil de gostar sem reservas de um homem cujas opiniões, fora de palco, há muito deixaram de ser apenas excentricidade para entrar num território bem mais espinhoso. A defesa dos animais talvez seja a única causa em que a sua dureza ainda parece vir de um lugar limpo, mas mesmo aí há sempre aquele travo de sermão encenado, de culpa usada como luz de palco. Morrissey nunca quis apenas cantar. Quis sempre julgar, ferir, absolver, tudo na mesma noite.

E, no entanto, quando as luzes baixam, falhamos na resistência. Saí de lá com aquela sensação estranha que só alguns artistas conseguem provocar: gratidão e desconforto no mesmo lugar, como quem gosta de alguém contra a própria vontade. A voz esteve lá. A banda esteve à altura. As canções continuam a transformar solidão, vergonha e desejo em três minutos de pop quase perfeito. O resto, o homem, as suas posições, o incómodo, também esteve lá. Mas desta vez, as canções ainda ganharam mais vezes do que perderam.


Fotos: Alexandre Correia