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Primavera Sound Porto 2025: A longa estrada percorrida pelos Deftones

19/06/2025

Review

Banda
9/10
Vaoz
9/10
Som
9/10
Ambiente
10/10
Overall
9.3/10
Be Quiet and Drive (Far Away)
My Own Summer (Shove It)
Diamond Eyes
Tempest
Swerve City
Feiticeira
Digital Bath
Rocket Skates
Sextape
Headup
Rosemary
Hole in the Earth
Change (In the House of Flies)
Genesis
- encore -
Minerva
7 Words

Foi preciso esperar 8 anos para voltar a ter os Deftones em Portugal. A banda subiu ao Palco Vodafone como um dos maiores destaques do segundo dia do Primavera Sound Porto para conquistar tudo e todos com um alinhamento “best of”.

[Nota de redacção: A banda apenas deixou-se fotografar por uma lista pequena de cinco meios de comunicação social]

Umas horas antes do concerto começar, entre conversas típicas de festival à boca de uma casa de banho, um par de fãs mostrava-se indignado pelos Deftones não darem o seu concerto no palco principal do festival, o denominado Palco Porto. Até porque não é todos os dias que o festival recebe metal (e ainda menos um dos nomes maiores do género), foi francamente comum encontrar estreantes no recinto. Provavelmente alienados do contexto do Primavera Sound Porto e da topologia do Parque da Cidade e dos seus palcos, é possível que fosse desconhecida a dimensão do Palco Vodafone e a qualidade do anfiteatro envolvente.

A verdade é esta: o Primavera Sound Porto pode ter um palco principal, maior e focado nas maiores produções de artistas mais populares. Mas os restantes três, este ano patrocinados pela Vodafone, Super Bock e Revolut, são semelhantes e com bastante espaço e visibilidade, ainda que injustamente denominados de “secundários”. O próprio Palco Vodafone era, até 2023, o principal e local das maiores produções do festival. Quem acompanha o evento há vários anos sabia que a escolha de palco seria acertada.

Os Deftones são um caso de estudo no seio da música alternativa. Surgiram no boom do nu metal, entre bandas como Korn, Limp Bizkit, Linkin Park ou até Slipknot, mas cedo desenharam o seu próprio caminho. Após “Around the Fur”, lançado em 1997, foi notória a inclinação que a banda tomou para os caminhos do post-rock ou do shoegaze com “White Pony” – a própria influência dos Hum foi confirmada pelo vocalista Chino Moreno, fascinado pela combo de ‘heavy’ e música atmosférica de “You’d Prefer an Astronaut”. Os discos que se seguiram também não se encaixaram no nu metal dito tradicional, mantendo os Deftones à margem de um género que voltou à berra nos últimos anos.

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© Hugo Lima | www.hugolima.com

A rompante entrada em palco no Porto com “Be Quiet and Drive (Far Away)” dissipou logo todas as dúvidas. Não existiram choques de públicos nem de gerações: novos e velhos fãs receberam com todo o entusiasmo possível os primeiros riffs após uma longa seca no norte do país, onde os Deftones não actuavam há 24(!) anos. A moldura humana também foi surpreendente, com toda a encosta do Palco Vodafone ao som dos potentes riffs de “My Own Summer (Shove It)” e “Diamond Eyes” num arranque em que a guitarra permitiu castigar (num bom sentido) os ouvidos.

A moldura humana também foi surpreendente, com toda a encosta do Palco Vodafone ao som dos potentes riffs de “My Own Summer (Shove It)” e “Diamond Eyes” num arranque em que a guitarra permitiu castigar (num bom sentido) os ouvidos.

Chino Moreno, em boa forma física, subiu várias vezes à plataforma sobre os monitores de palco para saltar e elevar o microfone. Na guitarra lead, a ocupar o lugar do fundador Stephen Carpenter que deixou de fazer digressões fora dos EUA e Canadá, esteve Lance Jackman, que nem por isso deixou de exibir os modelos de 7 cordas de assinatura Carpenter construídos pela ESP. Na outra guitarra, de suporte, esteve Shaun Lopez, companheiro de banda de Moreno nos Crosses. Frank Delgado nos teclados, Fred Sablan no baixo e Abe Cunningham na bateria compuseram a restante formação em palco no Porto.

Depois do trio introdutório, foram feitas visitas aos pares a vários álbuns da já longa carreira – “Tempest” e “Swerve City” lembraram a aproximação ao post-metal de “Koi No Yokan”; “Feiticeira” e “Digital Bath” mostraram porque é que “White Pony” é uma irresistível demonstração de peso e envolvência etérea; “Rocket Skates” e “Sextape” como flancos distintos de “Diamond Eyes”. Foi também nestas duas últimas que foram expostas algumas falhas ao longo do concerto, ora pela aceleração descontrolada na primeira (com Cunningham a motivar um pequeno impasse entre bateria e guitarras), ora pela voz de Chino Moreno na segunda, que pontualmente mostrou já ter passado melhores dias.

Caso diferente dos Deftones, que não vivem do revivalismo. Sempre percorreram a sua própria estrada e coube a todos nós no Porto recordar e celebrar uma das mais singulares bandas de sempre.

Em “Headup” coube ao público gritar as palavras de Max Cavalera, convidado na versão de estúdio editada em “Around the Fur”, antes dos arrepios gerais de “Rosemary” e “Hole in the Earth” (faixa esta desejada pelos Chat Pile, que tocaram ao lado no Palco Super Bock uma hora antes). A apoteose de “Change (In the House of Flies)” abriu caminho para “Genesis” na única passagem pelo mais recente álbum “Ohms” e a saída de palco. O encore não tardou, que mesmo sem a esperada “Bored” deu para percorrer novamente o longo percurso sónico dos Deftones com a intensidade de “Minerva” e a violência de “7 Words”.

A banda californiana saiu sob uma grande ovação. Nos ecrãs e no fundo de palco ficou apenas o seu nome e a data (precisamente a primeira da digressão europeia, num raro exclusivo do Primavera Sound Porto face à edição “mãe” de Barcelona). As roupas baggy do virar do milénio podem estar novamente na moda e até no público ficou patente a convergência estética, com a apropriação gótica mais ‘cool’ visível por todo o recinto. Caso diferente dos Deftones, que não vivem do revivalismo. Sempre percorreram a sua própria estrada e coube a todos nós no Porto recordar e celebrar uma das mais singulares bandas de sempre.

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