NOS Alive 2025 | Never Mind The C*nts, Here’s Amyl and the Sniffers

Review

Voz
10/10
Banda
10/10
Som
10/10
Ambiente
10/10
Overall
10.0/10
Security
Balaclava Lover Boogie
Doing in Me Head
Do It Do It
Chewing Gum
Guided by Angels
Big Dreams
Some Mutts (Can't Be Muzzled)
Control
Got You
Freaks to the Front
Starfire 500
Knifey
Me and The Girls
Jerkin'
Tiny Bikini
U Should Not Be Doing That
Hertz

Numa sessão avassaladora de empoderamento feminino, os Amyl and the Sniffers levaram para casa o troféu do concerto mais rasgado do NOS Alive 2025. Em mais uma enchente no Palco Heineken, Amy Taylor não deixou nada por dizer e provou (mais uma vez) por que é a nova Rainha do Punk.

Falar de punk no feminino é falar de nomes como Cherie Currie, Exene Cervenka, Kathleen Hanna ou, mais recentemente, as Lambrini Girls. Em Portugal, temos ainda o caso de sucesso das Anarchicks. Mas, se temos que identificar um nome contemporâneo que lidera neste momento o movimento punk feminista, é o de Amy Taylor, a irreverente e inconformada frontwoman dos australianos Amyl and the Sniffers

Numa altura em que se discute muito a ideia de igualdade de género e o conceito arcaico de patriarcado, é Amy que surge como uma das vozes mais ativas na luta contra estas discrepâncias sociais que, apesar da mudança dos tempos, ainda se encontram bem vivas no nosso quotidiano. Longe de ter um papel de destaque no meio político ou jurídico, Amy e a sua banda utilizam a sua voz e os instrumentos como arma de arremesso com o intuito de chegar até uma comunidade que também se revê nesses princípios.

Com esta luta cada vez mais à flor da pele, não é de estranhar a projeção e o crescimento galopante que a banda tem tido nos últimos anos. É certo que a sua génese remonta a 2016 e que já contam com três álbuns de estúdio e quatro passagens por festivais portugueses, mas desde que os vimos no MEO Kalorama 2023  que temos acompanhado o seu crescimento nos media, em tours constantemente esgotadas e em aparições em cartazes de festivais mainstream como o Glastonbury e o Coachella.

Para tal, contribuiu, e muito, o seu terceiro álbum “Cartoon Darkness” (2024), o primeiro a ser lançado numa editora major. O segredo para tal sucesso não está propriamente no instrumental que, apesar de ser bom, apresenta riffs simples de rock ‘n’ roll e punk e uma batida clássica, mas sim nas letras repletas de aussie slang (calão australiano) como “cunt”, “squirter”, “snags” ou “barbie” e no sotaque e dicção assertiva com que Amy defende a sua posição e acusa os visados.

A entrada da banda em palco na tenda do Heineken apresentou-se quase como uma receção a uma equipa vitoriosa, tal foi o entusiasmo efusivo do público nesse momento. O facto de este ter sido o último concerto da tour europeia de festivais também pode ter contribuído para esse fator. Independentemente do motivo, a banda sentiu-se automaticamente acarinhada e ainda antes de soar o primeiro acorde de “Security”, Amy limitou-se a anunciar que «se alguém cair, vocês levantam-n@ logo.» A frontwoman não se expressou em concreto sobre o que estava a falar, mas escusado será dizer que o público percebeu perfeitamente o significado daquelas palavras de ordem, prosseguindo depois a abrir uma clareira gigante na frente do palco.

Sinal do impacto e do alcance que os Amyl and the Sniffers têm no panorama da música feminista foi o facto de termos testemunhado uma plateia repleta de mulheres, muitas delas envolvidas no mosh pit e no crowd surf e a debitar letras como o refrão dos temas “Doing in Me Head”, “Do It Do It” e “Guided by Angels”. Por outro lado, é também importante salientar o respeito que se sentiu entre homens e mulheres num espaço tão democrático e neutro como é o mosh pit.

Por outro lado, se há malhas que definem instantaneamente aquilo que são os Amyl and the Sniffers são a “Jerkin’” e a “Tiny Bikini”. Símbolos da liberdade feminina, foram entoados igualmente por mulheres e homens que se distanciam cada vez mais dessa ideologia social que é a masculinidade tóxica, comprovando assim que um concerto de Amyl and the Sniffers é sempre um espaço seguro, de respeito e aceitação.

Em dia de aniversário do baterista Bryce Wilson cantaram-se os parabéns e incentivou-se aos penáltis de cerveja. Cá entre nós, sendo a banda australiana teria sido mais divertido se Bryce tivesse feito um shoey, essa marca de identidade da cultura australiana, que consiste em beber uma cerveja ou outra bebida alcoólica, diretamente de um sapato, ténis, etc. Mas, com shoey ou sem shoey, Bryce já tinha conquistado o público do Heineken quando entrou em palco com uma camisola vintage do Sporting CP, com o número 28 e o nome de Cristiano Ronaldo nas costas.

Além da defesa da igualdade de género e da emancipação feminina, os Amyl and the Sniffers também sentem necessidade de se expressarem nos seus concertos, sobre outras questões associadas à atualidade política internacional, como é o caso do conflito Israel-Palestina, o avanço da tecnologia e as questões ambientais. «Libertem a Palestina!», começou por dizer Amy Taylor. «É tão marado ver o que está a acontecer com aquelas pessoas que são inocentes, e sem razão nenhuma a não ser o colonialismo. E é uma loucura viver nos tempos que correm porque há uma mão gigante de problemas que nós nem sequer conseguimos perceber. Das redes sociais ao avanço da IA, passando pelas alterações climáticas, acho que é demasiado para carregarmos às costas. Eu não tenho respostas, mas quero dizer-vos que também penso sobre isso e que acho tudo tão f*dido como provavelmente vocês também acham.»

A reação a este pequeno discurso foi de uma euforia tremenda, com vários cânticos de «Libertem a Palestina!» a fazerem-se ouvir e bandeirinhas do país sob ataque a abanarem. Uma delas foi enviada para o palco e exibida por Amy durante “Some Mutts (Can’t Be Muzzled)”.

Num concerto onde o pé no acelerador foi uma constante, temas como “Big Dreams” e “Me and The Girls” ajudaram a resfriar o calor sentido na tenda do Palco Heineken com a redução de alguns bpms. Aliás, a primeira é completamente fora da caixa dentro do repertório dos Amyl and The Sniffers. Desde a sua estrutura tipo balada à sua letra sobre lutar pelos nossos sonhos, tudo se distancia da fúria a que estamos habituados. Mas isso não impediu que fosse uma das mais celebradas do concerto com grande parte do público a saber a letra de cor.

Por outro lado, se há malhas que definem instantaneamente aquilo que são os Amyl and the Sniffers são a “Jerkin’” e a “Tiny Bikini”. Símbolos da liberdade feminina, foram entoados igualmente por mulheres e homens que se distanciam cada vez mais dessa ideologia social que é a masculinidade tóxica, comprovando assim que um concerto de Amyl and the Sniffers é sempre um espaço seguro, de respeito e aceitação.

A fechar, “U Should Not Be Doing That” e “Hertz” apresentaram-se como o último apelo para uma volta final no mosh pit. E não é que ninguém quis ficar de fora.

Perante uma performance irrepreensível não há muito mais a dizer sobre este fenómeno australiano que continua arrebatar qualquer sala e festival por onde passa. Mas, uma coisa é certa, enquanto as injustiças políticas e sociais continuarem a dominar as manchetes, os Amyl and the Sniffers vão continuar a levantar a sua voz e os instrumentos em forma de protesto e nós lá estaremos para juntarmo-nos à sua eterna inquietação.