Os Placebo deram início à sua nova digressão europeia em Portugal, com duas noites que marcaram o arranque oficial da tour, primeiro na Super Bock Arena, no Porto, e depois no Sagres Campo Pequeno, em Lisboa. A Arte Sonora esteve presente nos dois concertos, acompanhando de perto o regresso de Brian Molko, Stefan Olsdal e companhia aos palcos portugueses, numa digressão que assinala os 30 anos do álbum de estreia, “Placebo”, e revisita também “Without You I’m Nothing”, de 1998.
[A reportagem fotográfica foi feita no concerto em Lisboa]
Sabemos que há bandas que parecem envelhecer agarradas ao pó dos velhos louros, no entanto, os Placebo continuam a provar que a urgência de 30 anos de carreira se mede na forma como enfrentam o palco, noite após noite. Sabemos também que há bandas que vivem da nostalgia, com álbuns que lá pertencem, e outras há que fazem álbuns que soam tão bem, senão melhor, nos dias de hoje como soavam há décadas, quando foram lançados. “Placebo”, de 1996, e “Without You I’m Nothing”, de 1998, são dois desses álbuns, e são o mote desta nova tour da banda.
A tour europeia que agora os trouxe até à Super Bock Arena, no Porto, não é apenas uma revisitação higiénica ao passado, mas antes o assumir de uma vitalidade crua e de uma identidade sonora singular que marcou várias gerações. Tendo arrancado a 25 de setembro com um concerto de aquecimento em Mérignac, França, o início oficial foi dado no Porto, seguido de Lisboa esta noite. As datas em Portugal fazem parte de uma maratona de 37 datas na Europa, que terminará a 7 de dezembro, em Cardiff, e seguirá depois por esse mundo fora.
Um total de vinte passagens oficiais por solo português consolida uma relação de cumplicidade antiga e profunda entre Brian Molko, Stefan Olsdal e um público que nunca os abandonou desde os finais dos anos noventa. Percurso interessante de comunhão com o nosso português, que começou em setembro de 1997, no auditório da Antena 3, passou pelas principais salas do nosso país e por vários dos nossos festivais, com destaque para os míticos concertos no festival do Sudoeste, quando o festival ainda existia e quando se chamava pela Elsa.

Deixando de lado a facilidade da nostalgia digital, a banda exigiu rigor: sem telemóveis no ar, sem ecrãs interpostos a roubar o olhar, transformando a sala num pacto de presença coletiva onde a eletricidade das guitarras teria o merecido destaque. Sobre esta decisão de proibir o uso de telemóveis, Brian Molko disse: «Vamos todos viver o momento juntos e passar um bocado do c******.» E se, a meio do concerto, o vocalista disse que gostava que todos soubessem que se estava a divertir imenso, sentimento pouco comum, segundo o próprio, o mood mudou drasticamente mais para o fim, quando se sentiu na obrigação de expulsar um fã, de boné e Adidas, que insistiu em filmar. E não foi o único.

A banda tem uma linguagem visual e musical muito própria e distintiva. A voz e figura de Brian Molko, as poses e a forma de tocar de Stefan Olsdal, em conjunto com o som que conseguem tirar de uma parafernália de Fenders Jaguar e Jazzmaster, algumas Gibsons e até uma Gretsch White Falcon, fazem desta banda uma das grandes referências do rock alternativo.
De entre os momentos altos da noite, sobressaiu a descarga emocional de “Without You I’m Nothing”, um tema seminal que nos faz recordar o peso que a música tem na nossa vida, afinal, sem música, nós não somos nada.
De entre os momentos altos da noite, sobressaiu a descarga emocional de “Without You I’m Nothing”, um tema seminal que nos faz recordar o peso que a música tem na nossa vida, afinal, sem música, nós não somos nada. No alinhamento, houve ainda espaço para a estreia ao vivo em solo nacional do single “Helen Keller”, lançado no dia 28 e tocado também ontem no Porto pela primeira vez, provando que o catálogo dos Placebo continua em aberto e em plena rota de reinvenção.
Em jeito de fecho da primeira parte do concerto, antes de se recolherem para o encore, ecoou a incontornável “Nancy Boy”. É impossível ouvi-la ao vivo sem recuar no tempo: lembrei-me de quando ouvi esta música pela primeira vez numa mixtape que um amigo me tinha feito, a tocar no meu walkman da Philips, ainda no secundário. Foi uma semente que se plantou, um pequeno impulso que, tantos anos volvidos, me fez estar ali naquele concerto, naquela noite exata, naquela sala. Por isso mesmo, partilhemos músicas, porque nunca sabemos o quanto poderão mudar a vida de alguém.
Seguindo a toada de revisitação, o espetáculo encerrou com duas covers bem conseguidas que, pelos Placebo, ganharam nova vida, “I Feel You”, dos Depeche Mode, e “Running Up That Hill”, de Kate Bush. Embora seja uma composição ainda mais antiga do que a própria banda, serve, à boleia do ressurgimento e do sucesso recente que conquistou com “Stranger Things”, para que assim os Placebo estreitem a conexão com as gerações mais novas. Tantos anos depois, a voz de Molko está no ponto!