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TV on the Radio (c) Teresa Mesquita

Primavera Sound Porto 2025: Os velhos e os novos ilustres da música

No Porto celebraram-se distintas gerações de fenómenos da música, desde o legado de Kim Deal até às ascensões recentes de Magdalena Bay e Wet Leg. Pelo meio, Beach House e TV On The Radio comemoraram as suas longas carreiras.

No primeiro dia de Primavera Sound Porto, encabeçado por Charli xcx, houve outro momento de pop invulgar. A dupla norte-americana Magdalena Bay apresentou-se com uma formação expandida para interpretar ao vivo e na íntegra o mais recente álbum “Imaginal Disk”. Aclamado como um dos grandes discos de 2024, o sucessor de “Mercurial World” (também este bastante aclamado em 2021) colocou a banda de Mica Tenenbaum e Matthew Lewin debaixo de maiores holofotes neste seu regresso a Portugal.

Depois de uma passagem algo despercebida por um palco secundário do Rock In Rio Lisboa em 2022, os Magdalena Bay voltaram com fortes argumentos e bastante esclarecidos. O Palco Revolut enfrentou uma das suas maiores enchentes e a maioria não arredou pé desde a introdutória “She Looked Like Me!” até à final “The Ballad of Matt & Mica”. Na extensão do concerto destacaram-se as melodias aliciantes de “Killing Time”, “Image”, “Death & Romance” ou “Cry for Me” e vários elementos que desafiam a lógica da pop normalizada.

A estrutura das canções com influência de neo-psicadelismo colocam-nas num patamar de quasi-prog pop e a instrumentação, de execução técnica irrepreensível de todos os músicos, saltou à vista desde o baixo de 5 cordas sem cabeça e à keytar popular na década de 80. O estupendo e simples design de palco, os CD-roms atirados para a plateia e as trocas de roupa elevaram ainda mais o concerto que não parou de surpreender nos seus detalhes.

[Nota de redacção: Nagdalena Bay não deu autorização para captação de fotografias por parte da imprensa]

Já no segundo dia, a 13 de Junho, lembrámos o percurso de dois nomes da música indie dos anos 2000. Os TV On The Radio subiram primeiro ao Palco Vodafone, ainda o sol se aproximava do horizonte, para percorrer a sua discografia. Tunde Adebimpe entrou em palco e decidiu falar à plateia em português, «traduzido pelo Google» como confessou, para agradecer a presença de todos «em tempos tão horríveis», enquanto Kip Malone colocou o seu keffiyeh no teclado – e também a bandeira da Palestina era bastante visível na sua guitarra.

Considerados um dos principais causadores do movimento indie rock nova-iorquino no virar do milénio, os TV On The Radio estão cada vez mais longe dos seus tempos áureos. Talvez por isso mesmo quiseram lembrar como tudo começou, arrancando o concerto com “Young Liars”, faixa homónima do seu primeiro EP do já longínquo ano de 2003. Daí passou-se por “Golden Age” e “Lazerray”, faixas separadas pelos seis anos entre “Dear Science” e o último disco “Seeds” (2014), antes de Adebimpe pedir à plateia para se gritar «Fuck ICE» no seio das restrições de imigração correntes impostas pelo presidente norte-americano. Voz pronta para se continuar a gritar, desta vez a letra da triunfante “Wolf Like Me”.

A festa prolongou-se para se cantar os parabéns ao baterista Jahphet Landis, assumindo-se a confusão em palco pela versão portuguesa da canção não terminar ao fim ao de quatro versos. No alinhamento do concerto destacaram-se ainda “Province”, “Happy Idiot” ou “Dancing Choose”, com o adeus a ser feito ao sol, já próximo de ser engolido pelo Atlântico neste ponto, com “Staring at the Sun”. Os TV On The Radio elucidaram-nos que, mesmo sem qualquer registo discográfico em mais de uma década, estão em boa forma e o palco poderá ser o seu habitat nos tempos vindouros.

Volvidas umas horas, no mesmo Palco Vodafone, os Beach House regressaram ao festival também sem quaisquer preocupações de se focarem num novo álbum. A maior incidência do alinhamento foi sobre “7”, representado por quatro faixas que melhor exemplificam o casamento entre a dream pop, o shoegaze e o psicodelismo que a banda de Baltimore promove. Desse registo ouvimos logo “Dark Spring”, lançada logo após a entrada feita com “Lazuli”, e ainda “Drunk in LA”, “Lemon Glow” e “Girl of the Year”. Já “Silver Soul”, a única sacada do fantástico “Teen Dream”, proporcionou um mar de telemóveis elevados pela colina acima.

Em dado momento, Alex Scally a dirigiu-se ao público para recordar o concerto dado em 2008 na sala Passo Manuel, no Porto, acrescentando que tem sempre boas memórias de Portugal. Pela ovação final, o sentimento parece ser recíproco.

A sensibilidade quente das melodias e, ao mesmo tempo, gélida das projecções dos Beach House levam-nos para as florestas da costa do Noroeste do Pacífico, onde os cenários da série “Twin Peaks” tomam lugar. Enxergámos algum merchandise a evocar a obra de David Lynch e sente-se essa ligação espiritual entre a música de Victoria Legrand, Alex Scally e James Barone com a banda sonora do Roadhouse – mais evidente ainda nas três faixas seleccionadas de “Depression Cherry” nesta noite, “PPP”, “Wildflower” e “Space Song”.

Foi-se ao baú com “Master of None”, do álbum de estreia de 2008, e “Myth” continua a encantar com a sua progressão. O desfecho foi feito com “Over and Over”, menção única feita ao mais recente “Once Twice Melody”. Em dado momento, Alex Scally a dirigiu-se ao público para recordar o concerto dado em 2008 na sala Passo Manuel, no Porto, acrescentando que tem sempre boas memórias de Portugal. Pela ovação final, o sentimento parece ser recíproco.

A 14 de Junho, o terceiro dia de Primavera Sound Porto, o Palco Porto recebeu o legado musical de Kim Deal. A baixista original e co-vocalista dos Pixies, banda que abandonou em 2013, e também líder de The Breeders, chegou ao festival para apresentar o seu primeiro álbum a solo, intitulado “Nobody Loves You More” e lançado no ano passado. Em palco estiveram dez músicos em palco (entre sopros, coros e cordas) para interpretar a complexidade das composições.

Deal cedo anunciou as suas intenções, anunciado que ia tocar seis músicas novas e depois seis ‘versões’ (com as devidas aspas). Do country disfarçado de “Coast” ou “Crystal Breath” ao rock mais pontiagudo de “Disobedience” deu para contemplar a versatilidade da compositora, mas a plateia foi definitivamente agarrada na segunda metade da actuação. Foi nesta fase que “No Aloha”, “Do You Love Me Now?” ou “Cannonball”, eleitas do bestial “Last Splash” de The Breeders, fizeram as delícias.

Porém, além de um concerto, esta foi também a altura de homenagear Steve Albini. O lendário engenheiro de som, produtor e músico, que actuou em todas as edições do Primavera Sound Porto com os seus Shellac até ao seu falecimento no ano passado, foi lembrado pelo seu passado distante e recente. «Vocês já sentem a falta de Steve Albini? Sim, é uma porcaria…», confessou Kim Deal, que era uma amiga próxima, antes de arrancar a última faixa do alinhamento. A verdade é que Albini gravou a maioria das faixas de “Nobody Loves You More”, mas a oportunidade serviu para anotar a sua importância que teve no papel de Kim Deal nos Pixies. Durante a produção do primeiro disco, “Surfer Rosa”, disse ter sido encorajada por Albini a escrever e cantar as suas músicas – caso particular de “Gigantic”, interpretada no Porto com a voz possível ao fim de quase quatro décadas.

No mesmo Palco Porto, umas horas depois, coube à banda britânica Wet Leg representar a nova vaga de indie rock. O percurso desta banda tem sido, para já, exponencial: há quatro anos tomaram de assalto as rádios com “Chaise Longue”; há três lançaram o álbum de estreia homónimo; e há dois foram nomeadas para o Mercury Prize e venceram dois Grammy Awards nas categorias de música alternativa. Não será de estranhar porque é que já são um nome ilustre do género.

O segundo álbum “Moisturizer” será lançado dentro de um mês, a 11 de Julho, e está na origem de uma reestruturação da formação da banda. A estreia foi apenas gravada pela dupla Rhian Teasdale e Hester Chambers (ambas vozes e guitarras), ao passo que Henry Holmes (bateria), Josh Mobaraki (guitarra e teclados) e Ellis Durand (baixo) são agora membros efectivos de uma dupla que passou a quinteto. Embora a tendência seja de crescimento enquanto banda, em palco as atenções afunilam-se em Teasdale.

O alinhamento foi dividido irmãmente entre os dois álbuns, cabendo ao público não só entoar as novidades já conhecidas “Catch These Fists” e “CPR”, mas também outras que haverão de compor o corpo de “Moisturizer”, como “Jennifer’s Body”, “Liquidize”, “Mangetout” ou “Pillow Talk”. Da estreia destacaram-se “Wet Dream”, “Supermarket”, “Too Late Now” ou as mais aplaudidas “Angelica” e “Chaise Longue”.

Entre o concerto no Super Bock em Stock em 2021 e este em horário nobre no maior palco do Primavera Sound Porto, houve ainda uma primeira parte feita para Harry Styles em Algés em 2023. De talento emergente a confirmação iminente, quatro anos de ascensão já colocam a banda perto do topo dos festivais europeus e só futuro reserva a circunstância em que voltaremos a ver Wet Leg por cá.

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