Em julho de 2025, o Mosteiro da Batalha acolhe a primeira edição dos PLAY Tradicional, um novo capítulo na história dos Play – Prémios da Música Portuguesa e um sinal claro de alargamento do seu escopo cultural.
Pela primeira vez, o maior galardão da música portuguesa expande-se além do seu evento principal para integrar um novo formato, inserido num festival, o Artes à Vila, centrado na música de raiz tradicional.
Este gesto não é apenas simbólico. Representa o reconhecimento formal de um segmento frequentemente sub-representado nos grandes palcos da música nacional. A criação dos PLAY Tradicional responde, assim, a uma lacuna persistente: a ausência de distinção sistemática para formas de criação musical que integram um universo expressivo e artístico com profundidade estética, relevância histórica e valor social.
Um novo território de escuta e reconhecimento
A música tradicional é, por natureza, plural. Não corresponde a um género único, mas a um conjunto de práticas musicais que atravessam geografias, comunidades e gerações, encontrando a sua maior riqueza e qualidade no cruzamento de influências e sonoridades. Atribuir-lhe um espaço próprio dentro dos Prémios Play é reconhecer essa diversidade — com critérios, categorias e olhares críticos desenhados à medida da sua especificidade.
O Artes à Vila, onde decorre esta primeira edição, surge como o contexto ideal para este posicionamento: um festival que promove o cruzamento entre tradição e contemporaneidade, onde a valorização da herança musical caminha lado a lado com a sua experimentação e reinvenção. Este compromisso foi recentemente reconhecido pela própria UNESCO, que integrou o festival na sua Rede de Festivais com Boa Prática em Sustentabilidade Cultural, reforçando a legitimidade deste palco como espaço privilegiado para dar início aos PLAY Tradicional.
Premiar a música tradicional é também legitimar práticas artísticas que muitas vezes escapam ao radar da visibilidade mediática. Muitas destas expressões vivem em circuitos informais e/ou independentes, sustentadas por dinâmicas locais e um forte envolvimento comunitário. Ao criar um prémio dedicado, os PLAY Tradicional contribuem para a profissionalização e valorização simbólica desses universos, oferecendo reconhecimento num espaço onde este tem vindo a escassear.
Esse reconhecimento pode traduzir-se em novas oportunidades — de circulação, de financiamento, de mediação cultural — que poderão contribuir para um sustentado aumento da visibilidade e consumo destes géneros musicais.
Importa sublinhar que não se trata de folclorizar a música tradicional, mas de reconhecer a sua densidade estética e a sua capacidade de diálogo com outras linguagens — do jazz ao eletrónico, da canção à performance.
Há, atualmente, em várias partes do mundo, um interesse renovado pela música de raiz, entendida não como nostalgia, mas como matéria-prima para a criação contemporânea. Os PLAY Tradicional, ao inserirem-se nesse ecossistema, têm potencial para se afirmarem como agentes dessa renovação — promovendo uma curadoria que abre espaço simultaneamente à preservação e à experimentação.
Importa sublinhar que não se trata de folclorizar a música tradicional, mas de reconhecer a sua densidade estética e a sua capacidade de diálogo com outras linguagens — do jazz ao eletrónico, da canção à performance.
A criação dos PLAY Tradicional inscreve-se também numa trajetória consistente da Audiogest, promotora dos Prémios Play, enquanto entidade comprometida com a valorização e projeção da música portuguesa. Um exemplo paradigmático é o New Folk from Portugal: Toronto Concert Cycle, que decorreu no início deste ano e levou onze projetos nacionais ligados à nova música de raiz folk portuguesa a atuarem no Lighthouse Artspace, em Toronto, uma das cidades mais multiculturais do mundo. Financiando a totalidade dos custos de produção, a Audiogest reafirmou-se como promotora da internacionalização estratégica da música portuguesa, criando condições reais para os artistas alcançarem novos públicos. Estas iniciativas refletem uma visão cultural sustentada, que valoriza a diversidade estética como recurso artístico e exportável.
Embora o foco esteja na valorização nacional, a música tradicional pode ter um impacto internacional significativo. Em mercados de música global, a autenticidade e singularidade cultural são frequentemente vistas como ativos distintivos. Um prémio que destaca projetos enraizados na tradição, mas com ambição artística, pode servir como catalisador para uma projeção mais ampla — seja em festivais, residências artísticas ou mercados de exportação cultural.
Assim, a criação dos PLAY Tradicional é um passo decisivo, não apenas para os artistas envolvidos, mas para a reconfiguração do próprio sistema de consagração musical em Portugal. Ao estabelecer uma plataforma de reconhecimento dedicada à música tradicional, os Prémios Play abrem caminho para outras formas de excelência, que não se medem por vendas ou airplay, mas pela densidade cultural e capacidade de ressonância social.
Mais do que premiar o que está em voga, este novo galardão tem o potencial de contribuir para um campo cultural mais inclusivo e equilibrado — onde todas as linguagens musicais, independentemente do seu alcance comercial, possam ser escutadas, valorizadas e celebradas.
A entrega dos prémios está agendada para o dia 13 de julho às 17:00, no emblemático Mosteiro da Batalha, durante o festival Artes à Vila, e contará com as atuações de Raia e José Barros Navegante. A entrada é livre, mas é necessária a inscrição na bilheteira online.
Estão nomeados:
MELHOR ÁLBUM MÚSICA DE TRADICIONAL
– Cara de Espelho, “Cara de Espelho”
– Janita Salomé, “Pássaro Azul”
– O Gajo, “Terra Livre”
– Vitorino, “Não Sei do Que É Que Se Trata, Mas Não Concordo”
MELHOR ARTISTA OU GRUPO TRADICIONAL
– Janita Salomé
– O Gajo
– Vitorino
– Retimbrar
MELHOR ÁLBUM OU EP INSTRUMENTAL
– Abel Gonçalves, “Momentos”
– in.dia, “Perfeita Desordem”
– Júlio Pereira, “Rasgar”
– O Gajo, “Terra Livre”
MELHOR REINTERPRETAÇÃO DA MÚSICA TRADICIONAL
– Fidju Kitxora, “Karlon Barela”
– Cara de Espelho, “Cara de Espelho”
– A Cantadeira, “Tecelã”
– Omiri, “Ai Lé”