pixies c Graziela Costa

Pixies em Lisboa: Mais uma noite para guardar na memória!

Review

Banda
10/10
Voz
9/10
Som
9/10
Ambiente
10/10
Overall
9.5/10
Cecilia Ann | Down to the Well | Head On | Wave of Mutilation | Monkey Gone to Heaven | In Heaven | La La Love You | Here Comes Your Man | Gouge Away | Hey | Velouria | Jane (The Night the Zombies Came) | Chicken | Motoroller | The Vegas Suite | The Happening | Tame | Subbacultcha | Distance Equals Rate Times Time | Dig for Fire | Caribou | Cactus | Debaser | Bone Machine | Mr. Grieves | Nimrod's Son | Havalina | Mercy Me | Where Is My Mind? | Into the White |

Os Pixies regressaram a Lisboa com nova formação, mas com a mesma força de sempre. Num Sagres Campo Pequeno esgotado, provaram que, apesar das mudanças, continuam a ser mestres no caos melódico e na arte de fazer do estranho algo irresistivelmente familiar.

Quando descobri os Pixies foi como encontrar um grimório perdido há muito tempo. Letras muitas vezes sem sentido, sombrias ou distorcidas, gritavam-me a partir de músicas que, em teoria, não deviam soar bem, mas que de alguma forma soavam… para as pessoas certas. «Esta é a banda que o Kurt Cobain ouvia…», «Esta é a banda que os Radiohead gostariam de ser…» – o meu eu adolescente estava, ao que parece, em boa companhia.

Na minha opinião, melhor forma de descrever os Pixies a alguém que nunca os ouviu é esta: eles simplesmente não quiseram saber do que os outros pensavam e, com isso, inventaram um rock autêntico e moderno. Muitos atribuem-lhes a popularização de alguns clichés do rock que hoje conhecemos bem: versos calmos, estruturas musicais cadenciadas e repetitivas, refrões altos e gritados, e a formação com uma baixista feminina. Essa rapariga era a lendária Kim Deal, que saiu da banda em 2013. Actualmente, o lugar é ocupado por Emma Richardson, ex-Band Of Skulls, que ocupou o lugar de Paz Lenchantin. (Ainda voltarei a falar sobre isso).

Uma grande abertura para a noite.

A banda de suporte ficou a cargo dos The Pale White, um trio inglês formado pelos irmãos Adam (voz e guitarra) e Jack Hope (bateria), juntamente com Tom Booth (baixo). Apresentaram-se imperturbáveis ao entregar um repertório cheio de energia rock, com riffs contagiantes, um baixo pujante e uma bateria carregada de intensidade. Apesar de uma carreira ainda relativamente curta, com temas retirados de alguns EPs e dois álbuns, apresentaram um alinhamento coeso e bem recebido pelo público, uma selecção certeira. Importa destacar que não pouparam na apresentação de músicas do seu novo álbum, o excelente “The Big Sad”. E são mesmo muito boas. Notou-se claramente o crescimento da admiração do público por eles, não há dúvidas de que conquistaram novos fãs com estas actuações ao lado dos Pixies – eu incluído.

Noite de Zombies?

Definitivamente, não. Os Pixies estão mais vivos do que nunca e ofereceram um concerto brilhante, que percorreu toda a sua carreira e não deixou nenhum recanto dos seus álbuns — nem do Sagres Campo Pequeno — intocado pelo seu som inconfundível.

Os Pixies estão mais vivos do que nunca e ofereceram um concerto brilhante, que percorreu toda a sua carreira e não deixou nenhum recanto dos seus álbuns — nem do Sagres Campo Pequeno — intocado pelo seu som inconfundível.

O logótipo “P” dos Pixies, com uma única asa, adornou o palco do Sagres Campo Pequeno durante toda a noite. Após os testes de luz e som, os quatro membros da banda subiram ao palco com a descontração típica de quem já não tem nada a provar. A interação com o público continua a ser rara, mas os Pixies estão ali para tocar, ponto final. Black Francis (voz e guitarra), Joey Santiago (guitarra) e David Lovering (bateria) têm percorrido juntos um longo e sinuoso caminho ao longo de quatro décadas. Recentemente, contrataram Emma Richardson, para o baixo, um papel de enorme peso simbólico, anteriormente ocupado por Kim Deal e Paz Lenchantin.

Ao contrário dos artistas de abertura, os Pixies têm, naturalmente, um vasto catálogo por onde escolher. “Cecilia Ann” abriu o concerto, tal como abre o icónico álbum “Bossanova”. Seguiu-se “Wave Of Mutilation” e depois “Head On”, dos Jesus and Mary Chain – uma versão que os Pixies praticamente apropriaram, tal a perfeição com que a executam. Em “Monkey Gone To Heaven”, Emma Richardson finalmente ganha destaque, quer por interpretar uma das linhas de baixo mais icónicas e reconhecíveis dos dez álbuns da banda, quer por fazer uns belíssimos backing vocals. Foi a sua deixa para brilhar na lindíssima “In Heaven”, que interpretou com uma voz doce, afinada, imprimindo-lhe a sua própria personalidade. Seguiu-se um grande concerto, recheado de clássicos como “Gouge Away”, “Hey”, “Velouria” e “Caribou”, sempre intercalados com temas do bom novo álbum “The Nights the Zombies Came”.

O som continua inconfundivelmente Pixies. A voz de Black Francis mantém-se tão sólida como nos discos. Quem só conhece os álbuns ficará surpreendido com a segurança e solidez da sua voz ao vivo – já sem aquela estranheza cativante dos primeiros tempos. Joey Santiago posiciona-se entre uma linha de amplificadores e a pedalboard que faria inveja à maioria dos shoegazers. Estoico, mas visivelmente a divertir-se enquanto despeja solos cheios de efeitos sobre o público, com a guitarra a parecer uma extensão natural do seu corpo, tal é o domínio que tem sobre ela. David Lovering é criminosamente subestimado na bateria. Funciona como uma locomotiva no fundo do palco, contido e pesado, é um metrónomo a marcar os tempos das músicas desde as introduções puxadas por suas baquetas. Já Emma Richardson não se deixa intimidar pelo peso da história ao seu redor. Num palco partilhado com lendas que tocam juntas desde 1986, o baixo de Richardson é agradavelmente agressivo quando precisa, mas sabe recuar quando convém. Quanto à sua voz, encaixa perfeitamente – mas, sabiamente, “Gigantic” ficou de fora do alinhamento.

Uma característica marcante da produção dos Pixies é que muitas músicas são instantaneamente reconhecíveis com apenas quatro notas. “Debaser”, por exemplo, faz a plateia vibrar ao fim de quatro dedilhados numa corda grave. A ausência de discursos ou conversas entre as músicas é uma marca de Black Francis. Isso permite incluir mais canções – o que é sempre bom! Quando está ao microfone, tem muito para cantar em inglês, espanhol e na linguagem universal do grito. Também sabe recuar e ceder espaço aos solos dos colegas de profissões. Entre músicas, não há nada – apenas o compasso de espera para os quatro tempos de Lovering ou as notas iniciais de Richardson.

Importa destacar o final quase apoteótico com uma sequência de tirar o fôlego dos fãs mais apaixonados: “Dig For Fire”,” Debaser”, “Bone Machine”, “Where Is My Mind?”, “Into The White”, e um aceno final com o público em pé, a ovacionar durante alguns segundos que pareceram eternos.

Ainda sobre as músicas do novo álbum “The Night The Zombies Came”, estas encaixam-se perfeitamente no panteão dos Pixies. Destaque para “Motoroller”, “Mercy Me”, “The Vegas Suite” e o single “Chicken”.

O repertório teve cerca de 30 músicas. Sem encore, sem artifícios – apenas a qualidade 100% Pixified. O Sagres Campo Pequeno já recebeu muitos concertos incríveis, mas este fica com certeza na lista dos grandes destaques de um ano que ainda vai a meio.

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