post malone c Paulo Pinho
(c) Paulo Pinho | Live Nation Portugal

Post Malone & Jelly Roll, Dois Outlaws de Coração Mole em Lisboa

15/09/2025

Review

Jelly Roll
10/10
Post Malone
9/10
Som
7/10
Ambiente
7/10
Overall
8.3/10
Texas Tea
Wow.
Better Now
Wrong Ones
Go Flex
Hollywood's Bleeding
I Fall Apart
Losers (com Jelly Roll)
Goodbyes
What Don't Belong to Me
I Ain't Comin' Back (Morgan Wallen Cover)
Feeling Whitney
Stay
Circles
White Iverson
Psycho
Pour Me a Drink
Dead at the Honky Tonk
rockstar
I Had Some Help
Sunflower
Congratulations

Num Estádio do Restelo transformado num imenso honky-tonk a céu aberto, Post Malone e Jelly Roll levaram-nos numa viagem emotiva pelos caminhos da música de raiz americana. Do pop ao hip-hop, o denominador comum foi o country. Mas, será que este género tem alguma expressão em Portugal?

[Nota: o artista não se deixou fotografar pela imprensa e por isso não foi possível fazer a habitual galeria]

Se a memória não nos atraiçoa, Portugal nunca tinha recebido, até então, um concerto de uma “superestrela country”. Por superestrela falamos de nomes como Johnny Cash, Willie Nelson, Dolly Parton ou Keith Urban. Há muito que se sabe que a Europa não é propriamente o mercado mais apetecível para os géneros CBGB (country, bluegrass e blues), e na península ibérica, particularmente em Portugal, as portas parecem mesmo estar praticamente fechadas para uma série de artistas que nos EUA enchem arenas e anfiteatros. A ruralidade da sonoridade destes géneros, que remete para uma América profunda, parece não colar nos ouvidos dos melómanos europeus, e também do resto do mundo, fazendo assim com que estes géneros apenas tenham expressão entre as fronteiras dos EUA, nomeadamente nos estados do sul. Em Portugal, a única exceção parece ser o projeto “Dois Pares de Botas”, de Nena e Joana Almeirante, uma série de concertos onde ambas as artistas partilham a sua paixão pela música country através de interpretações de clássicos do cancioneiro.

Mas, como dizia Camões: «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.» Como muitos outros géneros, o country sempre esteve numa evolução constante ao longo das décadas dos séc. XX e XXI com a criação de novos subgéneros e de fusões que, mais ou menos, foram agradando os puristas. Uma dessas fusões, o country rap, não caiu de todo nas graças dos puristas, pela sua abordagem mais urbana e pelos instrumentais que fugiam à essência do género. Mas, o que é certo é que abriu o género a todo um novo público. Nomes como Yelawolf, Struggle Jennings, Jelly Roll e Shaboozey souberam aliar tradição e modernidade, levando assim o género a um público mais jovem que, noutras circunstâncias, possivelmente, nunca teria contacto com o country.  

Ainda assim, o género teimava em não chegar a um público mainstream numa escala mundial. Para tal, foi preciso esperar por um revivalismo country pop levado a cabo por duas das maiores estrelas. Beyoncé com o seu “Cowboy Carter” (2024) e Post Malone com “F-1 Trillion” (2024) renovaram o interesse no country a um nível mundial. Do nada, era outra vez cool ouvir country.

Todavia, em Portugal esse interesse parece não ter acompanhado o resto do mundo. Quando Post Malone anunciou que vinha a Lisboa com a sua “Big Ass Stadium Tour”, com Jelly Roll como convidado, não se sentiu um grande entusiasmo e nem uma grande correria aos bilhetes como acontecera, por exemplo, com a sua presença no Rock in Rio Lisboa 2022. Por outro lado, o progressivo afastamento do hip-hop em favorecimento de uma sonoridade mais country, e até mais pop, certamente que também contribuiu para o afastamento de alguns fãs que se identificavam mais com o músico aquando dos seus primeiros álbuns. Tudo isto se traduziu num Estádio do Restelo meio despido na zona da plateia, algo que, apesar de não ser agradável à vista, em nada condicionou a entrega carismática e humilde tanto de Post Malone como de Jelly Roll.

POST MALONE PAULO PINHO 11
(c) Paulo Pinho | Live Nation Portugal
Jelly Roll

Como uma fénix que renasce das cinzas, foi na música que Jelly Roll encontrou um caminho para sair de uma espiral de delinquência juvenil que o levou a passar várias vezes pela prisão. Primeiro foi em busca da redenção no hip-hop, porém este carecia da profundidade que Jelly procurava. Foi então aí que mergulhou no country. Na altura não precisou de muito para provar aos puristas que tinha tudo para singrar na cena. Desde o timbre distinto apoiado no seu sotaque do Tennessee à sua escrita confessional e plena de emoção, o músico demonstrou com “Son of a Sinner” que tinha muitos mais pergaminhos enquanto cantor de country do que como rapper.

Desde então, o trajeto tem sido sempre a subir com álbuns aclamados pela crítica e considerados pelos Country Music Association Awards e colaborações de destaque como “All My Life” com os Falling In Reverse, “Somebody Save Me” com Eminem ou “Lonely Road” com Machine Gun Kelly.

Devido a questões judiciais e/ou da natureza sonora da sua música, Jelly Roll nunca tinha conseguido impor o seu trabalho no mercado europeu. A oportunidade tardava em aparecer para o músico de 40 anos e a aceitação já estava mais ou menos formada, até que Post Malone endereçou um convite a Jelly Roll para que este fosse o convidado especial da sua “Big Ass Stadium Tour”.

Jelly com a sua humildade impar soube agarrar esta oportunidade com unhas e dentes. Sem saber o que esperar, o músico foi recebido em Portugal por um público que, na sua maioria, estava disposto a conhecer um novo artista. «Vocês fazem-me sentir em casa apesar de estar longe. Eu acredito no poder da música. Acredito que a música une as pessoas», disse Jelly a meio do concerto completamente rendido à receção do público português. Ciente do desconhecimento por parte da maioria, o músico desenhou, inteligentemente, um set que combinou alguns dos seus maiores êxitos com grandes clássicos não só do cancioneiro country, mas também pop.

Ciente do desconhecimento por parte da maioria, o músico desenhou, inteligentemente, um set que combinou alguns dos seus maiores êxitos com grandes clássicos não só do cancioneiro country, mas também pop.

“Heart of Stone” e “Liar” com o seu four on floor convidaram de imediato a um bater de pé, já “Son of a Sinner” e “I Am Not Okay”, duas baladas mais introspectivas, evidenciaram a voz, digna de uma alma velha, tão característica de Jelly Roll. Enquanto a banda, extremamente competente, o acompanhava na boca do palco, Jelly não se fez rogado e desfilou várias vezes ao longo da passadeira que se estendia até sensivelmente meio do relvado. Foi lá que soltou o mashup “Lonely Road / Take Me Home, Country Roads”, a primeira, que resulta numa colaboração com Machine Gun Kelly apresenta uma interpolação do refrão da segunda, o icónico clássico de John Denver.

Ainda no campo das covers, destacamos a homenagem de Jelly Roll ao DJ Avicii, falecido em 2018, com uma versão de “Wake Me Up” que levantou não só a voz do público com um momento a cappella, mas também os pés de todos os que estavam a assistir ao concerto no relvado. Já na reta final ainda houve tempo para um medley de clássicos de vários espectros sonoros que passou por “Sweet Home Alabama” dos Lynyrd Skynyrd, “How You Remind Me” dos Nickelback, “Party Up” de DMX, “Flowers” de Miley Cyrus e “Young, Wild and Free” de Snoop Dogg e Wiz Khalifa.

“Need a Favor” e “Save Me”, esta última colada a uma versão de “Let It Be” dos The Beatles, encerraram o concerto como uma invocação ao poder das letras de Jelly Roll e ao impacto que estas podem ter na saúde mental dos seus ouvintes. No fim, com um coração desenhado nas mãos de Jelly Roll, ficou provado que o concerto que deu no Restelo não foi apenas um opening act, mas sim a conquista de um espaço que há muito já merecia ser seu.

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(c) Paulo Pinho | Live Nation Portugal
Post Malone

“POSTY CO.” era o que dizia o letreio iluminado que se encontrava suspenso no palco. Sem grandes formalismos estava assim feito o convite para entrarmos neste honky tonk gerido por Post Malone, outrora estrela trap/hip-hop, hoje em dia uma estrela country/pop que combina o visual de um camionista do sul dos EUA com o de um vaqueiro dos tempos do velho oeste.

Com uma carreira que está prestes a assinalar dez anos em 2026, não deixa de ser curioso que Post Malone tenha finalmente conseguido chegar ao estatuto de artista de estádio como artista de country e não como rapper, certamente um reflexo do sucesso que o country continua a ter nos EUA.

“Texas Tea”, um tema que não é country, mas que inconscientemente já faz uma transição para essa estética, iniciou o concerto num épico em crescendo. “F-1 Trillion” era o álbum que vinha ser apresentado, mas na verdade acabou por ficar algo ofuscado pelo material dos três primeiros álbuns. Com banda em palco, algo que não aconteceu no concerto do Rock in Rio em 2022, Post aproximou esses temas mais antigos da sua fase hip-hop/trap das composições mais “requintadas” do seu último trabalho. Temas como “Wow.”, “Better Now” e “Hollywood’s Bleeding” soaram mais orgânicas sem o 808 por trás.

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(c) Paulo Pinho | Live Nation Portugal

Irrepreensível no trato com os fãs, Post Malone esteve incansável nos agradecimentos e nas aproximações às primeiras filas da plateia. Colocando-se num plano de vulnerabilidade, Post acabou por confessar que estava muito doente e que iria dar o seu melhor. Tirando alguns momentos em que a sua voz soava mais fanhosa e algumas deficiências sonoras na mistura, Post acabou mesmo por conseguir dar um concerto digno do seu estatuto e com toda aquela entrega que lhe é característica. Afinal de contas, a fasquia estava elevada desde que o músico confessou em 2022 que o seu melhor concerto de sempre tinha acontecido em Portugal, mais precisamente no Sumol Summer Fest 2017, quando este ainda decorria na Ericeira.

Num momento de comunhão entre dois artistas que parecem ter sido separados à nascença, Post Malone chamou Jelly Roll ao palco para cantarem juntos o dueto “Losers”, presente em “F-1 Trillion”. A cumplicidade entre os dois, assim como o casamento das vozes foi impactante, e certamente deixou alguma água na boa para um álbum colaborativo. Nesta faixa, o destaque foi  também para a pedal steel aqui bem presente no instrumental e a sobressair no PA.

«Preciso de uma cerveja. Acabaram de dizer-me que os Dallas Cowboys ganharam aos NY Giants», disse Post num momento caricato em que fez uma menção a um jogo de futebol americano num estádio de futebol na Europa. O público naturalmente não se fez ouvir e a atuação acabou por prosseguir num ápice.

Mais à frente num momento mais intimista, sempre difícil num cenário de estádio, Post sentou-nos à volta de uma fogueira imaginária e mostrou porque também é considerado um excelente cantautor. Em “Feeling Whitney” soube elucidar o seu timbre vocal sem resquícios de auto-tune e com uma precisão no dedilhar dos acordes de guitarra.

Mais à frente num momento mais intimista, sempre difícil num cenário de estádio, Post sentou-nos à volta de uma fogueira imaginária e mostrou porque também é considerado um excelente cantautor. Em “Feeling Whitney” soube elucidar o seu timbre vocal sem resquícios de auto-tune e com uma precisão no dedilhar dos acordes de guitarra. Por sua vez, em “Stay” convidou um fã para o acompanhar. Visivelmente nervoso, a coisa ainda tremeu, mas Post conseguiu tranquilizá-lo. Se foi a melhor performance do tema, não, mas valeu pelo momento que o músico conseguiu proporcionar aquele fã espanhol.

Chegado a “Circles”, Post arrancou um bom coro de vozes, já em “Pour Me a Drink” decidiu passear com uma geleira e distribuir cervejas às filas da frente. Depois seguiu-se o outlaw country de “Dead at the Honky Tonk” e uma série de flexões à la Toy em “rockstar”. Só faltou mesmo um momento para Post mostrar os seus dotes no line dancing.

A celebração final desenhou-se com o hino “Congratulations”, já com Post numa plataforma elevatória posicionada no meio do público enquanto apreciava de frente o seu próprio espetáculo de pirotecnia. Com a banda em palco a tocar o instrumental, Post Malone acabou por desdobrar-se numa despedida demorada, tendo percorrido vagarosamente o corredor central para, ao bom jeito do nosso Presidente da República, tirar muitas selfies, dar alguns autógrafos e ainda oferecer a sua t-shirt a um/a sortudo/a. Se isto não é amor e dedicação para com os seus fãs, então o que será?

POST MALONE PAULO PINHO 10
(c) Paulo Pinho | Live Nation Portugal

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