No primeiro dia de Primavera Sound Porto 2025 os irlandeses Fontaines D.C. deram o seu quarto concerto em Portugal, o terceiro num espaço de um ano, para voltar a apresentar o mais recente álbum “Romance” e deixar uma clara mensagem sobre o conflito em Gaza.
Os Fontaines D.C. aterraram no festival como uma força cada vez maior do outrora pós-punk e agora mais uma amálgama de rock alternativo, que tanto bebe da inspiração de Oasis como respeita os impulsos iniciais de Joy Division, The Cure ou The Jesus and Mary Chain na era “Darklands”. Já estão muito longe de serem aqueles “putos” irlandeses que cospem malhas punk num pub de Dublin e são já uma flecha apontada ao rock de estádio como outras bandas, entretanto sediadas em Londres – aliás, têm até um disco dedicado à identidade irlandesa enquanto emigrantes em “Skinty Fia”. A noite foi, no entanto, centrada em “Romance”, tal e qual como fizeram no Vodafone Paredes de Coura e no Sagres Campo Pequeno no ano passado.
A faixa-título continua a abrir o espectáculo, com a bandeira da Palestina desde logo visível e colocada num dos amplificadores de palco junto ao guitarrista Carlos O’Connell, já Grian Chatten surgiu de óculos escuros com a sua voz anasalada. Avistamos ainda o coração insuflado que ilustra a capa do álbum, ao sabor do vento e a preencher o fundo do palco. Em menos de nada se foi ao álbum anterior, com uma “Jackie Down the Line” a meio-gás e um som estranhamente embrulhado, nunca chegando a convencer em pleno até ao fim da actuação. Seguiu-se “Televised Mind” como um dos melhores exemplos recentes do uso de tremolo percussivo, pintando também o cenário de palco de azul alusivo a “A Hero’s Death” – esta acabou por ser a única visita ao segundo disco da banda irlandesa.
Seguiu-se “Televised Mind” como um dos melhores exemplos recentes do uso de tremolo percussivo, pintando também o cenário de palco de azul alusivo a “A Hero’s Death”
Foi da Jaguar de Conor Curley que ouvimos as reverberações de “Roman Holiday”, cabendo a Carlos os acordes da guitarra clássica e folk de 12 cordas. De seguida o verde das luzes escolhido para “Big Shot” espalhou entusiasmo na maioria da plateia – ora os fãs de Fontaines D.C., cuja cor é inerente à Irlanda natal, ora os restantes a salvar o lugar e que reconheceram o pantone “BRAT” de Charli xcx. Ao vivo esta faixa tem uma nova roupagem mais grunge, condizente com a “Death Kink” que a sucedeu no alinhamento. Para “Sundowner”, Grian Chatten recuou para segundo plano e as vozes entregues a Curley e ao baixista Conor Deegan revelaram o apreço que a banda ainda tem pelo shoegaze.

Condenado a b-side e, entretanto, lançado numa versão deluxe de “Romance”, o novo single “It’s Amazing to Be Young” parece querer sobreviver de outra forma dada a resposta do público – foi esta a única novidade na setlist desde o concerto em Lisboa em Novembro último. Já de “Bug” para “Big” não se mudou apenas uma vogal, mas também a atitude. A segunda, que abre o primeiro álbum “Dogrel”, é combustível punk que incendiou alguns moshpits e fez Grian tirar finalmente os óculos escuros para os avistar. O refrão servirá sempre para recordar o seu percurso como banda: «My childhood was small / But I’m gonna be big». Dito e feito, perante dezenas de milhares na plateia do Porto, com o mote lançado para a recta final que incluiu outra faixa da estreia, a óbvia “Boys in the Better Land” que pintou o palco de verde, branco e laranja. Antes disso, “Here’s the Thing” puxou do fuzz e arrancou pulos na audiência e “Nabokov” foi introduzida com uma rara palavra dirigida ao público: «Libertem a Palestina», disse sobriamente Grian Chatten para ovação geral.
“Favourite” mostrou ser um êxito perfeito para um festival de Verão – será esta a sua faixa mais comercial ou capaz de viralizar? – mantendo-se o mar de telemóveis a filmar “In the Modern World”, uma faixa cujo refrão poderia ter sido escrito para Lana Del Rey. Grian agarrou-se logo à bandeira da Palestina para “I Love You”, canção política que foi escrita da perspectiva de um irlandês orgulhoso da sua cultura que só pôde atingir o sucesso após ter emigrado. A mesma pode ser enviesada para o conflito em Gaza com um verso em específico: «Selling genocide and half-cut pride» dirige-se a quem segue as suas ideologias de forma cega e extrema sem considerar ou compreender todas as consequências. Nesse mesmo momento, os ecrãs de palco não poderiam clarificar melhor a mensagem que se tentou passar: «Israel está a cometer genocídio, usem a vossa voz». A despedida deu-se com “Starburster”, muito aplaudida e cantada.
O concerto num todo esteve longe de excelente, tanto pelo som e ambiente como por várias imperfeições instrumentais, mas a maior questão pode-se colocar sobre o alinhamento.
O concerto num todo esteve longe de excelente, tanto pelo som e ambiente como por várias imperfeições instrumentais, mas a maior questão pode-se colocar sobre o alinhamento. Os Fontaines D.C. encontram-se confortáveis nesta fase da carreira, talvez até demasiado, e não arriscam. Não há qualquer imprevisibilidade nas escolhas feitas ou até na sua ordem, mantendo assim uma setlist que parece escrita em pedra mesmo após duas apresentações idênticas por cá. A banda cresceu, deixa mensagens claras em palco e a previsão é que as suas plateias continuem a aumentar: para quê arriscar quando a fórmula parece resultar?
