O segundo dia do Primavera Sound Porto, a 12 de Junho, esteve completamente lotado e a circulação tornou-se complicada em certas horas. Isso não impediu os Gorillaz de darem um dos mais arrepiantes concertos…
Para os Gorillaz a morte não é o destino, mas sim uma nova etapa
Os Gorillaz regressaram ao Primavera Sound Porto quatro anos depois da sua última passagem pelo festival com a árdua missão de apresentar um novo álbum perante um recinto esgotado que, na sua maioria, esperava ouvir faixas com mais de duas décadas. Estivemos, no entanto, longe de acolher uma simples viagem nostálgica.
Cedo se percebeu que seria um dia diferente do anterior. O público era tão multi-geracional que se sentiu uma certa vertigem existencial, com crianças a usarem camisolas com os bonecos 2-D, Noodle, Murdoc e Russel, tal como os seus próprios pais provavelmente poderiam ter feito nos anos 2000. Feito raro este, o de construir um universo ficcional suficientemente convincente para sobreviver ao tempo e cativar miúdos quando a banda já é tomada como um ‘clássico’.
Mas por trás desses bonecos há pessoas de carne e osso, com real peso sobre os seus ombros. “The Mountain”, o disco que trouxeram na bagagem, é fruto do luto de Damon Albarn e de Jamie Hewlett após a morte dos respectivos pais no espaço de dez dias, misturado com viagens que fizeram pela Índia e uma sequência de reflexões sobre a mortalidade. E talvez por isso, ainda antes de se ouvir a primeira nota, os ecrãs prestaram homenagem a David Hockney, artista britânico recentemente desaparecido. Este gesto poderia ter parecido solene demais para um festival, mas estabeleceu o tom para o tema geral da noite: o que fica quando as pessoas partem.

_ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.instagram.com/hugolimaphoto
Intercalando-se faixas do catálogo passado como “19-2000”, “Rhinestone Eyes”, “El Mañana” ou “On Melancholy Hill”, o palco rapidamente se transformou num desfile de convidados de luxo. Joe Talbot dos IDLES, que no dia seguinte tocaram no festival, deu voz a “The God of Lying”, Kara Jackson surgiu para “Orange County” e Moonchild Sanelly foi a figura central de “With Love to an Ex”. O momento mais calorosamente recebido pertenceu a Yasiin Bey (ex-Mos Def) em “Stylo” e “Damascus”, esta última com um pedido de aplausos para Omar Souleyman, que participa também na versão de estúdio. Bootie Brown apareceu para “Dirty Harry” para nos lembrar porque é que esta é uma das faixas definitivas dos Gorillaz.

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O que os Gorillaz fizeram no Primavera Sound Porto foi além da música ou de um concerto de apresentação de um novo disco. Foi um ritual colectivo sobre o que sobra depois de perdemos as pessoas que nos formaram.
A morte pairou sobre o alinhamento de forma deliberada e bem-feita. Evocou-se Bobby Womack em “The Moon Cave”, “Delirium” prestou tributo a Mark E. Smith, dos The Fall, e “The Shadowy Light”, dedicada à cantora indiana Asha Bhosle, falecida há dois meses, fechou com uma passagem melancólica de lap steel guitar para suspender a festa e convocar algumas lágrimas.
Damon Albarn mostrou-se numa versão mais sóbria do que noutras passagens recentes por Portugal, como a irreverência que marcou o concerto dos Blur na edição de 2023 do festival, e esteve sempre mais contemplativo mas nunca distante. A dada altura desceu à plateia para distribuir autógrafos, cumprimentar fãs e desejar feliz aniversário a quem celebrava a entrada de um novo ciclo quando o relógio passou da meia-noite. Um gesto que encaixou perfeitamente na intenção da noite, a de celebrar a vida enquanto ela acontece.
Para o fim ficaram guardados os dois maiores trunfos. “Feel Good Inc.” e “Clint Eastwood” eram inevitáveis para quem esperava ouvir os maiores clássicos, mas não terá faltado quem achasse a ausência de “DARE” difícil de perdoar. Mas depois de quase duas horas de referências à perda, à superação e à espiritualidade involuntária, ambas ganharam uma dimensão extra. A primeira continua a questionar as ilusões de uma felicidade forjada, enquanto a procura da esperança da segunda ganhou um peso que provavelmente não tinha quando foi escrita. À luz de “The Mountain”, deixaram de soar apenas a canções óbvias de catálogo para se revelarem etapas anteriores de uma ideia contínua.
O que os Gorillaz fizeram no Primavera Sound Porto foi além da música ou de um concerto de apresentação de um novo disco. Foi um ritual colectivo sobre o que sobra depois de perdemos as pessoas que nos formaram. Em palco mostraram que a força do colectivo e de todas as suas colaborações continua a morar na contradição: quanto mais virtual parece o universo, mais profundamente humano se revela.

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Viagra Boys, Punk rock caps lock
Se houve um momento em que os Viagra Boys deixaram de ser aquela banda engraçada que um amigo te mostrou e passaram a ser um fenómeno de encher recintos, foi este concerto no Primavera Sound Porto. Em palco, a banda sueca ostentou stacks da Marshall e apenas o seu logótipo em plano de fundo. Punk à antiga, sem adereços, sem ecrãs gigantes a compensar falta de energia.
O vocalista Sebastian Murphy entrou em cena como só ele consegue: barrigudo, a cambalear, com a postura de quem sabe exactamente o que está a fazer mas prefere que não se note muito. É a personificação ambulante de um “Punk Rock Loser”, um tipo que parece ter perdido o fio à meada mas que carrega mais carisma num dedo do que muitos frontmen têm no corpo inteiro.
“Man Made of Meat” e “Slow Learner” ditaram o tom (esta ocasião não seria apenas para apresentar “viagr aboys”), e à medida que o concerto avançou, Murphy foi ficando mais presente. Houve espaço para política, até porque não seria punk se não houvesse. “Troglodyte” foi dedicada a Elon Musk após o vocalista questionar o público se sabia que este se tinha tornado o primeiro trilionário do mundo, algo dito com a entoação de quem está a anunciar um crime. Seguiu-se um «Free Palestine, Fuck Israel» atirado sem hesitação como quem observa a chuva. A audiência respondeu de acordo.
Em palco, a banda sueca ostentou stacks da Marshall e apenas o seu logótipo em plano de fundo. Punk à antiga, sem adereços, sem ecrãs gigantes a compensar falta de energia.
“Ain’t No Thief”, “Pyramid of Health”, “Down in the Basement” e “Cold Play” fizeram parte do alinhamento e foi nestas últimas que as coisas saíram dos eixos, no melhor dos sentidos. Falamos de um circle pit durante um solo de saxofone. Oskar Carls soprava como se a vida dependesse disso e lá em baixo, nas primeiras filas, as pessoas corriam em círculos como se estivessem num concerto de metal. Daí surgiu um paralelo com os Stooges, com a ocasião a piscar o olho a Steve Mackay e ao colapso controlado entre o free jazz e o punk. Mas se fez algum sentido? Não. Foi espectacular? Completamente.
O ponto chave chegou em “Sports”, quando o público decidiu que remar no chão podia ser nova modalidade olímpica e Murphy, fiel à sua missão, terminou a música a fazer flexões antes de se deixar cair gloriosamente no palco. Uma conclusão artística com guia para “Research Chemicals” e para deixar claro que os Viagra Boys já não são uma banda em ascensão. São um facto consumado, um dos grandes nomes do punk contemporâneo, e fazem questão de o escrever em maiúsculas.
Fotos: (c) Teresa Mesquita
Slowdive foi apenas um sonho
Há concertos que pedem noite cerrada e depois há outros que só fazem sentido assim: ao pôr-do-Sol, com o Atlântico a perder-se no horizonte e o Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões, juntamente com as redes suspensas da Rotunda da Anémona, a servirem de cenário involuntário. Os Slowdive tocaram à hora certa, no sítio certo e com o tipo de música que parece ter sido composta especificamente para este intervalo entre a luz do dia e a escuridão.
O som de assinatura liderado pelas vozes de Neil Halstead e Rachel Goswell é imediatamente reconhecível. Guitarras densas e esvoaçantes, embebidas de chorus, phaser, delay e reverb até ao limite em que uma guitarra cristalina se afunda sem pressa. Shoegaze na sua forma mais pura, não fosse a banda de Reading uma das principais embaixadoras do género nos anos 90. Apesar disso, o tempo parece não lhes dizer respeito. É com uma linguagem tão sólida e definida que “Star Roving”, faixa lançada no regresso aos álbuns em 2017, após 22 anos de interregno, já nos soa a um clássico tão especial como os de “Souvlaki”.
O quinteto pouco se deu à comunicação mais expressiva e preferiu fazê-lo com olhares cúmplices, a dar-nos a mão para o imaginário etéreo da mesma forma que o fez em 2022, em passagem anterior pelo Primavera Sound Porto, ou em 2024 no Vodafone Paredes de Coura. Pouco há a dizer quando o público se rende sucessivamente a canções como “Catch the Breeze”, “Crazy for You”, “Sugar for the Pill” ou “Alison”.
Quando as últimas notas de “When the Sun Hits” se dissolveram no ar, o Sol já tinha desaparecido no oceano. Abertos os olhos e abraçada a noite, restou a sensação de quem acordou de um sonho e se lembra de todos os seus detalhes.
Fotos: (c) Teresa Mesquita
Melt-Banana, uma trituradora de noise e glitch
Não existem muitas bandas a quem chamar de «supersónicas» de forma séria. Os Melt-Banana são uma delas. Em palco tudo acontece muito depressa, sejam riffs frenéticos, gritos animados, glitches e mudanças de direcção que deixam pouco espaço para processar o que acabou de acontecer.
Veteranos da cena experimental japonesa, a dupla chegou ao Primavera Sound Porto com credenciais difíceis de ignorar, seja pelo aval de KK Null ou Steve Albini, que misturou “Scratch or Stitch” de 1996, ou pelos rasgados elogios do lendário radialista John Peel, que os acolheu na BBC e cedo os colocou no mapa do underground internacional. Infelizmente só haviam passado uma vez por Portugal, em 2017 com datas em Lisboa e no Porto, e este regresso serviu para apresentar o mais recente álbum “3+5”.
Ao longo de uma hora que se foi num piscar de olhos, Yasuko Onuki e Ichiro Agata foram implacáveis e mantiveram sempre o pé no acelerador para guitar uma oscilante cascata de pitch-shifting, riffs frenéticos e uma drum machine que pareceu ter vida própria, tornando-se difícil contar o número de faixas no alinhamento – aliás, houve até um segmento de oito temas curtos tocados em cinco minutos, devidamente apresentados de forma hilariante pela vocalista.
Injectado pela adrenalina alucinante do grind, do punk e do noise, o público respondeu da forma mais óbvia enquanto apresentou uma relação pouco saudável com a cervical e os tímpanos. As primeiras filas tiveram até direito a uma experiência imersiva, pois a troco de um bilhete houve concerto, cardio e inalação de poeira. Haja corpo para tanto.
Fotos: (c) Teresa Mesquita