Nem todos os concertos de festival vivem de nomes consagrados. Às vezes, os momentos mais interessantes acontecem quando se olha para quem ainda está a dar os primeiros passos. No último dia do NOS Alive, antes de os Pixies tomarem conta do Palco Heineken, Florence Road e Alessi Rose mostraram duas formas diferentes de crescer diante de um público cada vez maior.
O meu último dia de NOS Alive começou no Palco Heineken, mesmo com o Palco NOS já em andamento. Don West já tocava no palco principal e, durante este arranque, ainda haveria Teddy Swims por lá. Mas, naquele início de tarde, preferi o palco secundário. E a escolha acabou por fazer sentido.
Florence Road e Alessi Rose surgiam como duas artistas ainda em construção, o que não é a mesma coisa que dizer pequenas. Chegaram a Algés sem álbuns lançados, com carreiras feitas de singles, EPs, canções novas, promessas e públicos que parecem ter chegado antes da explicação oficial. Há algo de bonito nisso. Num palco onde mais tarde haveria Pixies, nostalgia, guitarras históricas e canções que já atravessaram décadas, a tarde abriu, para mim, com duas propostas que ainda estão a escrever o próprio mapa.
As Florence Road foram as primeiras a aparecer e começaram logo com uma pequena ousadia. “7563”, uma música ainda não lançada oficialmente. E não foi caso único. Ao longo do concerto, várias canções pareciam pertencer a um futuro que a banda já toca como se fosse presente. O mais curioso é que isso não causou estranheza nenhuma aos verdadeiros fãs, que estavam ali em número bem maior do que talvez muita gente esperasse. À frente do palco, havia quem soubesse exatamente ao que vinha. Não era só curiosidade de festival. Era devoção em fase inicial, que às vezes é a melhor devoção.
Depois veio “Storm Warnings” a dar força ao arranque, e logo a seguir “Heavy”, um dos grandes momentos do concerto. É uma música lindíssima, com aquele peso de shoegaze, alguma névoa grunge-romântica e a capacidade rara de soar ao mesmo tempo jovem e antiga. Mais à frente, “Figure It Out” levou a memória para os anos 90, com aquela energia que fazia lembrar boas bandas de guitarras britânicas, algures entre a urgência indie e a sujidade melódica. E “Miss” confirmou que havia mesmo uma comunidade ali. Foi cantada por muita gente que se apertava à frente do palco para ver de perto aquelas quatro miúdas irlandesas a viverem qualquer coisa que ainda parecia sonho.
E “Miss” confirmou que havia mesmo uma comunidade ali. Foi cantada por muita gente que se apertava à frente do palco para ver de perto aquelas quatro miúdas irlandesas a viverem qualquer coisa que ainda parecia sonho.
E talvez tenha sido isso o mais bonito do concerto. A alegria estampada nas caras delas. A baterista, Hannah Kelly, ficava visivelmente radiante a cada coro vindo da plateia, como se ainda estivesse a tentar perceber como é que aquelas vozes tinham chegado até ali. E tocou muito bem, com firmeza e energia. A baixista, Ailbhe Barry, a mais tímida, estava muito bem ligada a ela e ainda acrescentava uma segunda voz preciosa. Lily Aron, na frente, canta com doçura e raiva, uma combinação que dá outra dimensão à banda, e também segura a guitarra sem fazer disso pose. Do outro lado, a Emma Brandon tinha todos os trejeitos de quem cresceu a ouvir guitarras com reverberação, ruído e coração partido. Ora criava ambiente, ora trazia peso.
Na reta final, “Hanging Out to Dry” mostrou-se facilmente assimilável, daquelas canções novas que parecem já ter existido antes na cabeça do público. “Goodnight”, com ar de balada meio country, meio indie, e alguma irreverência torta que até fazia pensar nos Pixies, foi outro belo momento. E “Break the Girl” fechou com aquele balanço pop-grunge que o público recebeu muito bem. Ficou só uma ausência a doer: “Caterpillar”. Era esperada por muitos fãs e fez falta. Ainda assim, Florence Road deram um grande concerto, à altura de quem já as seguia e talvez acima da expectativa de quem apenas passou por ali. Foi fresco, luminoso, cheio de vontade. Um daqueles concertos que não esmagam, mas enchem o coração.
Logo a seguir veio Alessi Rose, noutro registo, mas com uma coincidência importante: também ela ainda está a construir carreira sem álbum lançado. Só que, no caso dela, a sensação é menos de banda a crescer num circuito indie e mais de artista pop a começar a subir uma escada que pode ficar muito alta. Há ali um parentesco evidente com essa nova geração de pop confessional, direta, ansiosa, guitarrada quando precisa, em que Olivia Rodrigo é a referência inevitável. E isso não é insulto. É apenas o território onde Alessi Rose se move, ainda à procura de uma assinatura completamente sua, mas já com canções que ficam.
O público, aqui, era mais dividido. À frente, havia fãs verdadeiros, alguns visivelmente emocionados, a cantar tudo com uma entrega que não se inventa. Mais atrás, já se sentia muita gente a ocupar espaço para os Pixies, e parte dessa plateia podia ter assistido ao concerto mais por circunstância do que por vontade. Mas Alessi não deixou que isso definisse o concerto. Foi comunicativa, agradecida, presente, sempre com aquele entusiasmo de quem ainda olha para palcos grandes com algum espanto. Disse mais do que uma vez que, há pouco tempo, estaria ali em baixo a ver os seus ídolos. E essa frase, mesmo podendo soar a discurso repetido de festival, nela pareceu sincera.
A abertura com “eat me alive” e “That Could Be Me” funcionou muito bem. São canções diretas, fáceis de agarrar, com refrões que entram depressa e não pedem autorização para ficar. “First Original Thought”, “Dumb Girl”, “Stella” e “Same Mouth” mostraram bem o lado mais eficaz da escrita dela: melodias simples, emoções reconhecíveis e aquela energia de diário cantado em voz alta. Não é música feita para parecer misteriosa, mas para ser entendida na hora. E isso, quando resulta, tem força.
Na parte final, “Crush!” trouxe um dos momentos mais fortes do concerto, com a leveza certa e aquele sentido de refrão que explica porque tantos fãs já sabem tudo de cor. “oh my” fechou bem, sem transformar o concerto numa explosão artificial, mas deixando a sensação de que Alessi Rose tem material, presença e público para continuar a crescer. Talvez ainda não tenha a profundidade ou a identidade totalmente fechada de quem já carrega vários discos. Também não precisa de fingir que tem. Neste momento, a graça está precisamente aí. Uma artista em formação, a testar o tamanho das próprias canções diante de palcos que já começam a ser grandes.
Florence Road e Alessi Rose fizeram sentido de formas diferentes no mesmo Palco Heineken. As primeiras tocaram como banda a viver a primeira grande fase de encantamento. A segunda apresentou-se como promessa pop já com fãs de olhos molhados na primeira fila. Nenhuma delas tem ainda um álbum para servir de coluna vertebral. Talvez por isso os concertos tenham tido essa sensação de página aberta. Antes dos Pixies entrarem com a autoridade de quem já escreveu capítulos inteiros da história alternativa, foi bonito ver duas artistas ainda a descobrir onde a própria história pode chegar.