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(c) Inês Barrau

NOS Alive 2025 | A Celebração LGBTQIA+ de girl in red & O Happening Disruptivo de St. Vincent

Review

girl in red
7/10
St. Vincent
10/10
Som
8/10
Ambiente
7/10
Overall
8.0/10

Promovida ao Palco NOS, girl in red voltou a trazer o seu indie pop rock ao Alive. No segundo dia do festival a artista norueguesa movimentou uma grande falange da comunidade LGBTQIA+ para uma celebração de todas as identidades sexuais. Por sua vez, no Palco Heineken, St. Vincent seduziu e hipnotizou o público com um concerto vanguardista repleto de teatralidade e momentos sonoros disruptivos.

girl in red

Já começa a ser tradição ter girl in red em Portugal todos os verões. Depois da estreia no nosso país no NOS Alive 2023, a artista tocou no Vodafone Paredes de Coura 2024 e agora regressou novamente ao Passeio Marítimo de Algés para o seu terceiro ano consecutivo de concertos em Portugal.

Longe da moldura humana do primeiro dia, mas com o forte apoio da comunidade LGBTQIA+, girl in red subiu ao Palco NOS, com cinco minutos de atraso, para um concerto animado e repleto de inclusão. “DOING IT AGAIN BABY” e “bad idea!” deram início a uma atuação que, apesar de curta, teve tempo suficiente para que a artista se dirigisse várias vezes ao público entre músicas, com intervenções humorísticas e explicações sobre o significado das músicas.

«Estamos em Lisbon. A palavra Lisboa é muito parecida com a palavra “Lesbian” (lésbica). Esta música chama-se “girls”», disse antes de pegar numa das suas Fender Telecaster com o pickguard transparente para tocar o tema. Já em “4am” surgiu com uma Meteora nas mãos, esse modelo da Fender que tanto divide opiniões. E aquela guitarra que Marie atirou pelos ares???… doeu-nos um bocadinho o coração.

O público profundamente cativado pela energia contagiante de girl in red saltou a pedido em “dead girl in the pool.” e enviou para o palco, em “midnight love”, uma bandeira às ricas brancas, laranjas e púrpura, símbolo que representa a comunidade lésbica.

Habituados a assistir a pequenos percalços técnicos neste Alive 2025, em girl in red não foi excepção um pequeno infortúnio a meio de “Phantom Pain”, que fez com que a banda repetisse o último refrão. Quanto terminou a música, a artista referiu que o atraso de cinco minutos tinha sido precisamente devido a uma questão técnica com a tela principal.

Incansável a percorrer a passadeira que liga o palco ao público, girl in red aproveitou “i wanna be your girlfriend” para terminar o concerto com um stage dive seguido de crowd surf. Bem vistas as coisas, a música pode ser pop, mas a atitude é sem dúvida punk.

St. Vincent

Disruptiva, criativa e vanguardista são três adjetivos que caracterizam e sintetizam uma performance de St. Vincent. O alter ego que Anne Clark criou há dezoito anos continua a impressionar todos aqueles que esbarram pela primeira vez no seu modelo de concerto. Inspirando-se no happening, esse conceito cunhado por John Cage que identifica uma performance artística com um elevado grau de espontaneidade e improvisação, St. Vincent leva-nos nos seus concertos para um ambiente sonoro repleto de teatralidade e pautado por momentos de bailado contemporâneo não coreografado.

“Reckless” deu início a uma viagem art rock vertiginosa onde o não convencional e o experimentalismo estiveram sempre de mãos dadas.

“Reckless” deu início a uma viagem art rock vertiginosa onde o não convencional e o experimentalismo estiveram sempre de mãos dadas. Na apresentação do seu sétimo álbum de estúdio “All Born Screaming” (2024), que curiosamente apresenta uma versão gravada em castelhano intitulada “Todos Nascen Gritando”, St. Vincent sussurrou com o público num castelhano perfeito, talvez ciente de que aquela era a língua mais próxima do português. “Broken Man”, “Flea” e “Big Time Nothing” mostraram texturas sonoras que vão do industrial ao art pop com fuzzy guitars a jorros e sintetizadores modulares bem groovy. Da loucura ao êxtase, St. Vincent interpretou cada composição com uma entrega ímpar. Desde reboliços no chão, a picardias amigáveis com a sua banda, passando por interações olhos nos olhos com os fãs da primeira fila e a crowd surfs espontâneos, ou a subida às costas de um segurança, valeu tudo neste espetáculo onde as barreiras do tradicionalismo foram derrubadas.

«Eu sei que são 01:20 da manhã, mas espero que tenham as drogas todas para vos manter acordados. E espero que partilhem comigo», disse St. Vincent num tom humorístico, mas muito sério. A sua performance como elemento artístico presta-se a ser experienciada como algo transcendental. Dada a sua natureza experimental, certamente que St. Vincent não proferiu estas palavras da boca para fora, visto que também ela confessou ter recorrido a micro doses e a psicadélicos durante o processo criativo de “All Born Screaming”.

Seja através das suas elegantes Ernie Ball Music Man St. Vincent Signature, ou de instrumentos mais vanguardistas como o Stylophone Theremin ou o Soma Laboratory The Pipe, este último uma espécie de mini saxofone futurista que se apresenta como um sintetizador e processador de efeitos muito dinâmico e expressivo, que é controlado por voz, respiração e movimento bucal, St. Vincent explora uma panóplia de sons que em palco soam de forma caótica, áspera e crua, mas sempre com uma harmonia que estabelece coesão.

Mestre na escrita de letras com múltiplos sentidos, “Violent Times” trouxe romantismo, mas também uma chamada de atenção para os tempos conturbados que vivemos. Já “Sugarboy” montou a pista de dança no Palco Heineken, dando assim algum descanso à música mais cerebral que vinha sendo apresentada. A fechar, “All Born Screaming” levou o público numa última viagem transcendental pelo universo criativo de Anne Clark, com paragens nas estações art pop, noise rock e techno. Pena que o concerto estivesse escalado para a hora e dia errados, merecia mais público.

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