NOS ALIVE 2026 | Nick Cave & The Bad Seeds: a cerimónia de um homem inteiro
(c) Matilde Fieschi / NOS Alive

NOS ALIVE 2026 | Nick Cave & The Bad Seeds: a cerimónia de um homem inteiro

11/07/2026

Review

Banda
10/10
Voz
10/10
Som
9/10
Ambiente
8/10
Overall
9.3/10

Maior do que o próprio palco. Foi assim que Nick Cave se apresentou no NOS Alive, liderando os The Bad Seeds num concerto que oscilou com mestria entre a tempestade e o silêncio. Dos momentos mais cinematográficos à intimidade despida ao piano, o músico australiano deu uma lição de presença e magnetismo, transformando o ruído do festival num ritual catártico.

[Devido a restrições por parte do artista, a Arte Sonora não teve autorização para fotografar o concerto]

Há vários tipos de concertos… E depois há os de Nick Cave & The Bad Seeds, que entram noutro território qualquer, mais difícil de descrever sem parecer exagerado. No Palco NOS, entre a luz que ainda restava e a noite que começava a tomar conta do recinto, Nick Cave não apareceu apenas para apresentar canções. Apareceu para ocupar o espaço inteiro. Corpo, voz, mãos, olhar, piano, silêncio. Tudo nele parecia estar ao serviço de algo maior do que o alinhamento.

“Get Ready for Love” abriu a noite como uma convocatória. A partir daí, o concerto foi ganhando aquela intensidade muito própria do universo de Nick Cave, onde o músico tanto pode surgir como pregador, animal de palco, mestre de cerimónias ou um homem à beira de uma queda que nunca chega a acontecer. Os Bad Seeds acompanharam-no com uma elegância brutal, sempre no ponto certo entre a contenção e a tempestade. Warren Ellis, como quase sempre, parecia funcionar como uma espécie de sombra elétrica de Cave, a puxar a música para sítios mais frágeis ou mais violentos conforme a necessidade.

Warren Ellis, como quase sempre, parecia funcionar como uma espécie de sombra elétrica de Cave, a puxar a música para sítios mais frágeis ou mais violentos conforme a necessidade.

O alinhamento ajudou muito. “From Her to Eternity”, “Tupelo”, “The Mercy Seat”, “Papa Won’t Leave You, Henry”, “The Weeping Song”, “Jubilee Street” e “Hollywood” deram ao concerto uma sensação de totalidade, como se a banda fosse atravessando várias vidas numa só noite. Mas houve momentos em que tudo pareceu elevar-se ainda mais. “O Children” foi um desses casos. Há qualquer coisa naquela canção que suspende o tempo, e ali, no meio de um festival, conseguiu criar um silêncio interior raro. Não é uma música que simplesmente se canta. É uma música que se atravessa.

“Red Right Hand” trouxe outro tipo de reação, mais imediata, mais reconhecível, quase cinematográfica. O público recebeu-a como se já estivesse à espera daquele gesto, daquele baixo fantasmagórico, daquela figura de Cave a comandar a escuridão com uma naturalidade assustadora. E mesmo sendo talvez uma das canções mais populares da noite, não soou a concessão fácil. Soou a peça inevitável de um ritual que já estava em andamento.

Mas talvez o momento mais bonito tenha ficado guardado para o fim. “Into My Arms”, ao piano, não precisa de quase nada para fazer estragos. Voz, teclas e aquele espaço entre as notas onde cada pessoa coloca a sua própria memória. Depois de tanta intensidade, de tanta presença física, de tanto palco percorrido como se fosse território sagrado, Cave reduziu tudo ao essencial. E foi aí que o concerto ficou ainda maior. Porque nem sempre é preciso levantar a voz para dominar uma multidão. Às vezes basta fazer com que ela prenda a respiração.

Nick Cave & The Bad Seeds deram uma apresentação de gala, sim, mas sem a frieza que essa expressão às vezes pode carregar. Foi elegante, mas sujo quando precisava. Solene, mas vivo. Teatral, mas nunca vazio. Os músicos estiveram completamente dentro daquilo, e Cave, aos 68 anos, continua a ter uma presença que parece desafiar qualquer explicação simples. Não é só carisma. Não é só repertório. Não é só performance. É uma forma muito rara de fazer com que uma canção pareça estar a acontecer pela primeira vez, mesmo quando já vive connosco há décadas.

No fim, ficou a sensação de termos assistido a algo maior do que um concerto de festival. E talvez seja esse o luxo de ver Nick Cave ao vivo: por mais gente que esteja à volta, por mais ecrãs, copos, filas e ruído de recinto, há momentos em que tudo encolhe até caber numa voz. Naquela noite, o Palco NOS pareceu grande. Nick Cave pareceu maior.