De regresso a Portugal, após duas passagens pela MEO Arena em 2024, Olivia Rodrigo trouxe-nos novamente o universo púrpura de “GUTS”. Perante um primeiro dia de NOS Alive 2025 esgotado, a artista norte-americana mostrou que o rock corre-lhe nas veias e que este pode coexistir com a doçura das melodias pop.
[Nota: A Arte Sonora não fez parte da lista restrita de fotógrafos acreditados para fazer a habitual reportagem fotográfica]
Ao longo do nosso desenvolvimento enquanto sociedade sempre fomos guiados por vários estereótipos que procuraram separar as nossas ações, interesses e estética em duas categorias de género: masculino e feminino. Na música essa separação também chegou já no século XX com o surgimento dos vários géneros de música popular – aqui o termo popular é utilizado em oposição ao conceito de música erudita/clássica. O caso mais paradigmático é talvez a convenção social que determinou que o rock é predominantemente um género masculino e o pop um género predominantemente feminino. A ideia, ao longo das décadas, de que as meninas não tocam guitarra ou bateria, que não podem dizer palavrões nas letras, ou que não podem adotar uma estética com alguns toques masculinos, levou a que algumas vozes irreverentes se levantassem para contestar esses preconceitos.
Nos últimos 50 anos foram várias, as figuras femininas, que quiserem quebrar com o estereótipo e demonstrar que também podiam, e sabiam, rockar como os homens. Suzi Quatro nos anos 70, Joan Jett nos anos 80, Alanis Morissette nos anos 90 ou Avril Lavigne nos anos 2000: todas elas lançaram as bases para que Olivia Rodrigo se pudesse estabelecer como a grande sucessora desta nobre linhagem.
Agora, de regresso a Portugal, após ter esgotado por duas vezes a MEO Arena em 2024, Olivia voltou a confirmar o fenómeno que é, ao atrair para o Passeio Marítimo de Algés uma legião de fãs que se sente tentada a pegar numa guitarra e formar uma banda, ou a adotar uma estética mais punk, onde reinam as fishnets e os padrões tartan popularizados por Vivienne Westwood.
Apesar de no Alive ter substituído a saia em tartan por uma com brilhantes, Olivia não se fez rogada em dar início ao concerto com uma das suas músicas mais explosivas de “GUTS” (2023). “Obsessed” demonstrou que as aparências iludem, e Olivia tratou de dar uma chapada de luva branca aos haters quando sacou de uma Fender Mustang para desferir os power chords no último refrão. À volta os mais céticos abanavam a cabeça em jeito de aprovação, e sem dar espaço para mudanças repentinas de opinião “ballad of a homeschooled girl” manteve essa toada com a sua sonoridade garage rock meets emo.
Longe de ser um portento vocal, particularmente nas malhas mais rock, é na atitude em palco, aliada a uma certa sensualidade, que Olivia Rodrigo ganha pontos.
Longe de ser um portento vocal, particularmente nas malhas mais rock, é na atitude em palco, aliada a uma certa sensualidade, que Olivia Rodrigo ganha pontos. A sua persona de menina adolescente irreverente, apesar de já não o ser, fala mais alto ao ouvido dos fãs que ainda procuram a sua identidade nesta sociedade tão intolerante.
Numa sucessão de baladas que fizeram sobressair o seu timbre vocal doce e emotivo, Olivia conseguiu invocar os maiores coros da noite em “Vampire”, “Driver’s License” e “Traitor”, estas últimas duas com a artista ao piano. Já num momento de interação, recordou a sua estreia em Portugal em 2024. Da evocação do barulho que os fãs fizeram nesses concertos da MEO Arena a uma jura de amor aos nossos pastéis de nata, a artista expressou que Portugal é um país onde se sente muito bem.
Mas, rapidamente deixou-se de falinhas mansas para arrancar com “bad idea right?”, em mais um momento de pura descarga que culminou num solo de guitarra bem noisy. Aliás, ao longo do concerto foram vários os momentos em que as guitarristas Emily Rosenfield e Daisy Spencer se debruçaram em trocas de solos, riffs e licks.
Sem esquecer que estávamos perante uma performance pop, Olivia foi ao seu catálogo buscar “love is embarrassing”. É certo que o tema obedece a todos os clichés do género, mas ao vivo consegue transformar-se e proporcionar algo mais agradável ao ouvido.
Em mais um momento à guitarra, “pretty isn’t pretty” trouxe para as mãos da artista uma Gretsch Ranchen Penguin, um modelo pouco visto nestas andanças, mas que se revelou uma grande excelente escolha para este tema com uma sonoridade mais folk. “happier” tirou a guitarra das mãos de Olivia, mas apenas por breves instantes, pois quando partiu para “enough for you” já trouxe uma Fender Jazzmaster American Vintage, guitarra que se manteve durante “so american”.
Goste-se ou não, Olivia encarna e dignifica esses dois valores e está a conseguir transmiti-los a uma nova geração.
Encaminhados para a secção final do set principal, sentimos que energia do concerto estava a desvanecer-se com a escolha “jealousy, jealousy”, “favorite crime” e “deja vu”, mas tudo não passou de uma jogada de mestre para gerar um encore “brutal”, como refere o título da malha que abriu este segmento. A ponte para “all american bitch”, esse hino da irreverência adolescente da gen z, foi imaculada. Mas, por esta altura já todos ansiavam por “good 4 u”, tema que lançou a carreira de Olivia Rodrigo e que a posicionou como um dos nomes de destaque do revivalismo pop punk. A fechar, “get him back!” colocou-a empoleirada num truss de palco com um megafone em punho . Há lá coisa mais punk do que isto?
Numa altura em que muito se fala de quais poderão vir a ser as próximas rockstars, podemos dizer com certeza que uma delas será Olivia Rodrigo. Há muito que o lema sexo, drogas e rock ‘n’ roll caiu em desuso, mas isso não quer dizer que o espírito e a irreverência do rock se tenham perdido. Goste-se ou não, Olivia encarna e dignifica esses dois valores e está a conseguir transmiti-los a uma nova geração. Se isso conseguir equilibrar a discrepância de melómanos que há no rock e no pop, principalmente entre as camadas mais jovens, então já podemos considerá-la como uma aposta vitoriosa.
