North Festival 2026: Entre o culto dos Ornatos e a emoção dos Snow Patrol
(c) Teresa Mesquita

North Festival 2026: Entre o culto dos Ornatos e a emoção dos Snow Patrol

Review

Ornatos Violeta
9/10
Som
7/10
Snow Patrol
9/10
Som
10/10
Ambiente
8/10
Overall
8.6/10

O North Festival chegou à Cidade Desportiva da Maia com uma proposta ambiciosa e um cartaz capaz de atrair públicos distintos.

À chegada ao primeiro dia do North Festival, as primeiras impressões foram positivas. O recinto revelou-se confortável, com bastante espaço para circular, uma área relvada agradável para assistir aos concertos e uma oferta variada de restauração. Nem tudo foi perfeito: os preços praticados, tanto nas bebidas como na alimentação, estiveram claramente acima do desejável e a localização dos sanitários, fora da área principal do estádio, causou algum desconforto. Ainda assim, o balanço da organização foi globalmente positivo.

Mais difícil de ignorar foi a adesão do público. A lotação ficou muito aquém do que seria expectável para uma noite encabeçada por dois nomes de peso. A situação não passou despercebida aos artistas, que por diversas vezes procuraram envolver e motivar uma audiência visivelmente mais reduzida do que aquela que o festival certamente esperava receber.
Mas se o recinto estava longe de cheio, a qualidade musical da noite encarregou-se de compensar essa ausência.

Ornatos Violeta: um culto que resiste ao tempo
Poucas bandas portuguesas conseguem gerar uma ligação tão intensa com o seu público quanto os Ornatos Violeta. Apesar de uma discografia relativamente curta e de uma história marcada por separações e regressos ocasionais, o grupo liderado por Manel Cruz continua a ocupar um lugar especial no imaginário do rock português. E isso tornou-se evidente desde os primeiros minutos do concerto.

Acompanhados por um quarteto de cordas que acrescentou profundidade e riqueza aos arranjos, os Ornatos apresentaram um alinhamento centrado nos temas que construíram o seu estatuto de culto, percorrendo boa parte de “O Monstro Precisa de Amigos”, álbum que continua a ocupar um lugar singular na história do rock português.

Manel Cruz assumiu naturalmente o centro das atenções. Carismático, inquieto e comunicativo, conduziu a actuação com a presença de palco que o caracteriza, alternando momentos de intensidade emocional com comentários bem-humorados dirigidos à plateia e aos próprios colegas de banda.

Manel Cruz assumiu naturalmente o centro das atenções. Carismático, inquieto e comunicativo, conduziu a actuação com a presença de palco que o caracteriza, alternando momentos de intensidade emocional com comentários bem-humorados dirigidos à plateia e aos próprios colegas de banda. Nem mesmo a assistência abaixo do esperado alterou essa dinâmica. A certa altura, o vocalista brincou com a situação com a elegância de quem já viu de tudo: «Tocar para uma arena vazia é uma evidência, mas é uma alegria.» A ligação entre banda e audiência permanecia intacta e isso dizia tudo.

“Coisas”, “Ouvi Dizer”, “Chaga” e “Capitão Romance” surgiram entre os momentos mais celebrados da noite, confirmando que estas canções continuam a atravessar gerações sem perder relevância. Infelizmente, o concerto perdeu alguma fluidez no último terço devido a problemas técnicos que afectaram a qualidade sonora. O desconforto tornou-se perceptível e acabaria por levar Manel Cruz a encerrar a actuação logo após a tentativa de encore, onde tocaram “Tempo de Nascer”. Foi certamente mais cedo do que eles e todos esperavam. Ainda assim, ficou a sensação de missão cumprida e de mais uma demonstração da impressionante capacidade que os Ornatos mantêm para mobilizar o seu público. O ambiente estava lançado para o principal concerto da noite.

Snow Patrol: quando as canções são maiores do que o recinto
Se os Ornatos representam uma relação quase familiar com o público português, os Snow Patrol chegaram à Maia para recordar porque continuam a ser uma das bandas mais eficazes na difícil arte de fazer uma arena cantar em uníssono, mesmo quando essa arena está longe de cheia. Desde o primeiro momento, ficou evidente a coesão do grupo. Gary Lightbody assumiu o papel de mestre de cerimónias emocional da noite, enquanto Nathan Connolly, Johnny McDaid, Ben Epstein e Ash Soan construíam uma base sonora sólida, elegante e poderosa.

A qualidade do som esteve entre os pontos fortes da actuação. As guitarras surgiram definidas, os teclados preencheram o espaço sem excessos e a secção rítmica mostrou exactamente porque tantas músicas dos Snow Patrol conseguem crescer de forma tão impactante ao vivo. Baixo e bateria sabem quando recuar e quando explodir, criando dinâmicas que amplificam cada refrão e cada momento de tensão. Visualmente, a banda apresentou um espectáculo eficaz, sustentado por um desenho de luz sóbrio mas emocionalmente envolvente. Gary Lightbody viveu a actuação de forma intensa. Houve três momentos em que a voz falhou ligeiramente e esta situação provocou reacções imediatas do próprio vocalista, ora rindo, ora visivelmente frustrado por não atingir as notas que pretendia. Longe de comprometer o concerto, esses episódios acabaram por humanizar ainda mais uma actuação marcada por uma sinceridade desarmante.

Porque foi precisamente a capacidade de fazer cada canção soar genuína que definiu o concerto dos Snow Patrol. “Run”, “Open Your Eyes”, “Chasing Cars” e “Just Say Yes” transformaram a plateia num enorme coro colectivo, lembrando por que razão o grupo escocês continua a ocupar um lugar tão especial na memória afectiva de várias gerações de ouvintes.
Numa noite em que o North Festival arrancou perante uma assistência abaixo do esperado, os Snow Patrol conseguiram fazer esquecer isso e concentrar toda a atenção naquilo que realmente importa: a emoção das canções. Num festival que certamente esperava outra afluência para a sua abertura, foi isso que deu sentido à primeira noite. E acabou por ser suficiente.