A primeira noite de Primavera Sound Porto fez-nos enfrentar uma difícil escolha horária: os The xx, regressados ao festival após 14 anos, encabeçaram o dia 11 de Junho à mesma hora que os Agriculture protagonizaram uma das mais únicas propostas do cartaz.
Saudade ou nostalgia? Eis os The xx
Os The xx foram um dos grandes nomes da primeira edição do Primavera Sound Porto, em 2012, e regressaram agora ao festival ao fim de 14 anos. Se na altura o evento era ainda um embrião geminado da edição de Barcelona, hoje afirma-se como um segundo capítulo daquilo que acontece na Catalunha, ainda que com um cartaz mais reduzido. Em contrapeso, o recinto no Parque da Cidade do Porto oferece muito espaço verde, boa visibilidade na maioria dos palcos e uma menor azáfama, sendo mais propício a ambientes familiares e a dias de festival de ritmo mais descontraído
Após oito anos de ausência dos palcos, a banda londrina composta por Romy, Oliver Sim e Jamie xx teve ao seu lado o factor nostalgia. Com uma identidade sustentada no minimalismo e uma assinatura estética com tendências monocromáticas, desde o homónimo álbum de estreia de 2009 que o trio apresenta uma vulnerabilidade afectiva com roupagem indie pop austera e melancólica. A tensão emocional aprofundou-se em “Coexist”, álbum que deram a conhecer na edição inaugural do Primavera Sound Porto, alguns anos antes de uma expansão sonora significativa em “I See You”, fruto do trabalho de produção electrónica de Jamie xx para se passar de uma introspecção mais contida a uma energia mais luminosa.
No entanto, um dos temas mais reconhecíveis do repertório dos The xx abriu com alguma hesitação, com os instrumentos desencontrados em tempo e tom. Mas da instabilidade depressa se construiu um trunfo para se começar a conquistar o público.
O momento de memória colectiva começou assim que se apagaram as luzes e os ecrãs do palco principal para se escutar o diálogo hipnótico entre guitarra e baixo de “Crystalised”. No entanto, um dos temas mais reconhecíveis do repertório dos The xx abriu com alguma hesitação, com os instrumentos desencontrados em tempo e tom. Mas da instabilidade depressa se construiu um trunfo para se começar a conquistar o público. Um «Tudo bem, Porto?» antes de “Islands” serviu para medir a temperatura, com “Sunset” e “Fiction” a finalizarem a passagem pelo álbum “Coexist”.
Se a primeira metade do concerto funcionou como uma celebração do legado dos The xx, centrada nas faixas que os tornou num fenómeno global como “Shelter”, “Infinity” ou “VCR”, a segunda assinalou uma banda já moldada pelos trajectos individuais dos seus membros. A electrónica expansiva de Jamie xx assumiu maior protagonismo (“Loud Places”, “Wanna” ou “Treat Each Other Right”), enquanto as incursões pelas obras a solo de Romy (“Enjoy Your Life”) e Oliver Sim (“GMT”, com o próprio a descer ao público) mostraram como os percursos paralelos passaram a integrar a identidade colectiva do trio.
Após “Hold On” e “I Dare You”, a saída em definitivo de palco foi feita com “Intro”. Essa peça instrumental que nos abriu o universo sonoro dos The xx foi escolhida como carimbo final do alinhamento que pode ser visto com muita carga simbólica, criando uma sensação de reabertura de ciclo. Se este regresso aos palcos pode ser uma síntese dos caminhos individuais percorridos durante o hiato, então também podemos assumir que, mesmo depois das transformações do trio, a essência da banda continua a residir na contenção e naquilo que permanece por dizer. Tal como o seu próprio futuro.
O black metal espiritual dos Agriculture
No contexto do Primavera Sound, há muito que o festival funciona como um espaço de descoberta, onde é possível fazer uma espécie de scroll de concertos e deixar a atenção saltar entre palcos e propostas distintas. À mesma hora que os The xx se moviam num território de memória, contenção e revisitação do passado, o concerto dos Agriculture ocupava um ponto quase oposto no mesmo espectro emocional. Não tanto de ruptura, mas de intensidade extrema, a delicadeza surgiu sempre de forma inesperada no meio do ruído.
Formados em Los Angeles no início desta década, os Agriculture têm vindo a afirmar-se como uma das propostas mais singulares do black metal contemporâneo, integrando uma variação do género (na gíria, o ecstatic black metal) que cruza a agressividade do género com momentos de transcendência e uma dimensão quase espiritual. A banda distingue-se por uma abordagem pouco ortodoxa que alterna blast beats e vocais abrasivos com passagens contemplativas, nas quais a densidade sonora se transmuta em catarse emocional. Essa linguagem está patente no segundo álbum, “The Spiritual Sound” lançado no ano passado, e em palco ganha uma expressão ainda mais visceral.
A banda distingue-se por uma abordagem pouco ortodoxa que alterna blast beats e vocais abrasivos com passagens contemplativas, nas quais a densidade sonora se transmuta em catarse emocional.
No breve período em que foi possível assistir ao concerto, destacavam-se bandeiras da Palestina e da comunidade trans colocadas junto à amplificação, enquanto um mosh pit constante e alegre se mantinha nas primeiras filas. As frenéticas luzes vermelhas recortavam a colina do parque, acentuando a dimensão física do concerto. Aqui até os solos de guitarra pareciam reconfigurados nessa energia, recuperando uma certa aura cool perante a monstruosidade que é “Bodhidharma”. Já em “The Reply” coube à voz de Dan Meyer arrepiar a plateia. A faixa final, “Living Is Easy”, dedicada à comunidade queer em pleno pride month encerrou o concerto de forma particularmente intensa.
© Hugo Lima | www.hugolima.com | www.instagram.com/hugolimaphoto
A sombra interior de Ethel Cain e a arma política de Kneecap
Este primeiro dia de festival contou com outros dois nomes com universos muito próprios vincados na importância da identidade. A folk sombria de Ethel Cain finalmente marcou presença no Parque da Cidade do Porto após cancelamento de última hora em 2024, podendo servir desta ocasião para apresentar o mais recente álbum “Willoughby Tucker, I’ll Always Love You”, mas foi no primeiro “Preacher’s Daughter” que recaiu grande parte do alinhamento.
Surgiu em palco com “American Teenager”, um primeiro pulo antes da imersão, sem abdicar de um sorriso atrás do outro. Os fãs reagiram efusivamente às primeiras notas de cada canção, acompanhando de cor as suas letras como aconteceu em “Nettles”, “Dust Bowl” ou “Ptolemaea”. Os crescendos carregados de fuzz transportavam lentamente a estética gótica e sulista da artista para o doom e o drone, resultando numa catedral de ruído. Enquanto isso, grande parte do público aproveitou o concerto mais contemplativo para se sentar na encosta e usufruir do anfiteatro natural do parque da cidade.
Os crescendos carregados de fuzz transportavam lentamente a estética gótica e sulista da artista para o doom e o drone, resultando numa catedral de ruído.
Em frente foi-se construindo um manifesto sussurrado, canção a canção até à final “Sun Bleached Flies”, para invocar a sua própria política: a mais corporal, a do trauma, a da identidade de género e sobretudo da fé corrompida. O concerto funcionou como uma viagem densa pela vulnerabilidade de Ethel Cain, que acabou por sair do palco comovida com a resposta do público e prometeu regressar.
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No mesmo palco umas horas depois, coube aos Kneecap explorar o método «dividir e conquistar». Mo Chara, Móglaí Bap e DJ Próvaí apresentaram-se como sendo de West Belfast e Derry (e não do Reino Unido, território ao qual a sua Irlanda do Norte pertence), e desde o primeiro instante ficou claro que em palco fazem mais do que dar um concerto, fazem uma declaração política e humanitária.
Ainda antes da música começar já se podia ler “Israel está a cometer um genocídio contra o povo da Palestina e do Líbano”, e entoou-se «Free Free Palestine» pouco depois. Mas a posição dos Kneecap é sobretudo sobre a sua própria terra. A faixa inaugural “Éire go Deo”, que no irlandês significa «Irlanda para sempre», cedo nos lembrou a visão republicana do trio sobre a presença britânica na ilha. Enquanto isso apelaram a mosh pits desde os primeiros minutos. O crowdsurfing tornou-se prática comum junto às primeiras filas, cuja prontidão chegou a surpreender a banda. «Tocámos em Barcelona há uns dias e foi excepcional. Será que esta noite vai ser melhor?», atirou um deles, alimentando uma rivalidade saudável com o Primavera Sound catalão que não precisava de muito para incendiar uma plateia logo rendida
Entre “Sick in the Head”, “Rhino Ket” (com uma sorrateira pergunta dirigida ao público se alguém estava sob o efeito de ketamina) e “Your Sniffer Dogs Are Shite”, a festa raramente deu sinais de abrandamento. Houve tempo para um cómico interlúdio em que um dos membros anunciando que a música seguinte seria a «favorita» da sua avó, arrancando uma versão curta de “Sex Bomb” de Tom Jones num momento singular em que o absurdo total se sobrepôs à controvérsia sem pretexto político.
A política nos Kneecap não serve apenas para gritar frases feitas entre canções. A própria música é política e arma para relatar um conflito que parece adormecido à distância.
A política nos Kneecap não serve apenas para gritar frases feitas entre canções. A própria música é política e arma para relatar um conflito que parece adormecido à distância. Em “Get Your Brits Out” deram-nos uma lição: «Se não percebem o que nós dizemos, é normal. Cantamos em irlandês, uma língua guiada quase à extinção», insultando de seguida o governo britânico. Usar o irlandês não é para eles uma escolha estética. É um acto de desobediência histórica fazer hip-hop, raves e provocar o caos ao mesmo tempo que recuperam uma língua que a ocupação britânica tentou apagar.
«Como irlandeses, compreendemos o que são as consequências do colonialismo», disseram. Usam a sua plataforma para vocalizar aquilo que defendem, independentemente das repercussões, algo que já se materializou em problemas para Mo Chara, que se viu envolvido em controvérsia relacionada com a exibição de uma bandeira do Hezbollah atirada para o palco durante um concerto. No Porto foram mais cautelosos e até brincaram com o assunto, «não nos atirem bandeiras de organizações consideradas ilegais».
O concerto dividido entre uma apresentação do novo álbum “Fenian” e temas do álbum de estreia “Fine Art”, foi considerado como um dos melhores pelos próprios Kneecap. «Se esta é a primeira noite do festival, lamento que agora seja sempre a descer», disse Móglaí Bap num tom jocoso. Nesta noite, entre o sussurro de Ethel Cain e o grito verde, branco e laranja dos Kneecap, o Primavera Sound Porto percebeu que a identidade não se pede. É reclamada.
Fotos: (c) Teresa Mesquita
A rave milenar de Ninajirachi e a apatia de Oklou
Ninajirachi e Oklou protagonizaram neste primeiro dia um par de momentos criados para a mesma geração de pessoas cronicamente online.
Estava o Sol ainda a mergulhar no vasto Atlântico avistado da colina do Parque da Cidade quando Oklou subiu ao palco com “Thank You For Recording”. A artista francesa sentou-se numa plataforma ao centro do palco, dirigindo-se ao pequeno sintetizador pousado junto ao monitor, enquanto um operador de câmara a seguia para alimentar os ecrãs com uma perspectiva de palco (e onde Ninajirachi foi filmada, enquanto assistia ao concerto na lateral). Tudo pareceu pensado para a mediação tecnológica e para a intimidade de uma sala escura, mas sem conseguir reproduzir a proximidade emocional que faz de “Choke Enough” um disco cativante. O problema maior? Não estava escuro o suficiente para o conceito resultar em pleno.
As faixas do álbum preservaram a sua delicadeza mas raramente encontraram tradução física à altura. O autotune carregado, que em estúdio resulta como um efeito expressivo e deliberado da voz, expôs algumas fragilidades ao vivo. Existiram momentos altos, como “Take Me By The Hand” que arrancou uma reacção imediata do público e “Harvest Sky” que ofereceu finalmente um vislumbre de Oklou enquanto uma das vozes mais interessantes da pop experimental.
A própria artista mostrou-se consciente da singularidade da ocasião e recordou ter visitado o Primavera Sound Porto anos antes com amigos e ter regressado várias vezes à cidade. «Vivem num sítio tão bonito», confessou, despedindo-se com um «espero ver-vos em breve». Ficou foi a sensação de que o concerto esteve mais próximo de uma promessa do que da sua concretização.

Se Oklou induziu uma certa passividade ao final da tarde, Ninajirachi transformou-a em dança constante madrugada adentro. A australiana entrou em palco com “London Song” e cedo criou a sua própria rave alimentada pela nostalgia digital, onde a estética Y2K recuperou imagens do Windows XP e referências a animes como “Serial Experiments Lain” ou “Neon Genesis Evangelion”, entre muitas outras que passaram demasiado depressa para serem identificadas.
«Sou a Ninajirachi e é a primeira vez que estou em Portugal», anunciou, antes de um momento involuntariamente insólito em que a mesa de mistura pareceu ceder precisamente quando prometia estrear uma nova faixa assinada a meias com “Underscores”. Resolvido o contratempo, voltou logo ao ataque e, entre faixas próprias, estreias e desvios inesperados a versões remisturadas de Rosalía (“Berghain”) ou Charli xcx (a novíssima “Rock Music”), o DJ set assumiu-se como uma celebração da esfera digital enquanto linguagem.
“iPod Touch” e “Fuck My Computer”, guardadas para o fim, resumiram a proposta de Ninajirachi numa era em que os algoritmos conhecem os nossos hábitos melhor do que os amigos mais próximos. A australiana encontrou uma forma de transformar o mundo digital numa comunhão física e, ao mesmo tempo, criar uma cápsula do tempo para uma geração criada entre fóruns, ficheiros manhosos de MP3 e tabs infinitas. Hoje a internet é uma extensão da realidade, mas em tempos foi apenas uma segunda vida, um lugar distinto com uma cultura própria.
