O primeiro dia de Primavera Sound Porto teve uma cor e uma palavra: o verde “Brat” de Charli xcx avistou-se por todo o Parque da Cidade. Houve festa com música pop menos convencional e uma rave pós-internet.
Como pode o futuro ser tão nostálgico? Charli xcx é hoje responsável pela onda verde de camisolas, bonés ou qualquer outra peça de merchandise que possa carregar a palavra “Brat” em texto Arial esticado e pixelizado, mas a influência à larga escala demorou a chegar.
Antes de se tornar famosa pelos leigos da pop alternativa pelo seu refrão em “Fancy” de Iggy Azalea ou o tema “I Love It” que escreveu e cantou para a dupla sueca Icona Pop, Charlotte Emma Aitchison (o nome real de Charli xcx) celebrou como poucos a cultura da internet nos anos 2000. Partilhou as primeiras canções no MySpace quando tinha apenas 16 anos e acabou por utilizar o seu nickname do MSN Messenger como nome artístico – ‘xcx’ significa, afinal, kiss Charli kiss na língua inglesa onde a letra ‘x’ significa beijo.
Após alguns anos de impasse criativo e artístico, onde as coisas pareceram não querer resultar como planeava (o trabalho não-oficial 14, de 2008, foi distribuído gratuitamente nos seus concertos), as engrenagens começaram finalmente a dar algum sentido à carreira de Charli em 2011 com os singles “End of the World” (com Metric), “Stay Away” e “Nuclear Seasons”. Daí a “I Love It” para Icona Pop foram apenas alguns meses e o seu álbum de estreia, lançado em Abril de 2013, já era muito antecipado pela crítica e fãs. “True Romance” foi um sucesso, no entanto a aventura musical de Charli xcx ainda estava longe de definida.
A sua ascensão enquanto estrela pop internacional parecia orientada com novo single de sucesso, “Boom Clap” para o filme “The Fault in Our Stars”, e um segundo disco, o esforço pop punk chamado “Sucker”. Aí Sophie entrou em cena e Charli xcx nunca mais foi a mesma: a pioneira da hyperpop revolucionou a cena underground com o seu som abrasivo e texturas experimentais e o EP “Vroom Vroom” foi a primeira guinada na direcção que hoje “Brat” celebra.
A pop vanguardista de Charli xcx havia de receber também o contributo do produtor A.G. Cook e daí recebemos “Number 1 Angel” e “Pop 2”. Aí vimos a artista britânica rodear-se de uma longa lista de talentos – Brooke Candy, Caroline Polachek, Carly Rae Jepsen, Dorian Electra, Kim Petras, MØ, Mykki Blanco, Pabllo Vittar, Raye, Tommy Cash Tove Lo ou Uffie, por exemplo – e o trilho para o futuro da pop ficou traçado. O terceiro álbum, “Charli”, acaba por ser o seu homónimo e um reinício formal de carreira.
O período pandémico deu-nos “How I’m Feeling Now”, talvez o disco que mais se aproxima da sonoridade “Brat”, mas também acabou por nos dar “Crash”, um registo menos experimental e abrasivo para nova ruptura discográfica e início de uma nova aventura. Terminada a relação com a Asylum Records, Charli garantiu um novo contrato para subir mais um degraus e criar um verdadeiro fenómeno cultural.
“Brat” é passado, presente e futuro. É algo simultaneamente efémero e eterno.
“Brat” é passado, presente e futuro. É algo simultaneamente efémero e eterno. A cor verde lima, a moda inspirada nos 00’s e a utilização da internet como meio de propagação da palavra (afinal, a febre do MySpace pode ser adaptada a outras plataformas dos dias que correm) criaram um movimento que foi além da indústria musical. Em poucas semanas, “Brat” estava em todo o lado: nas roupas, na maquilhagem, na política (Charli xcx chegou a escrever na rede social X que Kamala Harris é ‘brat’), na publicidade e, sobretudo, na atitude espelhada pelas redes sociais. 2024 foi o ano do “Brat Summer”, que depressa terminou e que paralelamente ainda dura.
O que é afinal ser “Brat”? Numa tradução algo livre para o português pode ser interpretado como ser-se ‘pirralho/a’. É menosprezar os cânones da estética de menina bonita e exemplar e dar mais ênfase à emancipação e à evolução da persona adolescente natural, incluindo todo o espectro de sentimentos da raiva à tristeza. Não é preciso ser-se perfeito se a vida for encarada como ela é, imperfeita também.
Quando as cortinas esfarrapadas da capa de “Brat” desceram do alto do Palco Porto e Charli xcx surgiu da escuridão, foi iniciada uma rave pós-moderna. Completamente sozinha em palco, com as luzes e as câmeras a fazerem o papel de ‘banda’, a britânica assumiu-se como figura central como popstar global e também como autora da sua própria produção – a única rainha possível do seu território. Mesmo com o som longe de perfeito e o visível cansaço da artista, quem se propôs a celebrar a ocasião não terá saído defraudado.
Houve tempo para singles remisturados, como a introdutória “365” com o toque de Shygirl, a versão “Girl, so Confusing” regravada com Lorde ou o aclamado single “Guess” partilhado com Billie Eilish. Foram feitas duas passagens por “Pop 2”, com “Unlock It” e “Track 10”, faltando no entanto, nesta segunda, o chuveiro que utilizou noutras datas da digressão. Foi, claro, o miolo de “Brat” que preencheu a maioria do alinhamento, como “360”, “Von Dutch”, “Club Classics”, “I Might Say Something Stupid”, “Everything is Romantic”, “Sympathy is a Knife” ou a coreografia viral de “Apple” (não houve Chappell Roan para fazer a dança como em Barcelona, por razões óbvias).
Os restantes minutos do alinhamento foram cirúrgicos: houve “Speed Drive”, tema escrito para a banda sonora do filme “Barbie”; entoou-se a plenos pulmões “Party 4 U”, que recebeu recentemente um videoclipe na celebração do quinto aniversário de “How I’m Feeling Now”; e “Vroom Vroom” é uma faixa tão orelhuda em palco como é em estúdio. Para o final, ficou o passado mais distante com “I Love It” na única explosão de cores nos ecrãs. Não houve encore, nem muitas mais palavras, terminado o espectáculo ao fim de apenas uma hora. Na condição de headliner do dia, pecou por muito curto e pela perceptível fadiga.
O ecrã fez as despedidas, sugerindo que “Brat Summer” não é algo sazonal e que Charli quer mesmo que nunca acabe, de olhos postos no futuro. A própria parece reconhecer que a bolha não pode rebentar tão cedo dado o seu historial. Ainda assim, a artista continua a remexer no seu passado: todas as capas dos seus álbuns, EPs e mixtapes foram adaptadas à estética “Brat”, enquanto o mesmo já foi relançado com diversas tracklists “deluxe”, cores e capas. Nas plataformas de streaming o disco está uma constante mutação e actualmente podemos ler “forever <3’ na sua capa. “Brat” é um clássico e durará para sempre.
