Ao segundo dia do North Festival, os principais destaques foram para Liniker, The Water Boys e Europe.
O segundo dia do North Festival apresentou um cenário ligeiramente diferente do da abertura. O recinto da Cidade Desportiva da Maia revelou-se mais composto, com maior circulação de público e um ambiente mais próximo daquele que se espera de um festival desta dimensão. E se a noite anterior tinha sido marcada pela emoção dos Snow Patrol, o sábado acabou por oferecer algo ainda mais interessante: uma surpresa inesperada, uma pequena desilusão e um concerto absolutamente triunfal.
Liniker: a surpresa mais bonita do festival até agora
Há concertos a que assistimos porque conhecemos a discografia. Outros porque admiramos o percurso dos artistas. E depois existem aqueles raros momentos em que chegamos praticamente sem expectativas e saímos completamente conquistados.
Foi exatamente isso que aconteceu com Liniker. A artista brasileira protagonizou uma das atuações mais tecnicamente impressionantes destes primeiros dias de festival. Desde os primeiros minutos tornou-se evidente que estávamos perante uma intérprete de enorme dimensão. A afinação irrepreensível, o controlo vocal, a expressividade e a naturalidade com que domina o palco criaram um concerto envolvente do princípio ao fim.
Mas não foi apenas a voz que impressionou.
A banda que a acompanha revelou um nível elevadíssimo. O trio de sopros trouxe uma riqueza tímbrica pouco habitual num festival deste género, acrescentando novas camadas às canções e transformando vários momentos da atuação. A secção rítmica funcionou com precisão exemplar, destacando-se particularmente o groove constante do baixo de Ana Karina Sebastião, peça fundamental na construção da identidade sonora do espetáculo. O guitarrista foi outro dos destaques da noite, exibindo técnica, sensibilidade e uma enorme capacidade para servir as canções sem cair em excessos.
Liniker gosta de contextualizar a origem das suas músicas e essa proximidade tornou o concerto ainda mais humano. Um dos momentos mais marcantes aconteceu quando apresentou um poema inspirado numa experiência vivida num engarrafamento em São Paulo. O silêncio que se instalou no recinto contrastou com a intensidade emocional das palavras. Entre os momentos mais fortes estiveram este poema, “Veludo Marrom”, que emocionou parte da plateia, “Psiu”, conduzida por um groove irresistível, e “Negona dos Olhos Terríveis”, que colocou praticamente todo o público a balançar ao ritmo da canção.
Foi uma atuação elegante, sofisticada e emocionalmente poderosa. E talvez a maior surpresa do festival até ao momento.
The Waterboys: bons momentos e uma ausência difícil de ignorar
Os Waterboys entraram em palco com a experiência e a classe de quem carrega décadas de estrada. Mike Scott continua a ser um líder carismático, assumindo naturalmente o papel de capitão desta embarcação musical que navega entre folk, rock, blues e música tradicional americana. A voz mantém-se em excelente forma e a banda demonstrou enorme competência ao longo de toda a atuação.
As teclas acabaram por assumir um papel central. Entre piano, órgão e sintetizadores, vários momentos do concerto transformaram-se em verdadeiros diálogos musicais. Houve até uma passagem particularmente divertida em que dois músicos partilharam o mesmo órgão, arrancando aplausos espontâneos da plateia.
As teclas acabaram por assumir um papel central. Entre piano, órgão e sintetizadores, vários momentos do concerto transformaram-se em verdadeiros diálogos musicais.
“Fisherman’s Blues” surgiu como um dos pontos altos do alinhamento, enquanto “Knockin’ on Heaven’s Door” foi recebida com entusiasmo generalizado. “Nashville, Tennessee” destacou-se pela beleza da execução e “The Pan Within” proporcionou um dos momentos mais emotivos da atuação. Ainda assim, o concerto terminou com uma sensação estranha.
Ao contrário do que muitos esperavam, não houve encore. Mais surpreendente ainda foi a ausência de “The Whole of the Moon”, um dos maiores clássicos da banda e uma das músicas mais associadas à promoção do próprio festival. No final, era impossível não ouvir comentários de estranheza entre o público. Não porque o concerto tivesse sido fraco, longe disso, mas porque parecia faltar precisamente uma das canções que todos aguardavam.
Foi um bom espetáculo. Mas ficou incompleto.
Europe: quando os anos 80 encontram a excelência
Se alguém ainda duvidava da capacidade dos Europe para continuarem relevantes em 2026, a atuação desta noite dissipou qualquer dúvida. O grupo sueco apresentou provavelmente o concerto mais sólido e empolgante do festival até agora.
Logo na abertura, “On Broken Wings” estabeleceu o tom da noite com uma execução poderosa e emotiva. Pouco depois, “Rock the Night” fez disparar o entusiasmo da plateia, inaugurando uma sequência de clássicos que nunca perdeu intensidade.
Joey Tempest continua a ser um vocalista notável. Comunicativo, carismático e em excelente forma vocal, conquistou facilmente o público português. Quando soltou um espontâneo “c@r@lho” após “Walk the Earth”, o recinto respondeu com uma explosão de surpresa e entusiasmo. Mas talvez o elemento mais impressionante do espectáculo tenha sido a qualidade individual dos músicos.
Mas o momento mais especial chegou com “Last Look at Eden”. É uma canção que resume praticamente tudo aquilo que os Europe fazem melhor: introdução grandiosa, arranjos épicos, guitarras pesadas, teclados exuberantes e uma carga emocional impressionante.
John Norum mostrou porque continua a ser um dos guitarristas mais respeitados do hard rock europeu. Com apenas uma guitarra, conseguiu preencher todo o palco através de solos inspirados, riffs poderosos e uma presença constante. Atrás dele, uma pequena parede de amplificadores Marshall servia quase como monumento visual à tradição do género. Mic Michaeli foi outro dos grandes protagonistas. O teclista alternou entre passagens atmosféricas, momentos sinfónicos e intervenções virtuosas que arrancaram aplausos sucessivos. Quando improvisou um divertido “We Make Smile Portugal”, a reação da plateia foi imediata.
Também Ian Haugland brilhou na bateria, exibindo potência, precisão e fôlego ao longo de um alinhamento exigente, no qual contou com o competentíssimo John Levén no baixo.
Musicalmente, a banda encontrou um equilíbrio exemplar entre passado e presente. As recentes “One on One” e “The Cult of Ignorance” integraram-se naturalmente entre clássicos como “Carrie”, “Open Your Heart” e “Superstitious”.
Mas o momento mais especial chegou com “Last Look at Eden”. É uma canção que resume praticamente tudo aquilo que os Europe fazem melhor: introdução grandiosa, arranjos épicos, guitarras pesadas, teclados exuberantes e uma carga emocional impressionante. Quando chegou a vez de “The Final Countdown”, já ninguém tinha dúvidas.
O segundo dia do North Festival terminava da melhor forma possível. Com uma banda dos anos 80 a provar que ainda consegue soar viva, relevante e absolutamente irresistível.