De regresso ao NOS Alive passado sete anos, os Nine Inch Nails apresentaram um concerto transcendental onde o minimalismo cénico e a força do industrial uniram-se numa experiência multissensorial.
[Não obtivemos autorização para fotografar este concerto e fazer a habitual reportagem fotográfica]
Banda de culto do universo da música industrial, os Nine Inch Nails (NIN) continuam a apresentar-se como uma banda única no espectro da música alternativa. À semelhança de outros projetos que proliferaram nos anos 90, como os Tool ou Deftones, também os NIN fazem parte desse grupo restrito de bandas de culto que arrastam multidões de devotos, mas à margem dos holofotes de um público mainstream. Além deste aspeto em comum, os seus concertos primam geralmente pela simplicidade cénica em favorecimento de um jogo de luzes que resulta numa espécie de instalação artística. Ora todos estes elementos fazem com que o público tenha uma experiência ainda mais imersiva e não tão passiva, transformando assim o concerto num acontecimento transcendental.
Ao NOS Alive 2025 os NIN trouxeram o fecho da leg europeia da sua “Peel It Back Tour 2025”, uma digressão que vê a banda a percorrer uma setlist recheada de clássicos, particularmente do velhinho “The Downward Spiral” (1994).
Já na casa dos sessenta, o enigmático líder e único membro fundador da banda, Trent Reznor parece não dar sinais da passagem do tempo, tal foi a boa forma física e vocal com que apareceu no Passeio Marítimo de Algés.
Já na casa dos sessenta, o enigmático líder e único membro fundador da banda, Trent Reznor parece não dar sinais da passagem do tempo, tal foi a boa forma física e vocal com que apareceu no Passeio Marítimo de Algés. Em palco juntou-se ainda ao seu braço direito de sempre Atticus Ross nos teclados e programação, ao famoso hired gun Robin Finck nas guitarras e sintetizadores, e aos mais novos, mas não menos importantes Alessandro Cortini no baixo e sintetizadores e Ilan Rubin na bateria.
O relógio marcava a 00:15 quando os NIN subiram a palco para desferir “Somewhat Damaged”. Pouco minutos tinham passado, mas imediatamente ficou evidente uma mistura sonora imaculada (do sítio onde estávamos a assistir). Este era um aspeto que temíamos que não acontecesse, tal foi o desastre escutado em Muse, onde o som esteve carregado de médios e agudos e sem graves “à vista”. Com uma deslumbrante cortina de luz a surgir em palco em “Wish” percebemos, rapidamente, que o técnico de luzes seria uma espécie de sexto elemento da banda, tal é a importação da sua função na criação de uma atmosfera luminosa que acompanhe a descarga sonora. Mas, se damos uma palavra de apreço ao técnico de luzes, então também temos que enaltecer aquele que, para nós, foi o verdadeiro MVP de todo o concerto. Falamos do videógrafo que sozinho andou a percorrer o palco, aos círculos, e a criar planos deslumbrantes de cada músico para serem passados em direto nos ecrãs gigantes a preto e branco num interessante jogo de claro-escuro.
Homem de poucas palavras, mas com uma presença de palco incontestável, Reznor deixou correr grande parte do set com pequenos agradecimentos e duas ou três intervenções mais alongadas. “Mr. Self Destruct” e “March of the Pigs” levaram o concerto para o campo do punk industrial com uma batida desenfreada a mostrar a maquinaria a funcionar a todo o vapor.
Em “Piggy” Trent dividiu o protagonismo entre o microfone e o sintetizador. Ao longe não conseguimos perceber bem o modelo, mas o nosso palpite vai para o Yamaha MODX7, uma nova versão do icónico DX7 que Reznor usou e abusou na tour de “The Downward Spiral”. Já no campo das guitarras, Trent parece ter usado uma hollow body de boutique e uma Parker Fly, enquanto Robin Finck não largou as suas Reverend Robin Finck Signature com uma interessante combinação de pickups Railhammer CHISEL. Por sua vez, o baixista Alessandro Cortini optou por um Ibanez ICB200.
Da hipnótica “The Lovers” ao pop industrial de “Less Than” houve espaço para um intenso headbang em “Reptile” e “Heresy”. Entre as músicas, numa pausa mais extensa, Trent Reznor dirigiu-se ao público para expressar a sua felicidade ao estar a terminar a tour europeia em Lisboa. «Às vezes sinto mesmo que estou no lugar certo. Vejo-vos a vocês e a lua e sinto que é aqui que devo estar», disse Reznor num ato de profunda gratidão para com aquele momento.
“Closer”, o hino afrodisíaco dos NIN, era das mais esperadas e foi naturalmente das mais celebradas pelo público, assim como “Copy of A” e “Perfect Drug”, esta última dedicada a David Lynch por fazer parte da banda sonora do seu filme “Lost Highway” (1997). Contudo, as homenagens não ficaram por aqui com inspirada cover de “I’m Afraid of Americans” a invocar a memória de David Bowie. «Adoramos esta cidade. Acho que nos vamos mudar para aqui. Não sei se sabem, mas as coisas nos EUA não estão famosas», disse Trent num momento de desabafo após “Every Day Is Exactly the Same”.
A sequência “Burn”, “The Hand That Feeds” e “Head Like a Hole” antecipava um final explosivo, mas os NIN trocaram-nos as voltas ao despedirem-se com a balada acústica “Hurt”. A escolha foi sem dúvida arrojada, e nem todas as bandas teriam estofo para jogar esta cartada, mas após um concerto tão dinâmico, numa articulação perfeita entre som, luz e imagem, qualquer escolha seria acertada para nos fazer sentir ainda mais preenchidos com tamanha instalação artística.
