As The Warning deram o arranque ao segundo dia do NOS Alive 2026 com um concerto sólido e cheio de confiança. Horas depois, os Skunk Anansie elevaram a temperatura do Palco NOS com rock, política e uma Skin que continua a transformar cada atuação numa declaração de intenções.
The Warning: três irmãs, muito som e pouca cerimónia
Abrir o Palco NOS não é tarefa pequena. Ainda há gente a entrar, gente a perceber o recinto, gente a comprar a primeira cerveja com aquela ilusão bonita de que o dia será gerido com calma. E, no meio disso, aparecem as The Warning como se o horário fosse apenas um detalhe administrativo. Três irmãs de Monterrey, México, sem grande aparato visual, sem truques de distração, sem precisar de inflacionar o palco. Guitarra, baixo, bateria, vozes e uma certeza imediata: aquilo soa muito maior do que devia para apenas três pessoas.
Há bandas jovens que ainda parecem estar a pedir autorização para ocupar espaço. As The Warning fazem exatamente o contrário. Daniela Villarreal segura a guitarra e grande parte da frente com uma confiança impressionante; Paulina, na bateria, é uma força da natureza e ainda canta como se isso fosse uma coisa simples; Alejandra dá ao baixo uma presença pesada, muito física, daquelas que ajudam a encher todas as lacunas do som. O mais interessante é que nada parece exercício de demonstração. Não há ali “olhem como tocamos bem”. Há só uma banda a tocar bem, ponto.
O mais interessante é que nada parece exercício de demonstração. Não há ali “olhem como tocamos bem”. Há só uma banda a tocar bem, ponto.
O concerto teve ritmo de banda que já sabe muito bem o que quer fazer. “MORE” abriu logo com força, “S!CK” manteve a pressão e “Qué más quieres” trouxe o espanhol para o Palco NOS sem pedir licença, o que me pareceu um dos detalhes mais importantes do concerto. Já tinha acontecido no dia anterior, com a banda SONYA a cantar em húngaro, e sinto qualquer coisa de especial em ouvir uma banda assumir a própria língua num festival grande, ainda mais quando isso encaixa tão naturalmente no resto do alinhamento. “DISCIPLE”, “Ritual” e “Sharks” mantiveram a máquina em movimento, sempre com aquela sensação de rock direto, feito para palco grande, mas sem perder o nervo.
Os melhores momentos vieram quando o concerto conseguiu juntar músculo e canção sem escolher um lado. “Hell You Call a Dream” teve aquele peso que obriga o corpo a reagir antes da cabeça; “EVOLVE” soou como uma declaração de intenções; “Kerosene” incendiou a reta final; e “Automatic Sun”, com final prolongado, fechou com a segurança de quem sabe que deixou uma marca. O público respondeu bem, mais do que seria apenas educado para a primeira banda do dia no palco principal. Aos poucos, a curiosidade transformou-se em adesão. Só ficou uma ausência difícil de ignorar: “Choke”. Num alinhamento tão forte, sentiu-se falta dela. Ficou um pequeno vazio de fã à espera de uma canção que nunca veio.
The Warning deram um daqueles concertos que parecem pequenos no papel e grandes na memória. Não porque tenham inventado uma nova forma de rock, mas porque fizeram o essencial com uma convicção rara: tocaram forte, cantaram bem, dominaram o palco e pareceram felizes a fazê-lo. Há dias de festival em que a primeira banda serve só para aquecer. Aqui não. Serviu para avisar que o segundo dia já tinha começado a sério.
Skunk Anansie: Skin continua a incendiar tudo à volta
Depois da abertura do Palco NOS pelas The Warning, com aquela energia de banda jovem que toca como se já tivesse vivido muito, Skunk Anansie vieram lembrar que experiência também pode ser combustível. Entraram com alguns minutos de atraso, mas isso desapareceu em segundos. Bastou Skin surgir em palco com uma T-shirt de suástica riscada, quase uma declaração de guerra antes da primeira palavra, para a coisa mudar de escala. Há vocalistas que lideram uma banda. Skin parece liderar o ar à volta dela.
“This Means War” abriu com força e deixou logo claro que aquilo não seria apenas uma viagem aos anos 90, embora a nostalgia estivesse lá, claro. Estava nas camisolas, nas letras cantadas pelo público, naquela reação imediata a certas músicas que já pertencem à memória de muita gente. Mas os Skunk Anansie não soaram como uma banda a viver do passado. Soaram como uma banda que sabe exatamente o que tem nas mãos e ainda tem vontade de o atirar à cara de quem está à frente.
Mas os Skunk Anansie não soaram como uma banda a viver do passado. Soaram como uma banda que sabe exatamente o que tem nas mãos e ainda tem vontade de o atirar à cara de quem está à frente.
A presença de Skin continua a ser uma coisa absurda. Voz intacta, corpo em movimento, olhar de desafio, discurso político apurado e uma ligação com o público que nunca pareceu decorativa. Quando falou de divisão, guerras, perseguição e intolerância antes de “God Loves Only You”, o concerto deixou de ser apenas explosão e ganhou outro peso. E isso sempre foi parte da força dos Skunk Anansie: a raiva não aparece como pose, aparece como matéria-prima.
Os momentos mais fortes vieram quando a banda juntou fúria e memória sem escolher um lado. “Charlie Big Potato” e “Because of You” mantiveram o concerto em alta. Foi depois desta última que Skin se dirigiu ao público elogiando o cartaz com a delicadeza que lhe é muito própria: «Seus malditos sortudos.» O recinto respondeu com aplausos, que é a resposta correta. “Hedonism” abriu aquela ferida bonita que toda a gente canta como se fosse sua, e “Weak” voltou a provar que há canções que não precisam de envelhecer para continuar a doer.
Quando Skin desceu para junto da plateia, a distância entre palco e público desapareceu por completo. Não como truque. Como necessidade. Em “Twisted”, desafiou toda a gente a saltar ao mesmo tempo. O recinto não precisou de pensar muito. Na reta final, “I Can Dream”, “Tear the Place Up” e “Little Baby Swastikkka” fecharam o concerto com a sensação de que os Skunk Anansie continuam a ser uma banda perigosamente viva. Antes de sair, Skin ainda arranjou tempo para uma despedida que vale a pena guardar: «Adoramos Portugal. Vimos cá há 32 anos e vocês continuam incríveis. Obrigado.» Competentíssima, sim, mas essa palavra até parece pequena demais. O que ficou foi suor, voz, política, memória e uma certeza simples: há bandas que regressam para provar que ainda conseguem. Skunk Anansie não precisaram de provar nada. Entraram, incendiaram e foram embora com o palco ainda quente.