Pela segunda noite consecutiva, Bad Bunny transformou o Estádio da Luz numa imensa La Placita de Santurce. Entre a música de raiz porto-riquenha, o reggaeton e o trap latino, Benito serviu-nos um manifesto político-cultural em formato concerto.
[Bad Bunny não se deixou fotografar pela Arte Sonora e por isso estar artigo não terá a habitual galeria]
Nascida nos bairros da classe operária de Ponce, em Porto Rico, na viragem do séc. XIX para o XX, a Plena é um dos géneros tradicionais que melhor conta a longa história de opressão do país caribenho. Inicialmente apelidada de “el periodico cantado” (o jornal cantado), pois relatava nas suas letras momentos da história de Porto Rico, assim como do dia a dia das suas gentes, a Plena surge no contexto da transferência do domínio do país por parte de Espanha para os EUA, estando associada também ao pós-abolição da escravatura em Porto Rico e à deslocação dos trabalhadores da cana-de-açúcar para os centros urbanos da ilha. A sua origem nas classes mais baixas da sociedade porto-riquenha levou as elites a considerar este estilo musical como um género de contestação social, associando-o a indivíduos ligados ao conceito de la vida alegre (vida marginal), onde se incluíam prostitutas, dançarinas, alcoólicos e outras pessoas consideradas imorais aos olhos dessas mesmas elites.
Consequentemente, os espaços onde a Plena era geralmente cantada e dançada estavam também eles associados a um ideal marginal e subversivo como era o caso das cafetines, um misto de bar e bordel onde conviviam pessoas de diferentes origens étnicas. Sensivelmente um século depois, a história continua a demonstrar que ainda existe uma elevada repressão da cultura caribenha por parte dos EUA e é com base neste contexto histórico e na atual conjuntura hostil para com a imigração latina, e particularmente porto-riquenha, que Bad Bunny trouxe a Plena, assim como a Bomba e o Jíbaro, para as bocas do mundo em “Debí Tirar Más Fotos” num ato de resistência e de intervenção para com as políticas de Trump.
Sensivelmente um século depois, a história continua a demonstrar que ainda existe uma elevada repressão da cultura caribenha por parte dos EUA e é com base neste contexto histórico e na atual conjuntura hostil para com a imigração latina, e particularmente porto-riquenha, que Bad Bunny trouxe a Plena, assim como a Bomba e o Jíbaro, para as bocas do mundo em “Debí Tirar Más Fotos” num ato de resistência e de intervenção para com as políticas de Trump.
«Un aplauso pa’ mami y papi, porque, en verda’, rompieron», cuja tradução se apresenta como «um aplauso para a mãe e o pai, porque eles realmente arrasaram», foi a primeira frase proferida por Bad Bunny após subir ao palco através de uma plataforma elevatória. Antes disso, um vídeo projetado na imensa tela de fundo mostrava que Benito não iria apresentar uma produção visual pré-formatada para todos os concertos da tour. A dar o pontapé de saída para “LA MuDANZA”, surgiram os irmãos, e criadores de conteúdo, Duarte e Martim Lapa sentados numas escadinhas de um bairro típico lisboeta para um momento de profunda ligação entre o público português e a estrela porto-riquenha.
A aclamação por parte do público foi imediata, com cânticos de «Benito! Benito!» a soarem como um coro ensurdecedor. Posicionado ao centro do palco principal, e com a banda num plano mais abaixo na sua retaguarda, Bad Bunny mostrou desde logo que a sua postura imponente, carismática e sedutora seria suficiente para encher um palco de dimensões consideráveis, com o público a circundá-lo por todos os lados.
Ainda “LA MuDANZA” não tinha terminado quando nos apercebemos que os músicos que estavam nas costas não iriam ser meros figurantes. A banda que acompanha Bad Bunny é composta por alguns dos melhores músicos de Porto Rico, e tendo consciência e respeito por isso, Benito fez questão proporcionar vários momentos de destaque ao longo de todo concerto. Neste primeiro tema, os holofotes apontaram para o homem das congas num espectáculo de puro virtuosismo rítmico.
Desde a primeira nota que o som do concerto se mostrou bastante equilibrado e dinâmico, particularmente na zona onde estávamos posicionados (camarotes). O cruzamento das várias percussões, dos teclados, dos metais e do cuatro podia trazer algumas inconsistências, mas os técnicos de som souberam gerir bem esse essemble, beneficiando também por sua vez das excelentes condições climatéricas.
Dotado com o dom da palavra, Bad Bunny sabe falar ao coração dos fãs. Num discurso articulado, humilde e profundamente humano, o músico dirigiu-se várias vezes ao público com mensagens de muita empatia e inspiração. «Ontem foi a minha primeira vez aqui em Portugal», começou por dizer. «Tive uma noite muito bonita e não esperava ver tanta gente. Não sabia que tanta gente me queria aqui em Lisboa. Ontem foi uma loucura, mas como se costuma dizer a segunda é sempre melhor.»
Contribuindo para a ideia de que cada data da tour seria diferente, com momentos cunhados especificamente para cada cidade, em “Callaita”, Benito decidiu reservar uma secção para homenagear a herança musical portuguesa. Se na primeira noite a homenagem tinha sido feita através de um arranjo de “Lisboa Menina e Moça”, nesta segunda noite, a feliz contemplada foi “A Minha Casinha” dos Xutos.
Escusado será dizer que um coro de vozes se levantou de imediato como se estivéssemos perante o hino do nosso país. Em ambas as noites, este momento ficou a cargo do guitarrista de Bad Bunny, que no contexto da música tradicional porto-riquenha toca um cordofone conhecido como cuatro. Segundo a organologia, disciplina que estuda a história dos instrumentos musicais, o cuatro tem como antecessores a vihuela espanhola e o cavaquinho português. Mas, contrariamente ao seu nome, o cuatro já não possui apenas quatro cordas. Nos finais do séc. XIX foi criado um modelo com dez cordas organizadas em cinco parelhas e desde então esta é a configuração base deste instrumento na música latina.
Como já vem sendo habitual nestes concertos a participação ativa do público com uma coreografia luminosa é algo que contribui e muito para o espetáculo. À semelhança dos concertos de Taylor Swift e Coldplay, também Bad Bunny recorreu à tecnologia da PixMob para criar uma experiência imersiva onde cada foco de luz provinha de uma máquina fotográfica alusiva ao título do seu último álbum. “WELTiTA”, que contou com a participação de Lorén Aldarondo dos Chuwi, banda que abriu o concerto, foi um desses momentos imersivos onde o Estádio da Luz se iluminou com as luzes a dispararem como flashes.
«É incrível como a vida nos trouxe até aqui. Como nos juntou. Não tenham medo de bailar. Esta noite é vossa», disse antes da sua banda abrir a maior pista de dança a céu aberto com “BAILE INoLVIDABLE”. Já em “NUEVAYoL”, um dos poucos momentos do concerto em que contou com bailarinos em palco, foi impossível não fazer a ligação entre aquele momento e o enredo de “West Side Story”. Por momentos, pareceu que estávamos a assistir aos The Sharks a dançar e a cantar pela sua identidade cultural nessa metrópole que é Nova Iorque.
Terminado o primeiro segmento do concerto, eis que Bad Bunny se encaminhou para o segundo palco desta gigante produção. Situada, na extremidade oposta a La Casita é para muitos fãs o principal ponto de atração da Debí Tirar Más Fotos World Tour. Desenhada pela designer de produção Mayna Magruder em colaboração com a diretora de arte Natalia Rosa, a La Casita surge como uma réplica à escala real de uma casa tradicional porto-riquenha que existe na cidade de Humacao e que Benito utilizou para as gravações do short film que lançou juntamente com o álbum. Porém, esta ideia não caiu nas graças de Román Carrasco Delgado, o proprietário da casa original, e a 17 de Setembro de 2025 Bad Bunny acabou por ser processado com a alegação de que a réplica tinha sido construída sem o seu consentimento.
Pelo ambiente de festa gerado em torno da La Casita é neste segmento que Bad Bunny se dedica mais aos temas de reggaeton e de trap latino, com o ensemble caribenho a ser substituído por um DJ e pelos beats de 808.
O que é certo é que o segmento do concerto na La Casita tem se apresentado como um grande sucesso. Em todas as datas, Bad Bunny tem trazido para este palco convidados ilustres, desde desportistas a figuras da televisão, do cinema e da música, além de alguns fãs sortudos que são selecionados pela equipa de produção do músico para participarem neste momento certamente inesquecível. Pelo ambiente de festa gerado em torno da La Casita é neste segmento que Bad Bunny se dedica mais aos temas de reggaeton e de trap latino, com o ensemble caribenho a ser substituído por um DJ e pelos beats de 808. Temas como “VeLDÁ”, “Tití me preguntó”, “ VOY A LLeVARTE PA PR”, “Diles” e “ MONACO” cativaram os fãs de perreo, mas foi a música surpresa que Benito apresenta todas as noites neste segmento que os fãs mais ansiavam ouvir. Na primeira noite o público tinha sido brindado com “Estamos bien”, já nesta segunda data os fãs tiveram direito a um convidado especial. Diretamente do Panamá, Sech subiu ao telhado da La Casita para cantar “Ignorantes”. Mas, como se isso não bastasse, Bad Bunny ainda lhe concedeu um momento a solo para cantar “Otro Trago”. A despedida da La Casita surgiu com o grupo de plena Los Pleneros de la Cresta’ a entrarem pelo alpendre adentro para uma parranda bem ao estilo de Porto Rico. “CAFé CON RON” foi entoada por todo o estádio num ambiente festivo, enquanto “Abreme Paso” trouxe um cheirinho de plena na sua forma mais autêntica.
Já de regresso ao palco principal para a reta final do concerto Bad Bunny sacou os últimos trunfos da noite. As colaborações “La canción” e “DÁKITI” sobressaíram nesta espécie de encore alargado, mas foi “DTMF” que invocou a última grande manifestação por parte do público, com o estádio a entoar a letra com um sentimento de alguma saudade para com algo que ainda não tinha terminado. «Não se esqueçam de desfrutar das coisas pequenas. Não desperdicem o vosso tempo a pensar no passado e em coisas que não podem resolver. Não guardem rancor e não se preocupem tanto com o futuro. O mais importante é o presente.» Foi esta a última mensagem que Bad Bunny deixou aos fãs. Perante tempos tão desafiantes onde assistimos ao escalar de conflitos geopolíticos, ao avanço assustador da tecnologia e à deterioração das relações humanas, Bad Bunny surge aqui como uma figura humana com um discurso altamente vulnerável e autêntico, algo cada vez mais raro quando chegamos a este patamar da indústria da música. A fechar a noite “EoO” soltou um espetáculo pirotécnico digno de uma passagem de ano nas Caraíbas. 2h30m depois o jangueo de Bad Bunny em Lisboa chegara ao fim com a certeza Benito é um Artista com A e um Humano com um H ainda maior.
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