O Palco Coura Sem Paredes do Vodafone Paredes de Coura 2026 não viveu apenas de descobertas. Em vários momentos da edição, deixou de parecer palco alternativo e passou a funcionar como um centro próprio de intensidade, risco e comunhão.
Foi ali que algumas bandas encontraram o público certo à hora certa, sem dependerem do peso simbólico do Palco Vodafone. The Horrors, WU LYF, Show Me The Body, Maruja e Prostitute deram ao segundo palco uma energia tão própria que a ideia de hierarquia faz pouco sentido.
The Horrors abriram esse capítulo logo no primeiro dia com o peso de uma banda já carimbada no rock gótico e no pós-punk britânico, mesmo atravessando uma fase de reconstrução. A formação mudou bastante, mas Faris Badwan continua a ter uma voz magnífica e uma presença capaz de segurar a atmosfera mais sombria do grupo sem transformar tudo em exercício de nostalgia. Ao lado de Joshua Hayward, o outro pilar atual da banda, mostrou que The Horrors ainda conseguem trabalhar bem entre sombra, elegância e tensão. O concerto alternou momentos de maior densidade melancólica com passagens mais físicas, deixando a sensação de uma banda coesa, apesar de quase completamente diferente daquela que muitos conheceram primeiro.
Também no primeiro dia, University ficaram como caso curioso. Foram apenas duas músicas vistas, já com o cansaço a pesar, e isso não chega para uma avaliação completa. Ainda assim, o pouco que se ouviu ajudou a explicar o burburinho que apareceu no dia seguinte entre quem estava acampado ou quem saiu mais tarde. O som parecia pesado, divertido, nervoso e difícil de arrumar numa gaveta simples, algures entre math-punk, noise-rock e uma energia absurda de sala pequena transportada para festival. Fica mais como pista do que como sentença crítica. Duas músicas não chegam para fechar uma opinião, mas chegaram para deixar a sensação de que se perdeu alguma coisa.
No segundo dia, WU LYF deram o grande momento do Palco Coura Sem Paredes. A minha admiração pela banda podia tornar esta opinião suspeita, mas o concerto tratou de resolver esse problema pela força dos acontecimentos. Foi uma atuação de entrega total, voz excelente, banda muito entrosada e uma energia peculiar, pesada sem perder carisma. Ellery James Roberts continua a cantar como se cada frase tivesse de atravessar uma parede antes de chegar ao público. A voz dele não procura limpeza, procura impacto, e em Coura teve essa força rara de parecer ao mesmo tempo ferida, espiritual e física.
Os restantes elementos responderam à altura. Evans Kati deu corpo às guitarras e aos apoios vocais, Tom McClung manteve a base entre baixo, guitarra e vozes, e Joe Manning foi decisivo na bateria, fazendo tudo tremer no instrumento dele. À volta dessa formação, o músico de teclados da atual versão ao vivo acrescentou mais densidade e chegou também a assumir o baixo em alguns momentos, o que libertou ainda mais a massa rítmica do concerto. Essa alternância ajudou a criar uma sensação de movimento permanente, com bateria e baixo sempre em diálogo e o som a ganhar volume emocional sem perder direção.
Ellery Roberts conduziu tudo com aquela intensidade que parece sempre estar a um passo de se desmanchar e, precisamente por isso, se torna tão magnética. Lembrou que parte do último álbum foi gravada em Lisboa, elogiou Portugal e as pessoas, e prometeu regressar. Mas o momento que ficou para a memória veio perto do final, quando desceu para a plateia e se deixou levar pelo público durante vários minutos. Foi carregado por metros, chegou a dar cambalhotas sobre a multidão e transformou o concerto numa catarse real, sem pose de festival fabricada. Quando terminaram com “Heavy Pop”, a sensação era clara: WU LYF tinham sido a melhor banda do dia.
Quando terminaram com “Heavy Pop”, a sensação era clara: WU LYF tinham sido a melhor banda do dia.
Pouco depois, Show Me The Body confirmaram a indicação feita pelo próprio Ellery Roberts mais cedo no palco. O trio nova-iorquino não é uma banda fácil de explicar a quem nunca os viu. A primeira impressão podia enganar, porque aquilo que parecia uma guitarra de quatro cordas era, na verdade, o banjo amplificado de Julian Cashwan Pratt, tratado como arma de ruído, feedback e ataque punk. Esse detalhe ajuda a perceber porque o som da banda foge ao formato mais habitual do hardcore ou do noise-rock.
A atuação teve peso, aspereza e uma sensação permanente de confronto. O baixo distorcido empurrava tudo para baixo, a bateria mantinha a urgência e o banjo rasgava por cima como se viesse de outro género musical arrastado para dentro de um porão nova-iorquino. Show Me The Body não procuram beleza fácil, mas encontraram em Coura um público disposto a aceitar a pancada. Foi um concerto físico, tenso e direto, sem necessidade de simpatia para funcionar.
No terceiro dia, Maruja trouxeram outra forma de explosão. A banda de Manchester tem peso suficiente para encher o palco mesmo sem depender da fórmula clássica da guitarra como centro absoluto, e muito disso passa pelo saxofone. O instrumento não aparece como ornamento, nem como detalhe exótico. É parte vital do som, uma voz paralela capaz de rasgar, empurrar e iluminar a massa pesada que a banda constrói. Essa combinação entre rock, punk e free jazz deu ao concerto uma identidade muito própria.
Foi uma atuação explosiva, nervosa e muito bem defendida, com o saxofone a funcionar como assinatura e como desequilíbrio controlado.
O vocalista mostrou grande presença e a banda tocou com uma intensidade que parecia recusar a ideia de fim de noite. Mesmo a hora avançada não retirou força ao concerto. Pelo contrário, Maruja pareciam feitos para esse limite, quando o público já não está apenas a ouvir, mas a medir forças com o próprio cansaço. Foi uma atuação explosiva, nervosa e muito bem defendida, com o saxofone a funcionar como assinatura e como desequilíbrio controlado.
No último dia, Prostitute fecharam este mapa de destaques com peso, moshpit e uma música complexa que, surpreendentemente, entrava com facilidade no corpo. O som do quinteto norte-americano é abrasivo, cheio de guitarras distorcidas, baixo rude, bateria que varia entre o caos e a calma pesada, sintetizadores corrosivos e uma presença vocal crua, por vezes quase irada. Ainda são uma banda em afirmação e talvez não tenham o reconhecimento necessário para agarrar uma multidão inteira, mas a zona mais próxima do palco respondeu com vontade e criou o caos certo para aquele tipo de concerto.
O mais interessante nos Prostitute foi a forma como a complexidade não afastou a resposta física. A música tinha camadas, mudanças de direção e uma agressividade menos óbvia do que a de muitas bandas de ataque frontal, mas nunca soou inacessível. Pelo contrário, parecia pedir adaptação rápida. Entrava primeiro como pancada, depois revelava textura. Foi intenso, energético e com margem evidente para crescimento. Dentro do universo alternativo mais pesado, ficou a impressão de um nome a seguir com atenção.
No conjunto, estes concertos mostraram o outro lado do Palco Coura Sem Paredes. Se as descobertas deram corpo ao festival, estes destaques deram-lhe combustão. Durante estes momentos, o segundo palco não pediu licença ao principal. Fez barulho suficiente para deixar de ser segundo.
