Pennywise no Coliseu dos Recreios: Uma Intensa Celebração da Irmandade do Punk Rock

Pennywise no Coliseu dos Recreios: Uma Intensa Celebração da Irmandade do Punk Rock

Review

Pennywise
10/10
End It
8/10
Soul Crusher
8/10
Som
10/10
Ambiente
10/10
Overall
9.2/10
Peaceful Day
My Own Country
Straight Ahead
Violence Never Ending
Same Old Story
The World
Waiting
Fuck Authority
Bob / Kill All the White Man / The Brews (NOFX Cover)
Do What You Want (Bad Religion Cover)
Pennywise
Society
(Intro) As Long as We Can
Perfect People
Living for Today
Stand by Me (Ben E. King Cover)
Bro Hymn

Em noite de reencontros, os Pennywise congregaram em Lisboa toda uma geração que cresceu a andar de skate, a surfar e a ouvir punk rock. Passados 20 anos da sua última passagem por Portugal, a banda de Hermosa Beach, Califórnia, mostrou-se numa forma irrepreensível perante um público ávido para viver um serão de pura nostalgia.

Estávamos a 7 de Setembro de 1999 quando a mítica Praça Sony, em Lisboa, abriu as suas portas para um dos mais icónicos festivais de música alternativa. Após duas incursões pela Europa, Portugal acabou por entrar na rota da Vans Warped Tour numa edição que ficaria marcada na história dos festivais internacionais que já passaram pelo nosso país, como é o caso do Ozzfest. No lineup estiveram nomes como Ice-T, Less Than Jake,Dog Eat Dog ou The Suicide Machines, mas foram os californianos Pennywise que roubaram grande parte das atenções. Já com clássicos como “Bro Hymn Tribute”, “Same Old Story”, “Homesick” e “You’ll Never Make It” no seu repertório a banda arrancou uma reação efusiva do público.

Em 2001, a banda regressaria ao mesmo espaço para se apresentar num mini festival que misturou no cartaz bandas nacionais como os Sannyasin, os Fonzie e os Tara Perdida e outras internacionais como foi o caso dos Catch 22, Boysetsfire e Sick of It All. Contudo, foi a sua última passagem por cá, em 2006 no Pavilhão da Quinta dos Lombos, em Carcavelos, no contexto do Jurassic Summer Fest, que mais memórias invoca na geração que viveu intensamente a época dourada dos concertos de skate punk no nosso país.

Volvidos 20 anos e o cenário junto ao Coliseu dos Recreios, sensivelmente uma hora antes das portas abrirem, era de uma emotiva reunião familiar. Entre abraços apertados, palmadinhas carinhosas na cara e bocas amigáveis em tom de escárnio, o ambiente era de muita fraternidade e de retoma de amizades, algumas delas possivelmente suspensas durante largos anos devido a circunstâncias da vida. Ao longe ouvia-se histórias de quem recorda com uma imensa saudade os bons velhos tempos passados em espaços como a Praça Sony, o Pavilhão da Quinta dos Lombos, o Pavilhão Acácio Rosa ou a Voz do Operário. Para muitos, parece que já foi numa outra vida. Num tempo em que o corpo era posto à prova concerto após concerto sem qualquer receio para com futuras mazelas físicas. Agora, o corpo já pede outro acondicionamento, mas, perante tamanha ocasião, muitos estavam dispostos a sair da “reforma” para sentir, mais uma vez, aquela adrenalina tão própria de um concerto old school de punk rock.

Pennywise no Coliseu dos Recreios: Uma Intensa Celebração da Irmandade do Punk Rock

Soul Crusher

A abertura das hostilidades ficou a cargo dos recém formados Soul Crusher, supergrupo nacional de hardcore que junta Ricardo Dias aka Congas na voz, Mike Ghost na guitarra, João Vidigal no baixo e Tiago na bateria. À semelhança de outro supergrupo nacional, os Rasgo, que estrearam-se nos palcos precisamente no Coliseu dos Recreios a abrir para os Slayer, também os Soul Crusher têm conseguido dar os primeiros passos em cartazes com nomes de referência, primeiro com a abertura do concerto dos Guilt Trip no RCA Club, depois com a participação no Mira Fest, onde partilharam o palco com os No Fun At All e agora com a abertura para os lendários Pennywise. Com apenas dois EP editados no Bandcamp, os Soul Crusher tiveram sensivelmente 20 minutos para se mostrar perante um público ainda a meio gás. Temas como “Set Me Free”, “Hold On To The Light” e “Keep On Pushing” trouxeram uma mensagem de esperança aliada a um posicionamento político pró-Palestina por parte da banda. Com um som bem equilibrado e uma presença em palco digna do estatuto dos seus elementos, a banda acabou por sofrer do “síndrome da primeira banda da noite” ao apresentar-se perante um público ainda algo apático.

End It 

Oriundos dessa nova meca do punk hardcore que é Baltimore, Maryland e que nos deu nomes como Turnstile, Trapped Under Ice e Angel Dust, os End It são um dos nomes mais recentes a sair dessa colheita para o panorama internacional. Ainda a ressacar de uma polémica que os colocou nas bocas do mundo devido a um ato de humilhação praticado para com um fã que estava vestido de banana num dos seus concertos, a banda chegou a Lisboa já com essa situação sarada após o vocalista Akil Godsey ter abraçado em palco, no festival Jera On Air, outro fã vestido de banana. 

Escolhidos como banda de suporte desta perna ibérica da tour de verão dos Pennywise, os End It chegaram ao Coliseu dos Recreios com uma mensagem muito clara: «Isto não é um concerto de metal ou de punk rock!», numa clara chamada de atenção para com o tipo de movimentações que poderiam, e deveriam, ser praticadas. Side to side, windmill, roundhouse kick, two step, durante 25 minutos de concerto tudo foi permitido naquele mosh.

Após testar o pulso do público com “Wrong Side of Heaven”, Akil Godsey esclareceu imediatamente que as únicas palavras que sabia em português era obrigado e feijoada. O público não se mostrou muito tocado com tal confissão. Afinal de contas, a língua que melhor permite a comunicação entre as duas partes é a língua do mosh e esse entendimento foi notório ao longo de todo o concerto em malhas fugazes, mas frenéticas, como “21”, “Hardhead” e “Lifer”. Já “Could You Love Me?”, cover dos Maximum Penalty trouxe uma dinâmica completamente diferente para o concerto. À semelhança da cover “Good Good Things”, gravada pelos DRAIN, este foi um momento que colocou em evidência a voz melódica e bem entonada de Akil Godsey, longe dos berros esquizofrénicos do repertório base.

Com malhas a rondar o minuto e meio/dois minutos e com uma dinâmica performativa em modo pé no acelerador, o concerto passou por nós como uma locomotiva a alta velocidade.

Com malhas a rondar o minuto e meio/dois minutos e com uma dinâmica performativa em modo pé no acelerador, o concerto passou por nós como uma locomotiva a alta velocidade. Num abrir e fechar de olhos, os End It entraram e saíram do palco com uma performance que poderia ter durado mais alguns minutos, pois verdade seja dita, aqueles 30 minutos de mudança de palco para os Pennywise foram algo exagerados para um concerto que não tem qualquer produção cenográfica. Fica então aqui o nosso voto para que a Hell Xis possa voltar a trazer os End It para um concerto em nome próprio no RCA Club.

Pennywise

Do fim para o princípio, foi com o riff da derradeira “Bro Hymn” que os Pennywise entraram em palco em jeito de provocação para com os fãs. «Passados 20 anos vocês continuam a comandar!», soltou Fletcher Dragge na primeira de muitas intervenções, algumas delas em tom de stand up comedy. O pontapé de saída com “Peaceful Day” provou que esta seria tudo menos uma noite pacífica. Sedentos de uma boa dose de skate punk old school, o caos apoderou-se dos fãs mal soou o primeiro power chord. Gargantas bem afinadas sobrepuseram-se à voz de Jim Lindberg numa demonstração da paixão e dedicação que muitos ainda têm pela banda passados 35 anos do lançamento do álbum homónimo. 

Ora como um mar revolto, ora como um tornado com ventos supersónicos, o mosh pit mostrou-se imediatamente intenso e imponente para qualquer estreante nestas andanças, mas sempre com aquele respeito inigualável. Já em “My Own Country” e “Straight Ahead”, além da descarga de energia continua, confirmou-se um som impecável com o baixo de Randy Bradbury a sobressair em momentos-chave. De todas as salas lisboetas, o Coliseu é mesmo a que oferece o melhor som.  «Há quanto tempo é que não vimos cá?», perguntou Fletcher. «5?,10?,15? anos. 20?», disse num tom impressionado, mas já a preparar a próxima gracinha. Do alto dos seus quase dois metros, Fletcher mostrou-se numa forma soberba, com uma palhetada vigorosa do princípio ao fim. Um aspeto curioso, que não estávamos a par aquando da nossa entrevista, foi a pequena lanterna que avistámos presa à correia com a luz apontar para a guitarra. Não sabemos qual a razão desta artimanha, mas tudo indica que é para ajudar Fletcher na visualização dos trastes.

Ora como um mar revolto, ora como um tornado com ventos supersónicos, o mosh pit mostrou-se imediatamente intenso e imponente para qualquer estreante nestas andanças, mas sempre com aquele respeito inigualável.

Entre clássicos como “Violence Never Ending”, “The World” e “Waiting” foram “Same Old Story” e “Fuck Authority”, esta última dedicada a Donald Trump, que arrancaram dois dos maiores coros da noite numa demonstração dessa união que tão bem caracteriza a subcultura punk. Aliás, se há algo que o punk rock nos ensinou foi o seu espírito de camaradagem e de comunhão. Em palco, os Pennywise souberam demonstrar todo esse espírito quando tiraram um momento para homenagear as suas referências. Primeiro, mencionando nomes como os Ramones, Sex Pistols, The Clash, Dead Kennedys e Descendents e depois ao tocarem um medley dos também lendários NOFX com a sequência “Bob / Kill All the White Man / The Brews” e ainda “Do What You Want” dos Bad Religion

De volta ao seu repertório, os Pennywise partiram para a sua música de assinatura. “Black Sabbath” dos Black Sabbath, “Motörhead” dos Motörhead, “Iron Maiden” dos Iron Maiden são músicas que definem a identidade sonora destas bandas e que resultam como um cartão de visita nos respetivos álbuns de estreia. Com “Pennywise” não é exceção: a sua velocidade, agressividade, melodia e refrão orelhudo ajudaram a definir a sonoridade de marca que todos conhecemos e que desde 1991 foi repetida inúmeras vezes. Seguiu-se “Society”, uma das mais celebradas da noite. Sem que a energia decai-se “(Intro) As Long as We Can”, “Perfect People” e “Living for Today” não sobressaíram entre as demais, mas aqueceram o ambiente para a cover, já quase um original, de “Stand by Me”. Aquela transição dos versos no tempo original para o refrão a rasgar com a sala a entrar num alvoroço foi “absolute cinema”!

Aquela transição dos versos no tempo original para o refrão a rasgar com a sala a entrar num alvoroço foi “absolute cinema”!

Já com o relógio a ultrapassar e muito a meia noite, algo invulgar em concertos durante a semana, Jim perguntou aos fãs que música é que queriam ouvir. A resposta fez-se obviamente na forma do coro da “Bro Hymn”. Dos palcos aos estádios, da música ao desporto, este é um hino que ultrapassa fronteiras, culturais e linguísticas, com a “simples” missão de representar os valores da união, da irmandade e do companheirismo. Naquele momento, no Coliseu dos Recreios, todos éramos um só. Abraços a desconhecidos, vozes em uníssono e uma noção multissensorial do conceito de carpe diem a apoderar-se dos corpos em constante movimento até ao último acorde da noite. Para uns soube pouco, para outros foi a sessão de cardio que andavam a adiar há anos, mas no fim ficou a certeza de que vivemos uma noite histórica de punk rock como há muito o Coliseu dos Recreios não experienciava.