NOS Alive 2026 | Florence + The Machine: A feiticeira tomou conta do recinto
Foto tirada no NOS Alive 2022 (c) Inês Barrau

NOS Alive 2026 | Florence + The Machine: A feiticeira tomou conta do recinto

Review

Banda
10/10
Voz
10/10
Som
10/10
Ambiente
9/10
Overall
9.8/10

Depois de os Pixies fazerem o Palco Heineken parecer pequeno demais para a própria história, havia ainda uma noite inteira no Palco NOS. E havia Florence + The Machine.

[ Florence + The Machine não autorizaram a captação de fotos por parte da imprensa]

Num dia com Teddy Swims, Lorde, Pixies e Buraka Som Sistema, podia parecer difícil alguém reclamar o centro emocional do festival com tanta clareza. Florence Welch fê-lo em poucos minutos. Toda de vermelho, dos cabelos ao vestido, descalça e com a voz em estado de graça, entrou como quem não vem apenas para cantar. Vem abrir uma clareira no meio da multidão.

Na internet, há quem a chame carinhosamente de “bruxona”, e percebe-se. Não no sentido fácil da fantasia, mas naquele lado de sacerdotisa pop, figura meio terrena, meio celestial, meio impossível de alcançar, que transforma um palco enorme numa espécie de ritual coletivo. Florence corre, roda, dobra-se, levanta os braços, comanda coros, sorri como se estivesse surpreendida com a própria devoção que provoca, e depois canta de uma forma escandalosa. Bonita, afinada e poderosa. Uma voz que podia facilmente esmagar tudo à volta, mas que prefere alternar entre delicadeza e explosão. É aí que mora boa parte da magia.

“Everybody Scream” abriu como declaração de intenções. Toda a gente grita, toda a gente dança, toda a gente entra, como pede a música. E o público entrou mesmo. Não foi uma plateia à espera de hits. Foi uma plateia ativa desde o início, a responder, a cantar, a acompanhar aquele corpo em movimento permanente. “Shake It Out” chegou cedo e já parecia final de concerto, daquelas canções que limpam alguma coisa por dentro. “Which Witch”, “Spectrum” e “Rabbit Heart (Raise It Up)” continuaram a puxar o espetáculo para essa zona entre celebração, exorcismo e festival de verão onde, por momentos, tudo parece menos pesado.

Bonita, afinada e poderosa. Uma voz que podia facilmente esmagar tudo à volta, mas que prefere alternar entre delicadeza e explosão. É aí que mora boa parte da magia.

O alinhamento teve uma inteligência muito própria. “You Got the Love” trouxe aquela dimensão de comunhão que Florence + The Machine sempre souberam criar sem parecer forçada. “Hunger” e “King” deram corpo ao lado mais dramático e afirmativo da sua escrita. “Howl” e “What Kind of Man” trouxeram mais músculo, mais sombra, mais animal. E “Heaven Is Here” foi talvez um dos momentos em que essa ideia de bruxaria cénica fez mais sentido: percussiva, física, quase tribal, com Florence a parecer menos uma cantora a interpretar uma canção e mais alguém a ser atravessado por ela. E o conjunto de bailarinas ajudava no ritual.

Mas o concerto não viveu apenas da dimensão grande. Viveu muito da proximidade. Florence tem essa capacidade rara de atuar para dezenas de milhares de pessoas e, ainda assim, fazer parecer que está a cantar para alguém específico na primeira fila. Quando se aproxima do público, quando toca mãos, quando abre espaço para o silêncio ou para uma frase mais íntima, não parece estratégia de palco. Parece necessidade. E isso muda tudo.

Na reta final, “Never Let Me Go” trouxe toda a beleza líquida, triste e enorme, que fez muita gente cantar como se estivesse a segurar alguma coisa que não queria perder. Depois veio “Sympathy Magic”, mais despida, mais próxima, quase suspensa, antes do momento inevitável de “Dog Days Are Over”. E aí, sim, o recinto explodiu. O pedido para guardar os telemóveis e viver a canção sem a transformar apenas em registo fez sentido precisamente porque vinha dela. Não soou a sermão. Soou a convite. E grande parte do público aceitou. Saltou, cantou, abraçou, respirou junto. Às vezes ainda acontece.

“Free” fechou com libertação. Depois de tanta entrega, tanta voz, tanto vermelho, tanto corpo em movimento, havia profundidade coerente naquela palavra final. Livre. Florence + The Machine não deram apenas um concerto bonito. Deram um concerto espetacular, daqueles que justificam a devoção e explicam porque tanta gente saiu do recinto logo depois, mesmo com Buraka Som Sistema ainda por vir. A debandada disse muito. Não por desrespeito ao que faltava, mas por confirmação do que tinha acabado de acontecer. Para muita gente, a noite era ela.

E foi mesmo. Florence Welch esteve perfeita em palco. Não perfeita por ser polida, mas por parecer inteiramente dentro daquilo que fazia. A voz, a presença, a banda, o público, o vermelho, o movimento, a catarse. Tudo encaixou. Há concertos que impressionam. Há concertos que emocionam. Este fez as duas coisas e ainda deixou aquela mágica sensação de termos participado em algo maior do que a soma das músicas. A bruxona tomou conta do recinto. E ninguém pareceu querer ser salvo.