motionless in white c Nuno Cruz
(c) Nuno Cruz

Motionless in White: De Scranton a Lisboa são Duas Décadas de Distância

08/03/2026

Review

Motionless in White
9/10
Dayseeker
7/10
Make Them Suffer
8/10
Som
7/10
Ambiente
10/10
Overall
8.2/10
Meltdown
Sign of Life
A-M-E-R-I-C-A
Thoughts & Prayers
Voices
Afraid of the Dark
Werewolf
Hollow Points
Necessary Evil
Slaughterhouse
Rats
Disguise
Nothing Ever After (Illenium)
Scoring the End of the World
City Lights
Not My Type: Dead as Fuck 2
Cyberhex
Another Life
Eternally Yours

Em noite de lua minguante um bando de “criaturas” esgotou a Sala Tejo da MEO Arena para acolher a estreia em Portugal dos lobisomens do metalcore Motionless in White. Da fúria à catarse, da teatralidade à simbiose entre público e banda, este foi um concerto de emoções fortes e que demonstrou todo o valor artístico da banda de Chris Motionless. A acompanhá-los vieram ainda mais duas estreias: os Dayseeker, com o seu “baddiecore”, e os Make Them Suffer, com o seu metalcore progressivo.

Provenientes da chamada cena Warped Tour, os Motionless in White sempre foram vistos como uma espécie de underdogs, especialmente na primeira metade dos 2010s. Primeiro, porque vinham de Scranton, uma pequena cidade do estado da Pensilvânia, e segundo, porque apresentavam uma imagem de marca sonora e visual muito vincada e completamente distinta de qualquer outra banda da cena. Das influências do metalcore dos Eighteen Visions, que curiosamente inspiraram o nome da banda com a sua música “Motionless and White”, ao rock gótico de Marilyn Manson, passando pelo rock industrial de Rob Zombie até chegar aos elementos sinfónicos de uns Cradle of Filth, não havia ninguém a soar igual ou, sequer, parecido com os Motionless in White.

Se, algures por volta de 2012, perguntassem a alguém ligado à cena quais seriam as próximas grandes bandas muitos certamente diriam, e bem, nomes como Asking Alexandria, Black Veil Brides ou Of Mice & Men. Porém, nem sempre as previsões se comprovam e por volta da segunda metade dos anos 2010, todas estas bandas começaram a estagnar em termos criativos e na dimensão dos seus concertos. O que muitos não andavam a reparar, é que na retaguarda vinham os Motionless in White a trilhar o seu caminho de uma forma muito personalizada e com grande consistência em termos composicionais. Temas como “Reincarnate” (2014) e “Eternally Yours” (2017) já demonstravam uma ambição feroz em escalar para um patamar cimeiro do metal moderno, mas foi com o álbum “Disguise” (2019) que a banda conseguiu abrir essa porta por completo. Agora numa fase de transição entre o ciclo de “Scoring the End of the World” (2022) e o novo álbum, com título e data de lançamento ainda por anunciar, os Motionless in White estrearam-se finalmente em Portugal para nos levar numa viagem profundamente emotiva por esse percurso tão fascinante que já conta com mais de vinte anos de trabalho árduo e dedicação.

Make Them Suffer

Diretamente da Austrália, esse país da Oceânia que na última década e meia tem exportado uma imensurável quantidade de bandas de metalcore, os Make Them Suffer foram os primeiros a subir ao palco. 

Apesar da sua posição adiantada no cartaz a banda Perth, que se encontra no ativo desde 2008, arrastou para a Sala Tejo uma quantidade considerável de fãs. Porém, muitos não conseguiram ver o concerto na íntegra devido aos atrasos gerados na entrada, um problema que se tem revelado recorrente na Sala Tejo. A entrada na sala continua a ser feita apenas através de uma única fila direcionada para o lado do Oceanário. Em concertos esgotados, como foi o caso deste, a sua extensão chega a alcançar o Vasco da Gama, algo verificado à hora da abertura das portas, que acontece, geralmente uma hora antes do início do evento. A juntar-se a este incómodo esteve também a lenta circulação da fila, algo que levou a que pessoas que tenham entrado na fila à hora da abertura de portas tivessem perdido parte do concerto dos Make Them Suffer.

O que é certo é que às 19:00 em ponto, a banda australiana entrou em palco para aquecer o público numa tarde/noite ventosa e fria. Com um som bastante redondinho e definido, algo invulgar quando se trata da primeira banda a pisar o palco, os Make Them Suffer agarraram de imediato o público pelo colarinho com “Ghost of Me”, uma avalanche de riffs djenty que colocou em evidência essa dinâmica vocal entre o vocalista Sean Harmanis e a teclista e co-vocalista Alex Reade. Bem sabemos que a articulação entre vocal berrado e melódico é uma das imagens de marca do metalcore, mas esta conjugação da voz feminina com a masculina, algo que foi adicionado à música da banda em 2022 com a entrada de Reade, é mesmo um dos pontos que elevam as composições dos Make Them Suffer.

A fórmula repetiu-se em temas como “Epitaph”, “Mana God”, “Oscillator” e “Doomswitch” já com o mosh pit bem aberto e sempre em ebulição, desafiando-se música após música a alargar o seu diâmetro. No rosto dos guerreiros do pit via-se uma satisfação tremenda e uma entrega total. Por vezes, a primeira banda tem a difícil tarefa de puxar pelo público, mas no caso dos Make Them Suffer não foi sequer necessário, a música por si só já colocava a dopamina em níveis estratosféricos. Por sua vez, em cima do palco via-se uma banda alimentada por essa energia naquela que foi a última data de uma tour extensa e desgastante. Os trinta minutos de concerto passaram num ápice, mas ficou a sensação de que foram bem aproveitados por todos aqueles que aguardavam a estreia da banda australiana em Portugal.

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Dayseeker

Os Dayseeker são um caso interessante no espectro da música pesada. São daquelas bandas que conseguem fazer a ponte entre um público alternativo e um público mais mainstream devido à sua sonoridade carregada de elementos que roçam a pop e o synthwave. Mas, se há algo que fomenta a vertente criativa dos fãs dos subgéneros de core é a compartimentação de tudo e mais alguma coisa em caixinhas. A questão é que nos tempos que correm essa categorização já não se limita aos elementos musicais. Ela também inclui aspetos como a influência das bandas nas redes sociais, a demografia da sua base de fãs e a sua estética visual. É com base nestes parâmetros que os Dayseeker passaram a ser catalogados como uma banda de “baddiecore”. Esta terminologia cunhada por Craig Reynolds, baterista dos Stray From The Path, surgiu com o intuito de descrever uma série de bandas derivadas do metalcore com um público maioritariamente feminino, com uma grande popularidade no TikTok e com uma sonoridade e estética que fomentam uma certa tensão sexual. Nomes como Bad Omens, Sleep Token e Spiritbox formam o núcleo deste “subgénro”, mas os Dayseeker vêm logo atrás. 

Desta forma, não é de estranhar a recepção que a banda teve na Sala Tejo. É certo que a agitação no público resfriou um bocadinho face ao concerto dos Make Them Suffer, afinal de contas, os Dayseeker são uma banda de contemplação e de grandes singalongs e não de mosh pits. Ainda assim, a banda liderada por Rory Rodriguez, um dos melhores vocalistas da cena, puxou da vertente emocional para agarrar os mais céticos. De “Pale Moonlight” a “Neon Grave” não podemos dizer que assistimos a um concerto profundamente dinâmico e com um ponto alto bem definido, visto que o repertório dos Dayseeker não é assim tão variado. No entanto, podemos, sim, analisar a consistência da performance que nos mostrou uma banda muito oleada e surpreendentemente fresca neste que foi o seu terceiro concerto consecutivo. A voz de Rory, o elemento que poderia acusar maior fadiga, não falhou em nenhum momento, mostrando robustez nos refrões mais épicos como os de “Without Me”, “Crying While You’re Dancing” e “Sleeptalk”. Em sentido contrário, o som nem sempre se mostrou à altura da performance. Em momentos de maior intensidade vocal de Rory, a sua voz chegava ao PA com uma distorção que não era natural, afectando assim a experiência auditiva dos fãs. Não obstante, na sua totalidade foi uma performance que justificou a popularidade que os Dayseeker têm vindo atravessar.

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Motionless in White

Se em 2012 tivessem dito a este escriba que passados catorze anos iria estar a assistir à estreia dos Motionless in White em Portugal a resposta dada seria certamente em tom de descrença e de gozo. Ao contrário do mercado espanhol, Portugal demorou a entrar no circuito das grandes bandas de metalcore e durante várias anos muitas tours passaram-nos completamente ao lado. Com a viragem pós-pandemia as coisas parecem ter mudado aquando da vinda dos Bring Me The Horizon (BMTH) ao VOA Heavy Rock Festival de 2022. Desde então, já tivemos o regresso dos BMTH em nome próprio, dos Architects, dos Parkway Drive, dos Killswitch Engage, dos Electric Callboy e as estreias dos Bullet For My Valentine e dos Motionless in White. Alguns fãs de metal mais velhos podem até estranhar estas apostas, mas tudo se apresenta como um reflexo da renovação de públicos e do caminho que a música pesada está a levar.

Mas deixemos de lado as análises à indústria e ao mercado e foquemo-nos no espetáculo, no verdadeiro sentido da palavra, que os Motionless in White nos proporcionaram.

Ilustrando a ideia paradoxal de que os fãs de metal são pessoas fofinhas e divertidas, a banda de Scranton desenhou para esta tour uma intro que vai precisamente ao encontro dessa personalidade que define os fãs de música pesada. Pegando no meme “OIIA OIIA (Spinning Cat)” foi ao som de W&W que mergulhámos na Afraid of the Dark Tour. Promovidos ao estatuto de banda de arena, os Motionless in White carregam agora às costas toda uma produção que envolve vários departamentos que vão desde a componente audiovisual à pirotecnia, passando ainda por uma componente performativa que envolve stunts realizadas pelo grupo Cherry Bombs

Já após a intro, o quinteto liderado por Chris Motionless entrou em palco como uma força magnética para desferir “Meltdown”. Sumptuosas projeções acompanharam o tema com um jogo de luzes a condizer, enquanto as vozes ao alto já cantavam em uníssono. Após “Sign of Life” eis que surgiu a primeira passagem pelo passado mais longínquo com “A-M-E-R-I-C-A”. Com uma letra assustadoramente atual que retrata a sociedade e o cenário político norte-americano, este é um tema que na sua versão de estúdio deixa algo a desejar, mas que ao vivo ganha outros contornos, particularmente no seu refrão soletrado.

Visivelmente feliz por estar a pisar um palco num novo território, Chris agradeceu várias vezes ao público a receção calorosa e a correria aos bilhetes que levou o concerto a esgotar, não por uma, mas sim por duas vezes após terem sido disponibilizados mais uns quantos lugares.

Visivelmente feliz por estar a pisar um palco num novo território, Chris agradeceu várias vezes ao público a receção calorosa e a correria aos bilhetes que levou o concerto a esgotar, não por uma, mas sim por duas vezes após terem sido disponibilizados mais uns quantos lugares. A resposta fez-se na mais autêntica forma de expressão portuguesa de contentamento, que é como quem diz, a entoar o já indispensável cântico “Esta merda é que é boa“.

Com as gargantas bem afinadas veio o primeiro grande singalong coletivo em “Voices”, um daqueles temas do repertório dos Motionless In White bem pegajoso. Numa vertente humana, a banda aproveitou as projeções para passar uma mensagem de apoio à comunidade LGBTQ+ com várias imagens a incluir a bandeira arco-iris e a bandeira trans precisamente durante os versos «I keep it all inside because I know the man is everything but kind».

Num vislumbre do próximo capítulo, “Afraid of the Dark” surgiu como um dos momentos mais emotivos da noite. Este tema, que é uma espécie de sequela da música “570”, traz uma letra num formato de registo biográfico que se traduz também, numa carta de amor e devoção para com os seus fãs, que são apelidados carinhosamente de “criaturas” – título que a banda escolheu para o seu álbum de estreia de 2010.

Ao longo do concerto, a presença imponente de Chris roubou grande parte dos olhares, mas é impossível não destacar também o papel dos restantes elementos. O guitarrista Ricky Olson, que também desempenhou vários coros, sempre discreto, entregou-se à sua Charvel Pro-Mod Plus So Cal com Evertune, já Ryan Sitkowski com uma ESP Custom Shop Eclipse segurou os riffs com uma precisão cirúrgica, enquanto o baixista Justin Borrow alternou as pancadas no seu Music Man Stingray com a voz berrada em certos temas. Por último, mas não esquecido, Vinny Mauro apresentou-se sem grandes holofotes, mas revelou-se muito consistente ao longo de toda a performance.

O mosh pit esteve quentinho ao longo de todo o concerto, mas o que se deu em “Slaughterhouse” foi uma autêntica destruição. Com a colaboração de Sean Harmanis dos Make Them Suffer a berrar as partes de Bryan Garris dos Knocked Loose, a Sala Tejo virou um autêntico campo de sobrevivência com corpos a chocar e a voar em todas as direções.

Do seu repertório de covers, que inclui temas de Rob Zombie, Rammstein e The Killers, os Motionless in White optaram por um tema que, apesar de não ser da sua autoria, têm participação direta. “Nothing Ever After” do produtor/DJ Illenium trouxe uma dinâmica mais eletrónica, mas não se revelou um momento de grande euforia para os fãs. Por sua vez, “Scoring the End of the World” com Chris a empunhar uma bandeira portuguesa e a colocá-la nos seus ombros já foi um momento que levou os fãs à loucura.

Para aqueles que seguem a banda desde o primeiro álbum, “City Lights” era certamente uma das músicas mais esperadas. A balada de “Creatures” invocou um mosh pit onde em vez de corpos a embaterem uns nos outros, vimos casais a dançar aos pares como se tivéssemos perante uma valsa gótica. Já “Not My Type: Dead as Fuck 2” e “Cyberhex” anteciparam as duas maiores power ballads da banda: “Another Life” e “Eternal Yours”, esta última com muitos crowd surfers a voarem para tentarem apanhar uma das poucas rosas que Chris Motionless atirou para o público em jeito de agradecimento.

Nas despedidas faltaram palavras para expressar toda a emoção sentida ao longo de 1h45m de concerto. Só nos vinha à cabeça o tão simbólico verso de “Afraid of the Dark”, que refere «uma criatura que encontrou o seu lar». Todos sabemos que nunca será apenas música, e os Motionless in White fizeram questão de nos lembrar disso ao congregarem na Sala Tejo uma comunidade que sente cada nota e cada palavra das suas músicas.

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