O último dia do North Festival apresentou finalmente a imagem que muitos esperavam encontrar desde o arranque do evento. Depois de dois dias a meio-gás, a enchente chegou para ver e ouvir The Cure.
Ao terceito dia de festival, a Cidade Desportiva da Maia recebeu o maior público desta edição, até para lá da sua capacidade ideal, e bastava percorrer o recinto para perceber quem era o principal responsável por isso. Os bilhetes estavam esgotados há vários meses. Camisolas pretas, rostos pintados, referências aos anos 80, gerações inteiras reunidas entre pais, filhos e amigos. Havia uma espécie de peregrinação silenciosa em direção ao mesmo destino. Os The Cure estavam de volta a Portugal.
Mas antes da aguardada entrada de Robert Smith e companhia, ainda houve tempo para dois concertos bastante distintos.
Os Linda Martini voltaram a confirmar porque são uma das bandas mais respeitadas do rock português contemporâneo. Nunca os vimos a dar um mau concerto, e essa consistência mantém-se como uma das suas maiores forças em palco. A fasquia mantém-se sempre no mesmo nível: elevado. O quarteto apresentou vários temas de “Passa-Montanhas”, disco editado em 2025, num concerto sólido, intenso e muito bem recebido pelo público que já começava a ocupar o recinto. André Henriques manteve a habitual postura discreta, mas eficaz, enquanto canções como “Boca de Sal” e “Uma Banda” confirmaram a capacidade do grupo para equilibrar peso, melodia e identidade própria. O encerramento com “Cem Metros Sereia” deixou a sensação de missão cumprida, mais uma vez.
Pouco depois chegaram os Mogwai. E se existe banda capaz de transformar volume em emoção, provavelmente é esta. Os escoceses trouxeram ao North Festival a sua fórmula inconfundível de crescendos lentos, explosões de guitarras e paisagens sonoras que parecem bandas sonoras para filmes que ainda não existem. Stuart Braithwaite mostrou-se surpreendentemente comunicativo, agradecendo várias vezes ao público em português, enquanto a banda construía muralhas de som que iam crescendo até engolir completamente o recinto. “Mogwai Fear Satan” destacou-se naturalmente como um dos momentos mais impressionantes da tarde.
Mas, para grande parte dos presentes, tudo parecia funcionar como uma contagem decrescente. Havia uma sensação coletiva impossível de ignorar: a de que o verdadeiro momento do festival ainda estava por chegar. Não será exagero dizer que, para muitos, os restantes dias pareceram apenas uma longa preparação para o que iria acontecer naquela noite.
Quando as luzes finalmente se apagaram e Robert Smith surgiu lentamente em palco, a reação do público explicou tudo.
Os Cure abriram com “Alone” e, desde os primeiros segundos, ficou claro que não vinham apenas cumprir calendário. Vieram oferecer uma celebração da própria história. Uma história construída ao longo de quase cinco décadas e que continua a soar incrivelmente viva.
Os Cure abriram com “Alone” e, desde os primeiros segundos, ficou claro que não vinham apenas cumprir calendário. Vieram oferecer uma celebração da própria história. Uma história construída ao longo de quase cinco décadas e que continua a soar incrivelmente viva.
“Pictures of You” transformou-se num dos primeiros momentos de comunhão absoluta entre banda e público. Depois vieram “A Night Like This”, “Lovesong2 e “High”, numa sequência que parecia desenhada para recordar porque tantas pessoas cresceram emocionalmente ligadas a estas canções.
O mais impressionante, contudo, continua a ser Robert Smith. Aos 67 anos mantém uma voz extraordinariamente próxima daquela que ouvimos nos discos. Continua capaz de alternar entre fragilidade, melancolia e alegria sem perder autenticidade. E continua a possuir aquela presença única de quem nunca precisou de ser um frontman convencional para dominar completamente um palco.

A banda esteve irrepreensível. E falar dos Cure sem destacar Simon Gallup seria quase uma injustiça. Figura incontornável da história do grupo, o baixista continua a impor-se com uma presença silenciosa, mas absolutamente magnética. Com o baixo pendurado abaixo da cintura e uma expressão permanentemente impassível, não precisa de procurar protagonismo, ele surge naturalmente. As suas linhas de baixo são há décadas uma das assinaturas sonoras dos Cure, sustentando melodias, criando tensão e dando corpo a algumas das canções mais emblemáticas do catálogo da banda. Em palco, percebe-se facilmente que não está ali apenas para acompanhar. Muitas vezes, é Gallup quem conduz a narrativa musical.

Jason Cooper mostrou enorme consistência na bateria. As guitarras e teclados construíram aquela parede sonora densa e envolvente que faz dos Cure uma experiência tão particular ao vivo. Houve espaço para surpresas como “Treasure”, raramente tocada nos últimos anos, e para momentos mais profundos e contemplativos como “Endsong”, uma das peças centrais do mais recente “Songs of a Lost World”.
Mas foi nos encores que o recinto atingiu outro nível. “A Forest” trouxe consigo aquele transe coletivo que os Cure conseguem provocar como poucas bandas, um autêntico «Cure Moment». “Lullaby”, “The Lovecats” e “Friday I’m in Love” fizeram recuar décadas sem qualquer esforço.
E quando chegaram “Close to Me”, “Why Can’t I Be You?” e “Boys Don’t Cry”, já ninguém parecia preocupado com o relógio. Durante duas horas e meia, os The Cure fizeram aquilo que poucas bandas conseguem. Transformaram a nostalgia em algo vivo e pulsante.
Nos últimos anos, Robert Smith tem deixado escapar a possibilidade de uma despedida definitiva por volta de 2029. Ninguém sabe ao certo se isso acontecerá. Mas ao olhar para a reação do público na Maia, tornou-se impossível não pensar no vazio que ficará quando esse dia chegar.
Porque os Cure possuem um talento raro. Conseguem fazer milhares de pessoas cantar sobre solidão, perda, saudade e tristeza e, ainda assim, fazê-las sair inacreditavelmente felizes.