Ao terceiro dia foi colocada a cereja no topo do bolo. Os Turnstile regressaram com “Never Enough”, recém-lançado álbum, para um histórico concerto no Parque da Cidade do Porto.
Ainda antes dos ecrãs fazerem a entrada cinemática de “Never Enough”, quarto álbum acompanhado por um trabalho visual apresentado no Tribeca Film Festival em Nova Iorque, a antecipação já era palpável. Os Turnstile eram o corpo estranho do cartaz deste ano, não pelo seu estilo (o hardcore punk já várias vezes marcou presença no Primavera Sound Porto), mas sim pela sua dimensão. Foi já com um pé na madrugada do terceiro dia de festival que a banda norte-americana garantiu uma extensa plateia junto do Palco Vodafone.
Falamos de um raríssimo caso de sucesso do género, demonstrado até na fileira de ilustres da música alternativa na criação e produção de “Never Enough”: A.G. Cook, Dev Hynes (Blood Orange), Faye Webster, Hayley Williams (Paramore), Leland Whitty (BadBadNotGood), Maestro Harrell e ainda Shabaka Hutchings. Nem por isso a banda se desligou do seu hardcore melódico, criando apenas passagens mais densas de vozes e sopros quando comparado com o anterior sucesso “Glow On”.
Fora essas passagens, em que o céu estrelado e a Lua cheia fizeram até um cenário idílico, o espectáculo esteve quase sempre com a intensidade no pico. No palco o vocalista Brendan Yates saltitou, rodou várias vezes sobre si próprio em várias direcções e esteve incansável a puxar pelo público. Os presentes nas primeiras filas não fizeram por menos e tivemos direito a mais de uma hora de crowdsurfing, moshpits, circle pits e até uma wall of death in loco, sem precisar que Yates desse palavra de ordem para o fazer. A lição pareceu estudada e este concerto, pelo menos nesta ala, teria sido idêntico fosse ele na lisboeta República da Música (onde a banda se estreou em Portugal, em 2015), no RCA Club, no LAV, no Hard Club ou qualquer outra sala onde o hardcore já fez correr muito suor.
Os presentes nas primeiras filas não fizeram por menos e tivemos direito a mais de uma hora de crowdsurfing, moshpits, circle pits e até uma wall of death in loco, sem precisar que Yates desse palavra de ordem para o fazer.
O que se testemunhou foi uma invulgar simbiose entre banda e público. Os singalongs e os gritos “boom boom boom” como em “T.L.C. (Turnstile Love Connection)” ecoaram pelo anfiteatro do Parque da Cidade. «I want to thank you for letting me be myself», verso que chegou a ser mostrado nas t-shirts da audiência, fez com que muitos se sentissem compreendidos, integrados e acarinhados. Nos ecrãs, quando as câmeras apontavam ao espaço entre as grades e a régie, os corpos confundiam-se nos sorrisos, abraços e saltos. Quem virou costas à banda, mesmo que momentaneamente, também não via a linha do fim das cabeças.

O alinhamento desta terceira visita da banda de Baltimore a Portugal (a anterior foi no Vodafone Paredes de Coura em 2022) passou evidentemente por “Never Enough” e todas as suas faixas fortes, como a homónima, “I Care”, “Dull” ou “Look Out For Me”. Já o álbum “Glow On” continua a ter maior representação na setlist, com destaque para as apoteóticas “Fly Again” e “Alien Love Call” ou as pujantes “Endless”, “Holiday”, “Mystery” ou “Blackout”. A estreia “Nonstop Feeling”, de 2015, foi recuperada através de “Drop” e “Fazed Out”, enquanto o segundo álbum, “Time & Space”, teve o seu carimbo com “Come Back for More” e “Real Thing”.
Em palco, para além do infatigável Yates, também os guitarristas Pat McCrory e Meg Mills (que substituiu o fundador Brady Ebert), o baixista Freaky Lyons e o baterista Daniel Fang contribuíram para uma aparente infinita energia. O som esteve imponente e quaisquer nuances foram corrigidas logo nos primeiros minutos. Cada riff mais rápido serviu de ordem de marcha para empurrões e até os solos de baixo, como na introdução e miolo de “Holiday”, foram entoados pelos fãs.
O ecrã no fundo do palco serviu para repetir a homenagem que os Turnstile fizeram a Jimi Hendrix, no cenário que construíram para o vídeo de “Birds” semelhante ao registo “Live in Maui”, de 1970. Foi com essa panorâmica colorida que “Seein’ Stars”, faixa que nos transporta aos The Police e aos anos 80, estendeu a ponte para “Birds” como última chance de ‘ataque’. «Finally I can see it / These birds not meant to fly alone», nas derradeiras palavras deste single que tem tanto de feroz como de dançável, ficou a tilintar nos ouvidos.
Brendan Yates desceu finalmente ao público para abraçar e cumprimentar toda a primeira fila, de uma ponta à outra, numa volta de vitória e de plena conquista. Dada a extensão da plateia e o contexto em que aconteceu, terão os Turnstile dado o maior concerto de hardcore de sempre em Portugal? É uma forte possibilidade e inevitavelmente histórico.














