Uma vez mais a Arte Sonora rumou ao Monte do Gozo, dois anos após a última passagem pelo festival O Son do Camiño.
Se há duas edições, o som do Son do Camiño deixou um ligeiro amargo de boca, desta vez a organização galega fez uma série de melhorias, mais do que visíveis, audíveis. O conceito dos dois palcos, de igual tamanho, lado a lado, continua a revelar-se muito interessante. Exclui ter de se escolher que bandas ver, reduz imenso o tempo de espera entre atuações e garante uma sequência de concertos bastante fluida. Fluida continua também a deslocação dentro do espaço, mesmo ontem, num dia com lotação completamente esgotada. O som estava manifestamente melhor do que há dois anos. Porém, no reverso da medalha, a localização e a dimensão das régies de cada palco continuam a retirar imensa visibilidade e a criar uma grande barreira no recinto.
Além disso, a proximidade dos palcos continua a dar origem a momentos embaraçosos: ontem, por exemplo, a meio do concerto de Linkin Park, começou a ouvir-se o sound check de The Bloody Beetroots.
Mais do que um simples regresso ao festival, o verdadeiro motivo desta viagem a solo galego foi ver os Linkin Park em modo ensaio geral antes de rumarem ao Rock in Rio Lisboa. Tratou-se de uma oportunidade para entender em primeira mão o que o público português vai encontrar no Parque Tejo, aferindo como a banda se reestruturou, como gere o peso de um legado gigante e se a nova dinâmica em palco mantém aquela catarse coletiva que arrepiava nos anos 2000.
Antes de irmos aos Linkin Park, falemos de Biffy Clyro. Atuação irrepreensível, como sempre, de uma das bandas rock mais interessantes, viscerais e inventivas dos últimos vinte anos, que consegue ser simultaneamente um monstro imparável no Reino Unido, capaz de esgotar arenas e ser headliner nos principais festivais, e, logo ao lado, sofrer de uma persistente e injusta incompreensão no resto da Europa.
Talvez seja por serem difíceis de rotular ou porque se recusam viver às custas de duas ou três músicas pop mais fáceis. Admire-se a banda pelo facto de continuarem a traçar um caminho muito próprio e terem esta capacidade invulgar de misturar essas tais melodias mais acessíveis com outras bem mais pesadas.
Vê-los a tocar naquele palco grande e com apenas algumas centenas de pessoas a demonstrar aproveitar de verdade, no meio de várias dezenas de milhar, quase fez aquele concerto parecer um evento à parte do resto do festival. Porém, os Biffy Clyro jogam numa liga artística superior, lutando a cada nota pelo reconhecimento global que o resto do mundo teima em adiar. O concerto de ontem foi uma demonstração pura de força e de integridade rock. Pode ser que tenham saído de Santiago de Compostela com mais uma mão cheia de fãs. Mon the Biff!
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Idos apenas 20 minutos após o fim da atuação de Biffy Clyro, e logo depois do trailer do documentário “UNSHATTER”, surgiu a contagem decrescente nos ecrãs gigantes para a entrada dos Linkin Park em palco. Foi um começo forte, mas com uma energia pouco duradoura. Mesmo com a entrega da banda e a sua dinâmica em palco a carregar um catálogo de peso, o público galego não pareceu estar 100% à altura do desafio.
Quando os Linkin Park em Lisboa disserem que o público português é o melhor do mundo, a tendência vai ser acreditar que é efetivamente verdade e não apenas uma frase feita para gerar mais escutas no Spotify.
De t-shirt cinzenta e calças castanhas, Emily Armstrong entrega-se de alma e coração à tarefa de co-liderança desta versão 2.0 do grupo. Não tenta ser Chester Bennington. A presença do malogrado cantor sente-se numa memória auditiva e visual coletiva e está bem patente no desespero de algumas das letras. Emily não tenta ser Chester, mas consegue ser Emily na perfeição. Os Linkin Park, mesmo carregando uma história de quase 30 anos, são uma banda totalmente renovada com ela à frente.
Agora que estamos em plena época de Campeonato Mundial de Futebol, fica aqui a analogia: a partir de dada altura, os Linkin Park e o público do O Son do Camiño pareciam estar a jogar para o empate, tal como fez Portugal com a RD Congo. Foi um concerto morno, às vezes muito parado, com demoradas pausas e momentos de quebra a roçar o aborrecido. Por exemplo em “One Step Closer”, música que quando foi tocada em 2003 em Lisboa quase mandou abaixo o Pavilhão Atlântico, ontem não conseguiu por mais do que algumas dezenas de pessoas a saltar. O concerto valeu pela reta final carregada de hinos, disparando de rajada “Numb”, “In the End”, “Faint” e um encore com “Papercut”, “Heavy Is the Crown” e “Bleed It Out”.
Poderia ter sido um final em glória, porém, tendo em conta tudo que se havia passado até então, e voltando às analogias do futebol, parecia que os Linkin Park já só estavam a bombear bolas para a área na esperança de mudar o resultado.
Esperemos que, em Lisboa, público e banda joguem assumidamente para ganhar.
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