Se há festival que impressiona pela variedade musical, é este. Entre 12 e 15 de Junho, o Parque da Cidade revelou que o rock existe de muitas formas e que a electrónica serve de estimulante para créditos finais.
Da vertente comercial aos tons mais pesados, há toda uma fileira musical onde pode ser selado o termo «rock». Se à cabeça desta edição tivemos nomes como Fontaines D.C., Deftones ou Turnstile no que diz respeito às guitarradas, há a relatar desta edição outros momentos que poderão ter passado debaixo dos radares.
No primeiro dia, a combinar com os tons dourados do final de tarde, o trio australiano Glass Beams fez uma viagem sobre os seus únicos EPs, “Mirage” e “Mahal”. O grupo, envolto de mistério graças às suas máscaras, detém na sua música uma fusão de funk rock com passagens psicadélicas. O paralelismo com outras bandas do género, como é o caso dos Khruangbin, é inevitável, mas o que infatiza a banda de Melbourne são os seus pontos cardeais sonoros, mais próximos do Médio Oriente.
Não lhes faltou groove nem vontade de fazer dançar com uma certa porção cinematográfica pelos adereços de palco e roupas – deu até para arregalar a vista durante aquele desfile de guitarras Maton vintage. Deu para um cheirinho de clubbing entre faixas à base de sintetizadores (em vez do ‘tradicional’ guitarra, baixo e bateria) e, apesar da novidade “Mahal”, foram as mais antigas faixas “Taurus” e “Rattlesnake” que arrancaram mais aplausos no concerto dado no Palco Vodafone.
Fotos: Teresa Mesquita
Entalados numa slot entre Beach House e Deftones ambos no palco ao lado, os Chat Pile estrearam-se em Portugal no Palco Super Bock a 13 de Junho. A banda norte-americana chegou a Portugal na sua primeira digressão europeia de sempre (exceptuando concertos pontuais no Reino Unido nos anos anteriores) e trouxe consigo “Cool World”, forte e aclamado segundo disco – e, à semelhança da estreia “God’s Country”, é uma corpulenta tareia de noise rock.
O vocalista Raygun Busch, nome de palco de Randy Rulz, revelou ser um cinéfilo assim que dirigiu as primeiras palavras aos portugueses. «Este é o país onde se gravou A Casa dos Espíritos [The House of the Spirits], com Meryl Streep e Jeremy Irons», afirmou de forma séria antes de várias sequências sobre particularidades de cinema a envolverem Portugal. Sem sequer uma imagem ou nome no ecrã ao fundo do palco, foi sobre fundo negro que vimos o quarteto a disparar jardas como “I Am Dog Now”, “Shame” e “Frownland” logo nos primeiros minutos.
Fotos: Teresa Mesquita
«Nas vésperas de uma terceira guerra mundial, é bom estar aqui», rematou o frontman já depois de dispensar a camisola e de se posicionar a favor de uma Palestina livre, contra o fascismo e contra a guerra.
«Nas vésperas de uma terceira guerra mundial, é bom estar aqui», rematou o frontman já depois de dispensar a camisola e de se posicionar a favor de uma Palestina livre, contra o fascismo e contra a guerra. Seguiram-se novas injecções de sludge como “Why”, “Slaughterhouse”, “Pamela” ou “Masc” com um tom de baixo que ao vivo se aproxima mais ao de Fieldy dos Korn. Na plateia houve mosh e muito headbang. Em palco, mais desabafos sobre cinema com humor à mistura intervalados por “Wicked Puppet Dance”, “The New World” ou “Funny Man”. Foi intenso, pujante e ensurdecedor… pode-se repetir já no próximo ano, no mesmo palco e à mesma hora?
Foi intenso, pujante e ensurdecedor… pode-se repetir já no próximo ano, no mesmo palco e à mesma hora?
No terceiro dia de festival, coube aos Squid no Palco Revolut dar montra a outra prática de rock. O conjunto inglês oriundo de Brighton funciona como um autêntico ensemble de art punk em que o baterista e vocalista Ollie Judge assume o papel de maestro. O regresso ao Primavera Sound Porto aconteceu no seguimento da digressão de apresentação do novo álbum “Cowards”, lançado este ano.
O alinhamento passou também pelos dois discos anteriores, com “G.S.K.”, “Swing (In a Dream)”, “Undergrowth” e o derradeiro giro “Pamphlets” a trazerem maior familiaridade às frescas “Crispy Skin” (que abriu o concerto), “Building 650” e “Cro-Magnon Man”. O espectáculo foi uma jornada quase ininterrupta de rock, funk e jazz num caminho sempre cruzado com o post-punk, abeirando-nos por vezes à excentricidade dos Talking Heads.
O Palco Revolut destacou duas sensações ibéricas

A disposição horária do Palco Revolut a 14 de Junho empilhou duas sensações muito distintas da Península Ibérica. A representar Portugal, no primeiro concerto do dia neste palco, David Bruno tomou as rédeas de uma espécie de comício político transformado em musical. O músico vangloriou-se por ser o primeiro artista de Gaia actuar em edições consecutivas do festival (fê-lo no ano passado com o seu Conjunto Corona) e apelou à sobrevivência dos tascos que servem em travessas de inox. Já António Bandeiras, o «Homem-Aranha das Caxinas» nas palavras de David Bruno, rapou o cabelo qual Robert De Niro no Taxi Driver e atirou rosas para o público a grande altura depois de subir o gradeamento do palco.
Pelo meio somaram-se convidados, como Rui Reininho para “Tema de Sequeira”, Presto para “10 em 10” e Mike El Nite para “Interveniente Acidental” e “Inatel”. Se nos tivessem dito que aqui havia começado a campanha autárquica para a Junta de Freguesia de Mafamude e Vilar do Paraíso, teríamos acreditado.

© Hugo Lima | www.hugolima.com | www.instagram.com/hugolimaphotoNo mesmo palco na slot logo a seguir, coube aos vizinhos Carolina Durante congregarem a maioria do público espanhol presente no Parque da Cidade. A banda formada em Madrid prontamente se apresentou aos portugueses na voz de Diego Ibáñez, lesionado e apoiado em canadianas, para o seu primeiro concerto por cá. O palco, meticulosamente montado como um escritório e com direito a um elevador (a entrada da banda lembrou mesmo uma sitcom, com cada um dos músicos a surgir com a música da série norte-americana “The Office”), fez da melhor possível a montra para os temas do novo álbum “Elige tu propia aventura”, trabalho que inclui a participação de Rosalía.
Musicalmente os Carolina Durante encontram-se algures entre o pop punk e o indie rock, particularmente difícil de classificar dada a energia empurrada em temas aparentemente inofensivos. Para o público os rótulos pouco importaram: cantou-se e levantou-se muita poeira, os copos secaram mais rápido e a diversão só acabou quando os madrilenhos saíram de palco.
A electrónica fez rolar os créditos finais

No Primavera Sound Porto coube à electrónica musicar os créditos finais de cada dia e até do festival. Não foi porém este o seu único papel, acomodando as actuações de Jamie xx e Caribou em papeis principais. O produtor e músico inglês, que reconhecemos também da sua banda The xx, voltou ao festival com “In Waves” mas com as mesmas ideias da anterior passagem: à falta de comunicação, sente-se necessidade de uma componente visual mais atractiva para combater um concerto (ou set) monótono, com a agravante de lhe ter sido atribuída a chave de encerramento do Palco Porto neste ano. Já o canadiano Dan Snaith também regressou à cidade invicta com o novo disco enquanto Caribou, “Honey”, e subiu ao Palco Vodafone no primeiro dia em formato quarteto que, aliado ao variado espectáculo de luzes, criou uma nova dimensão para faixas como “Sun”, “Never Come Back”, “Break My Heart” e “Can’t Do Without You”.
Para notas finais dos dias, anotámos duas formas diferenciadas de o fazer: através da energia vertiginosa das novidades The Dare e Fcukers, no Palco Super Bock nos dias 12 e 13 de Junho, respectivamente; ou através das texturas labirínticas de Floating Points em formato trio, que no Palco Vodafone a 14 de Junho e pós-Turnstile mostraram a experiência expansiva da electrónica do britânico Sam Shepherd.

O 15 de Junho serviu como epílogo dominical. Junto ao Palco Revolut acumularam-se os resistentes para o último pé de dança, com outros à distância a preferirem uma despedida mais relaxada com toalhas estendidas pelo relvado. No período da tarde a música esteve entregue a Catarina Silva e HAAi; Mura Masa fez consequentemente um DJ set que passou pelas suas produções; e finalmente Paul Kalkbrenner comprovou ser uma referência do techno alemão.
Durante todos os dias do festival existiu ainda um quinto palco algo improvisado, o Cupra Pulse, que acolheu a cena clubbing nacional, incluindo nomes como King Kami, Maria Callapez, MxGPU, DJ Narciso, NOIA, Pedro da Linha, Progressivu, Saya ou Vivax, entre outros.




























