Pat Metheny em Lisboa: Side-Eye III+, Um Olhar Perante a Nova Nata do Jazz
(c) Inês Barrau

Pat Metheny em Lisboa: Side-Eye III+, Um Olhar Perante a Nova Nata do Jazz

Review

Pat Metheny
10/10
Banda
10/10
Som
10/10
Ambiente
10/10
Overall
10.0/10
In On It
Bright Size Life
Don’t Look Down
Better Days Ahead
Timeline
Make a New World
The First Circle
Urban and Western
The Red One
Más allá (Beyond)
Phase Dance
Round Trip / Broadway Blues
Zenith Blue
America The Beautiful / The People United Will
Never Be Defeated / Last Train Home
Are You Going With Me?
Minuano (Six Eight) / As It Is / James / September
Fifteenth / This Is Not America / Antonia
Song for Bilbao

Numa articulação perfeita entre passado, presente e futuro, Pat Metheny regressou a Portugal para nos presentear com uma masterclass digna de uma lenda viva do jazz de fusão. Equilibrando o legado do Pat Metheny Group com a frescura expansiva de “Side-Eye III+”, o músico mostrou-se numa forma técnica invejável, perante um público fervoroso que só deixou Metheny ausentar-se definitivamente do palco após quatro soberbos encores.

Ornette Coleman, John Scofield, Charlie Haden, Gary Burton e Jack DeJohnette são apenas alguns dos músicos incontornáveis do panorama jazzístico que já colaboraram com Pat Metheny ao longo das últimas cinco décadas. Longe da cartada comercial que encontramos no espectro da pop, no jazz as colaborações, e particularmente os álbuns colaborativos, surgem como uma miscigenação de diferentes linguagens sonoras tendo em vista a criação de um dialeto musical onde todos conseguem comunicar entre si. Neste contexto, trazer para estúdio músicos experientes, cujo nome por si só já impõe respeito, traz uma segurança expectável que se traduz em sessões profícuas e de elevado valor para os fãs de jazz que estão sempre à procura da próxima grande colaboração.

Contudo, com o projeto “Side-Eye”, Pat Metheny decidiu inverter o jogo. Aqui, o objetivo foi precisamente ir ao encontro de jovens músicos talentosos e em ascensão e dar-lhes visibilidade tanto em estúdio como em palco num sistema de rotatividade. Em “Side-Eye”, Metheny pôde combinar a sua experiência com a frescura da nova geração, assim como elevar a sua fasquia performativa numa competição saudável com os músicos que recruta. Tem sido assim desde “Side-Eye NYC(V1.IV)” (2021) , onde Metheny colaborou com o pianista James Francies e o baterista Marcus Gilmore. Já, em “Side-Eye III+” (2026), o guitarrista manteve a mesma base de trio, mas desta vez com o pianista Chris Fishman e o baterista Joe Dyson, daí a  numeração romana III presente no título. No entanto, Metheny rapidamente percebeu que a sua visão artística necessitaria de mais músicos de sessão. O resultado foi então o recrutamento de um coletivo de 15 músicos composto pelo baixista Daryl Johns, a harpista Brandee Younger, o percussionista Luis Conte e um coro dirigido por Mark Kibble, dos Take 6.

Traduzir este cenário para o contexto ao vivo não se avizinhava tarefa fácil, mas Pat Metheny, com toda a tranquilidade que o caracteriza, resolveu o “problema” ao recrutar apenas dois músicos: o contrabaixista/baixista Jermaine Paul e o vocalista e percussionista Leonard Patton. Aliás, foi precisamente com o quarteto que acompanha Metheny nesta tour que o concerto começou. Como uma fanfarra percussiva tipicamente americana, os quatro músicos entraram no Coliseu dos Recreios pelo meio do público com tarolas a rufar e um bombo a marcar o tempo. Com um ar curioso, mas também de surpresa, acabámos por nos questionar se estaríamos no concerto certo. Afinal, uma entrada em palco com tamanha pompa nem parece coisa de Pat Metheny.

Seguiu-se “Bright Size Life”, um dos temas que lançou a carreira de Metheny. Aqui o público manifestou-se imediatamente perante a felicidade de ver o guitarrista revisitar o extremo oposto do seu catálogo, onde tudo começou para o guitarrista ao lado de Jaco Pastorius e Bob Moses.

Já com os músicos nas suas posições, a entrada em palco do guitarrista fez-se no formato de truque de magia, com as luzes do palco a apagarem-se e a acenderem-se num ápice para mostrar aquela silhueta icónica a dedilhar uma das suas Linda Manzer acústicas. Sem quebrar o ritmo com conversa fiada, a banda prosseguiu com “In On It”, o primeiro vislumbre auditivo de “Side-Eye III+”. Já com a sua fiel Ibanez PM3C a tiracolo, Metheny desdobrou-se em fraseados vertiginosos numa articulação perfeita entre dissonância e consonância. Na primeira volta solística foi Chris Fishman, um baterista tornado pianista, e Joe Dyson que mostraram, sem levantar por completo o véu, uma destreza técnica, harmónica e melódica bem representativa do lugar que ocupam nesta formação. Também Leonard Patton polvilhou a composição com várias linhas vocais acentuadas por uma grande expressividade ao nível da improvisação e da sua técnica melismática. 

Seguiu-se “Bright Size Life”, um dos temas que lançou a carreira de Metheny. Aqui o público manifestou-se imediatamente perante a felicidade de ver o guitarrista revisitar o extremo oposto do seu catálogo, onde tudo começou para o guitarrista ao lado de Jaco Pastorius e Bob Moses. Jermaine Paul teve a difícil tarefa de reproduzir as linhas de baixo de assinatura de Pastorius. Paul submeteu-se ao desafio e passou com distinção, mostrando uma sensibilidade técnica e tímbrica bem apurada ao longo de toda a escala. 

De seguida, “Don’t Look Down” mostrou-nos uma das guitarras mais singulares do arsenal de Pat Metheny, a Roland G-303, uma guitarra que funciona como um sintetizador polifónico analógico. Entre as particularidades desta guitarra está um pickup hexafónico que permite enviar o sinal de cada corda para o seu respetivo som e ainda a ligação jack através de um cabo de 24 pinos. Ouvi-la novamente ao vivo foi deveras uma experiência cósmica que nos transportou para um estado de transe coletivo.

Ouvi-la novamente ao vivo foi deveras uma experiência cósmica que nos transportou para um estado de transe coletivo.

Pouco dado a palavras, a primeira intervenção de Pat Metheny ao microfone chegou já quando o concerto atingiu sensivelmente uma hora de duração. Durante breves minutos, Metheny procurou limitar o seu discurso a uma contextualização e à explicação do nome  “Side-Eye III+”, no fundo aquilo que já explanámos no 2º e 3º parágrafo. Feitas também as apresentações dos músicos, fomos rapidamente devolvidos à ação. 

Sem querer desfraldar as expectativas dos fãs mais acérrimos, o músico revisitou os tempos do Pat Metheny Group com a passagem por temas como “Better Days Ahead”, “The First Circle”, “Más allá (Beyond)” e “Phase Dance”. Do riff tropical da primeira, ao padrão de palmas da segunda, até chegar ao arranjo apenas para guitarra e piano da última, o público absorveu cada tema com uma atenção cirúrgica, manifestado-se efusivamente perante cada apontamento solístico.

Uma visita à génese de “Side Eye” era também ela imperativa e Pat Metheny fê-lo através de “Zenith Blue”. Com a sua Roland G-303, o guitarrista deambulou em fraseados com uma modulação sonora reminiscente de um trompete. Estava assim concluída a setlist base do concerto.

Mas, Metheny já tinha mencionado na sua breve intervenção que Portugal é um dos públicos mais calorosos e um dos seus favoritos e que estava desejoso de mostrar isso aos seus novos companheiros de palco. Na antecâmara dos quatro encores que o guitarrista serviu, a resposta dos fãs não poderia ter sido mais efusiva. O primeiro regresso a palco fez-se apenas com o Metheny sentado na frente de palco e com uma guitarra acústica.

A solução para conseguir picar mais alguns pontos chave do seu repertório passou pela apresentação de um primeiro medley composto por “America The Beautiful / The People United Will Never Be Defeated / Last Train Home”. Ainda longe de estar saciado o público clamou por mais. Desta vez, já com a banda toda em palco foi nos servido “Are You Going With Me?”. Muitos já abandonavam a sala quando Metheny regressou uma terceira vez a palco para repetir a fórmula. Primeiro, medley acústico a solo com “Minuano (Six Eight) / As It Is / James / September Fifteenth / This Is Not America / Antonia” e depois, para rematar, “Song for Bilbao” desse diário de viagens sonoro que é “Travels” (1983).

Aos 71 anos, e com uma carreira mais que premiada e venerada, Pat Metheny continua a mostrar que é no palco que pinta as suas melhores aguarelas sonoras. Nesta fase da sua carreira, o músico parece ainda procurar retribuir à comunidade jazzística aquilo que o jazz lhe deu. Ao “colocar” os holofotes em cima de uma série de músicos emergentes e virtuosos, Metheny está assim a carimbar com o seu selo de qualidade toda uma geração de músicos que continuará certamente a honrar o seu legado.