Ao terceiro e último dia do corpo principal do Primavera Sound Porto sabíamos que os Massive Attack não iam dar apenas um concerto. Para gastar as baterias restantes houve rock agitador com IDLES, Yard Act ou Model/Actriz num 13 de Junho também marcado pelo hip-hop de Mike D, membro dos históricos Beastie Boys.
Massive Attack, um privilégio que não se pode dar como garantido
Espante-se quem chegou ao palco principal à espera de um serão tranquilo e levou com o mundo inteiro na cara. Os Massive Attack nunca dariam apenas um concerto – afinal, praticam este formato e mantêm-no devidamente actualizado há já muitos anos. O espectáculo ia a meio quando vimos pessoas a abandonar as imediações e a procurar outro conforto. Nas redes sociais, um dia depois, as queixas multiplicaram-se, acusando sucessivamente a banda de ter ido longe demais ou do festival ter promovido algo tão gráfico, chocante e desconfortável. Talvez assim tenha sido para quem só queria aproveitar um som calmo, de copo de gin numa mão e o telemóvel a filmar na outra.

Na subida a palco Robert Del Naja e Grant Marshall interpretam uma versão diferente de “In My Mind” de Gigi D’Agostino, que por sua vez incorpora a melodia de “L’Amour Toujours”, para reapropriar um hino das pistas de dança e nos levantar as primeiras questões: «Posso sentir?», «Eu pertenço?», «Isto é real?» ou «O que é o medo?», projectadas em português nos ecrãs. O universo dos Massive Attack, assente na imaginação, na idealização ou no desejo, procura semear mais perguntas do que dar respostas.
O universo dos Massive Attack, assente na imaginação, na idealização ou no desejo, procura semear mais perguntas do que dar respostas.
Seguiu-se um acto com alta carga política, exibindo nos ecrãs sucessivas imagens das guerras e dos conflitos que são sintomas de uma civilização que se devora a si própria, mas também fotografias dos seus responsáveis, como Erdogan, Netanyahu, Putin ou Trump. As críticas estenderam-se às gigantes tecnológicas, como a Amazon ou a Palantir, cujo presidente Peter Thiel foi citado em plano de fundo por já não acreditar que a liberdade e a democracia sejam compatíveis; ao descontrolo dos mercados devido aos bombardeamentos no Irão; à extração do lítio feita por crianças em África, tão útil para a bateria dos telemóveis como meio de activismo social.
Para nos expor a todas estas matérias, a banda de Bristol convocou três colaboradores habituais, faltando apenas Young Fathers face à anterior passagem pelo festival lisboeta Meo Kalorama em 2024: Elizabeth Fraser, voz de Cocteau Twins que não envelhece e dá vida a “Black Milk” ou “Group Four”; Horace Andy e a sua trémula toada de “Girl I Love You” e “Angel”; e ainda Deborah Miller, protagonista de “Unfinished Sympathy” e “Safe From Harm”, esta dedicada à Palestina e a Trevor Dietz, manager de Fontaines DC falecido há dias. Del Naja aproveitou a ocasião para afirmar que é uma honra estar ao lado de «rebeldes irlandeses», tal como Kneecap, na defesa contra a divisão, o racismo e o genocídio.
Uma versão de “Regret of the Times”, de Seo Taiji and Boys, surgiu no alinhamento como acto de continuidade, renovação e solidariedade com uma banda que sobreviveu à censura estatal na Coreia do Sul nos anos 90 para sublinhar que vale a pena utilizar a liberdade artística como veículo de intervenção. Para meter água na fervura e respirar, “Song to the Siren” de Tim Buckley, cantada por Elizabeth Fraser como o fez para This Mortal Coil, trouxe-nos a tragédia da tentação e de um ideal inalcançável, como as sereias da mitologia grega que atraíam os marinheiros para o naufrágio.
Ir a um festival, beber uns copos com os amigos, deixar os problemas em casa e ver Massive Attack em palco, tal como poder virar costas à brutalidade do mundo, são todos privilégios que não podemos dar como garantidos.
Perto do fim e para nos situarmos nos tempos, a curta passagem por “Levels” de Avicii serviu como tese da memória recente da cultura pop global, encaixando aqui a euforia das redes sociais, a polarização política ou a perda da inocência tecnológica ao utilizar um hino associado a festivais, à felicidade colectiva e ao optimismo. Dada por terminada a tareia cénica, Fraser foi o centro das atenções na despedida em “Teardrop”. Quem se tenha importunado tanto que não tenha ficado para a única canção que facilmente reconheceria, também não a mereceu ouvir.
Enquanto as acusações passam pela banda não adaptar o seu espectáculo para uma versão menos violenta em contexto de festival, o curioso é que parece não existir melhor contexto do que este. Ir a um festival, beber uns copos com os amigos, deixar os problemas em casa e ver Massive Attack em palco, tal como poder virar costas à brutalidade do mundo, são todos privilégios que não podemos dar como garantidos.
IDLES e o trunfo da imperfeição
Se os Massive Attack tinham acabado de levar o público a uma viagem de culpa colectiva e desconforto necessário, os IDLES seguiram-se nessa noite para transformar a energia restante em catarse no mesmo festival que os viu estrear em Portugal, em 2018. Passado este tempo muito mudou para o quinteto britânico, em dimensão e abordagem, mas mantiveram-se as lutas de sempre inerentes ao punk, como o antifascismo e a causa palestiniana.
A entrada foi feita com “Levitator”, nova faixa por lançar e que revela uns IDLES à procura de se reconectarem com os básicos de “Brutalism”. Sem novo álbum para mostrar (o mais recente “Tangk” é de 2024) e a dar o seu décimo concerto em Portugal em tão poucos anos, o alinhamento foi composto por um best of dos cinco álbuns lançados e malhas mais dissonantes, como “Divide and Conquer” ou “War”, foram prontamente alternadas com outras mais festivas, exemplos de “Mr. Motivator” ou “Danny Nedelko”.
Joe Talbot, destemido, vocaliza as questões de punho cerrado. Mencionando Mike D, que tinha tocado no mesmo palco horas antes, quis citar outro D: «Chuck D disse que era hora de tomar o poder de volta», atirou, ao lembrar o frontman de Public Enemy e o nome do primeiro trilionário do mundo. Lógica enviesada mas que funcionou na perfeição para assobios gerais, tal como os cânticos de «Palestina livre» agregaram aplausos.
De resto tudo igual, diga-se. Mark Bowen e Lee Kiernan, nas guitarras, são a antítese de tudo o que uma escola de música deve ensinar: desalinhados, ruidosos, a roçar o caos sem nunca lá cair completamente. Cair, aliás, só para cima do público, procurando o contacto múltiplas vezes ao descerem à plateia.
De resto tudo igual, diga-se. Mark Bowen e Lee Kiernan, nas guitarras, são a antítese de tudo o que uma escola de música deve ensinar: desalinhados, ruidosos, a roçar o caos sem nunca lá cair completamente. Cair, aliás, só para cima do público, procurando o contacto múltiplas vezes ao descerem à plateia. Noutro contexto chamaríamos falta de rigor. Nos IDLES, a imperfeição é trunfo calculado para que não soem exactamente como nos discos. A base forte mantém-se de qualquer forma: Adam Devonshire grita tanto no baixo como no microfone e Jon Beavis, metrónomo preso ao seu instrumento, castiga os pratos sempre que pode.
Facto provado e comprovado é de que os IDLES são uma das grandes bandas do rock actual, servem para abanar corpos, elevar braços, gastar baterias e criar um sentido de comunidade de amar o próximo, seja ele “[I’m] Scum” ou “Dancer”. «Os festivais de música são uma ocasião especial e o que vocês criam é magia», rematou Talbot após ladrar (“Rottweiller”) pela 5ª ou 6ª vez que iriam tocar «uma canção antifascista». Uma anáfora que nos venceu por cansaço, ainda que a sua valência fosse inquestionável. Tal como um décimo concerto de IDLES em oito anos.
Mike D, olá e adeus aos Beastie Boys
Figura histórica do hip-hop enquanto um terço dos nova-iorquinos Beastie Boys, Mike D anunciou o seu regresso à actividade e encaixou no Primavera Sound Porto como uma agradável surpresa na sequência do cancelamento do concerto de Dijon. Longe da ribalta desde o fim do trio, inevitável após a morte de Adam “MCA” Yauch em 2012, o sexagenário quis mostrar que está claramente vivo, em forma e com vontade, trazendo à cidade invicta a apresentação do álbum de estreia ainda por sair. “Thank You” será o primeiro longa-duração de um Beastie Boy em quinze anos.
A aparição de sete silhuetas rosa-choque, com Michael Diamond a liderar uma turma que inclui os filhos Skyler e Davis, o multi-instrumentista Eddie Ruscha e o seu filho Milo e também o guitarrista Will Graefe, fez-se ao som “Hello Brooklyn”, com a cidade de Nova Iorque a ser prontamente substituído por «Porto»: um rápido acenar ao legado dos Beastie Boys e a um pequeno skit de “Paul’s Boutique”, álbum que terá convencido a dupla Joey Valence & Brae, que actou no festival na véspera, de que às vezes não há melhor ideia do que repetir uma clássica receita.
Sempre muito comunicativo, Mike D mandou algumas tiradas ao lado, como questionar o público português sobre o jogo do Brasil (que nessa noite enfrentou Marrocos no mundial de futebol) ou de ter aprendido que «obrigado» na nossa língua também pode significar «adeus», mas também mostrou alguma vulnerabilidade. Em “It’s Time” admitiu que gostava de ter mais faixas como essa, numa confissão reveladora de um artista insaciável e que se podia ter limitado a viver de catálogo.
Um momento mais contido na faixa-título do álbum abriu caminho para fim de festa carregado de fulgor, com “Mind Your Own Business” de Delta 5 e, para fechar, “So What’cha Want”, um dos singles que revelou “Check Your Head” como a fase mais rock e punk dos Beastie Boys. Forma poética de fechar um concerto sobre continuidade, herança e o que sobrevive ao tempo, dado por uma figura rodeada da geração que ajudou a criar: um olá e um adeus para os Beastie Boys, mas um até já para “Thank You”.
Um brinde à liberdade com Yard Act e Model/Actriz
Para muitos o terceiro dia arrancou com Yard Act no palco principal, que serviram de aperitivo britânico para o que estava para vir. James Smith, vocalista da banda de Leeds, entrou preparado para tudo: incansável, falador, irónico e com a energia de quem tem muito a dizer mesmo que não se queira ouvir. Regressavam mais maduros a um festival onde passaram em 2023, e a digressão com os The Hives, que os trouxe ao Sagres Campo Pequeno em Novembro, deixou lições bem estudadas na cadeira de como tomar conta de um palco e de um público. Houve tempo para política, com um brinde ao mundo livre e palavras de apelo à paz na Palestina, na Ucrânia e no Sudão. E houve tempo para humor: Smith não resistiu a mandar uma farpa à secção VIP da plateia, «vocês pagaram para estar aí, então têm de gritar mais alto».
A setlist passou pelo novo álbum “You’re Gonna Need a Little Music», a lançar em Julho e com apresentação em Lisboa já agendada para Outubro. As faixas novas encaixaram naturalmente com o material já conhecido de “The Overload”, dispensando qualquer menção ao anterior disco “Where’s My Utopia?”. Ao final de tarde, com o Sol ainda bem alto, o concerto de Yard Act funcionou como um soco bem-disposto.
Já os vimos fazer mais e melhor com menos recursos, como aquela data dupla na Galeria Zé dos Bois em 2023, e o cansaço acumulado de fim de festival fez-se sentir tanto na plateia, onde figuravam ilustres como Perfume Genius, Adolfo Luxúria Canibal ou Samuel Úria, como no próprio concerto, que ficou uns furos abaixo da jarda que se pedia para fechar em grande.
Horas depois, já de madrugada e com o recinto a funcionar noutra velocidade, os Model/Actriz propuseram derrubar fronteiras com um ritmo desconcertante – as referências homoeróticas do dance pop de Lady Gaga ou Madonna colidem com o noise rock quase industrial a la Big Black, tudo ancorado no dance punk típico de Nova Iorque.
Trouxeram consigo o álbum “Pirouette”, mas também o mais recente EP “Swan Songs” e o anterior disco “Dogsbody”, de onde sacaram “Mosquito” em que Cole Haden desceu ao meio da plateia para a adoptar como extensão do palco. Em rodopios, saltos e interacções calorosas, o vocalista percorreu toda a área das primeiras filas como se fosse o seu quintal.
Já os vimos fazer mais e melhor com menos recursos, como aquela data dupla na Galeria Zé dos Bois em 2023, e o cansaço acumulado de fim de festival fez-se sentir tanto na plateia, onde figuravam ilustres como Perfume Genius, Adolfo Luxúria Canibal ou Samuel Úria, como no próprio concerto, que ficou uns furos abaixo da jarda que se pedia para fechar em grande.
Dois concertos de duas bandas que usam o corpo e a palavra de formas distintas para criar desconforto produtivo, ora com ironia britânica ao fim da tarde, ora com a energia física possível às três da manhã. Às vezes quanto mais se conhece uma banda, mais difícil é de nos agarrar pela surpresa: os Yard Act conseguiram-no, os Model/Actriz, desta vez, não.