Um retrato de um conservadorismo que sempre meteu o nariz na música e onde não era chamado.
Num país que durante muitos anos foi pintado com cores ditatoriais, tudo o que não se conjugasse com “Deus, Pátria e Família” era marginalizado e colocado na borda do prato. Além disto – e para agravar a situação -, com o aparecimento da SIDA e a correlação negativa que se fez, desde muito cedo, entre os homossexuais e os portadores de HIV, ainda mais difícil se tornou assumir a individualidade orgânica de cada pessoa, especialmente se se fosse uma figura pública.
Naquilo que é, a meu ver, de especial relevância, é o impacto que os ideais conservadores, que defendem a tradição como regra, tiveram ao longo dos anos na música e de que forma é que a quarta arte teve um papel importante no rompimento de pensamentos quadrados.
Os primeiros registos
Desde o Séc. XIX que o Fado – um género musical bairrista que tem como mãe a taberna, e como pai o vinho – é a assinatura musical do pequeno país-apêndice de Espanha. Português que é português tem de gostar de Fado, sob pena de lhe ser retirada a nacionalidade. Contudo, o Fado é a representação do saudosismo, da saudade e das relações heterossexuais – por norma: desgostos entre homens e mulheres.
Sem menosprezar este estilo que espelha grandes vozes do panorama português, a cultura nacional é rica e autêntica, onde grandes nomes se escondiam nos bastidores por desafiarem as normas da música, da tradição e do “saber ser e estar”. O aparecimento da música queer em Portugal é um marco de resistência, visibilidade e celebração. É a tesoura que corta a etiqueta do “socialmente aceitável” e que acaba por enriquecer o país a nível social, cultural e até mesmo político.
O aparecimento da música queer em Portugal é um marco de resistência, visibilidade e celebração. É a tesoura que corta a etiqueta do “socialmente aceitável” e que acaba por enriquecer o país a nível social, cultural e até mesmo político.
Para isto acontecer, os artistas precisaram de um shot de coragem para abrirem as cortinas do palco, colocarem-se debaixo dos holofotes e pegarem no microfone para ganhar visibilidade e dizer “estamos aqui!”.
Silêncio que se vai cantar Queer
O termo “queer” é desafiante na forma como se define ou a que pertence. Originalmente, surgiu como um conceito pejorativo – diria até jocoso – mas foi abraçado pela comunidade LGBTQI+ para designar tudo o que se opõe ao “vulgar”, ao “socialmente aceite” ou, melhor dizendo, àquilo que a sociedade incutiu na cabeça dos demais como “normal” e “correto”. O foco é mais virado para questões de sexualidade e identidade de género, mas hoje em dia já abrange qualquer área.
No final dos anos 80 e no início dos anos 90, com o aparecimento de figuras como Judith Butler, onde desafiam aquilo que está estabelecido, defendendo que o género é uma construção social criada através da repetição de atos sociais e não uma identidade inata, o movimento queer começa a dizer as primeiras palavras. Grupos como Queer Nation e Act Up começam a utilizar o termo queer como forma de autodeterminação e protesto contra as políticas heteronormativas – sistema social e cultural onde o poder, a autoridade e os privilégios estão concentrados nas mãos dos homens, e há uma hierarquia estabelecida que colocam os homens numa posição dominante sobre as mulheres, excluindo outras identidades de género.
Como é que daqui, partimos para outras áreas além da identidade de género e da orientação sexual? Porque o surgimento deste movimento deu-se com a ascensão do neoliberalismo e da epidemia do HIV que excluía indivíduos que não se encaixavam nas identidades padrão. Ou seja, isto engloba todo o tipo de pessoas: tudo aquilo que não era visto em conformidade com a heteronormatividade, era marginalizado. O movimento queer acaba por ser uma abertura ao outro, ao que é diferente. Desta forma, não inserimos apenas questões de identidade de género e sexualidade, mas formas de estar, de pensar, de agir, de ser, de etnia.
Segundo esta linha de pensamento, a música queer não é, per si, um género musical, mas sim uma perspetiva através da qual se cria, interpreta e consome música. Resumindo: mais do que uma questão de identidade de género do artista, é a postura que este adota a nível estético, político, social ou cultural. Este comportamento caracteriza-se, logicamente, pela rutura de normas pré-estabelecidas. Seguindo esta perspetiva, se nos interrogarmos se um artista heterossexual pode criar música queer, a resposta é complexa: à partida, sim.
Segundo esta linha de pensamento, a música queer não é, per si, um género musical, mas sim uma perspetiva através da qual se cria, interpreta e consome música.
Se uma pessoa heterossexual adotar uma expressão de género não tradicional, supostamente poderá criar música queer, visto que queer é um termo identitário que é utilizado para descrever quem rejeita o status quo e possivelmente pode incluir heterossexuais que se sintam assim. Mas, para isso acontecer, a obra tem de desafiar ativamente as normas de género, sexualidade e políticas que vigoram num mundo que defende tradicionalismos.
Contudo, o âmago da questão está na vivência dos acontecimentos. Logo, é de se esperar que a música queer, quando criada e interpretada por artistas da comunidade LGBTQI+, tenha uma voz diferente: mais forte e com maior poder de encaixe. Para se considerar uma obra como queer há alguns aspetos que se tem de entender a nível lírico, a nível estético e se rasga ou não os cânones conhecidos.
No campo do lirismo musical, esta corrente não se fica por utilizar pronomes neutros ou assumir um protótipo de ouvinte – muitos dos temas que ouvimos são sobre relações entre homens e mulheres, e os estereótipos criados para cada um destes géneros. A música queer passa do geral para o particular. Aborda paixões por pessoas do mesmo sexo, explora a fluidez de género, descreve experiências de coming out e critica, muitas vezes, a opressão social.
Além dos temas que explora, esta “corrente”, se assim lhe quisermos chamar, manifesta-se através da própria performance do artista. Temos exemplos como David Bowie, Prince, Brian Molko e Sam Smith que utilizaram o próprio corpo e imagem para desafiarem as normas do que é que é “feminino” ou “masculino”.
Um dos expoentes máximos disto é a cultura drag, tendo como exemplo Sylvester, uma cantautora de disco, rythm and blues e soul que ficou conhecida pela aparência andrógena, pelo falsetto vocal e ficou batizada como a Rainha da Disco. Por fim, este tipo de música inclui a prática daquilo que é chamado “queering”, i.e., pegar numa música, escrita numa determinada perspetiva heteronormativa, e reinterpretá-la a partir de uma ótica queer.
Exemplificando: se uma artista lésbica canta uma serenata criada de um homem para uma mulher, mas mantém os pronomes originais da música, esta artista está a praticar “queering”. Por norma, este género de apropriações tornam-se hinos para a comunidade porque atribuíram um novo significado à faixa original.
A Saída do Armário
Na música nacional, o primeiro nome incontornável que temos é, obviamente, António Variações, uma figura inaugural e influente. Mal pronunciamos este nome, a primeira imagem que nos vem à cabeça é o cabelo colorido, o bigode loiro platinado, as roupas extravagantes, brincos e objetos que se fundiram no outfit de Variações, nomeadamente a típica tesoura que representa a fase em que o cantor era cabeleireiro antes de apostar na verdadeira vocação: a música. Não só pela forma de vestir, mas também pela maneira de ser, de estar e também pelo caminho que percorreu para nos entregar a sua obra, António Variações é um dos pioneiros da música queer em Portugal.
Assumiu uma imagem andrógena e levou a fusão de pop, rock e folclore ao peito como mais nenhum artista o fez. É a personificação do “diferente”, do “ousado”, do “não quero saber o que os outros pensam de mim”, algo que se acentua ainda mais atendendo à época em que viveu (1944-1984).
Variações não leva a medalha de “pioneiro da música queer” única e exclusivamente por ter tido um relacionamento amoroso com Fernando, um empresário de sucesso, mais novo, e que teve um relacionamento com o cantor nos seus últimos anos de vida, numa altura em que o casamento homossexual era proíbido. Tampouco pela aparência física. Mas sim, porque nos temas que nos ofereceu, a rutura das ideologias estava vincada e priorizada. Em faixas como “É p’ra Amanhã” transborda uma necessidade quase visceral de liberdade, que existia em todas as pessoas “diferentes” que se sentiam marginalizadas.
Além disto, tornou-se um verdadeiro ícone pela atitude avant-garde que possuía nos espetáculos que realizou, na música que produziu (considerada inovadora para a época) e pelo sucesso que alcançou numa altura em que não era fácil para artistas que desafiavam as normas do mainstream.
Além de Variações, também temos o grupo Pop Dell’Arte, fundados a meio da década de 80. Esta banda ficou conhecida pelo estilo original e transgressor e é considerada um projecto de culto e um marco na música portuguesa. Com o maxi-single “2002”, lançado em 1992, começaram a ficar associados ao movimento LGBT. A colaboração com Salomé, uma transgénero, e de outros artistas ligados ao meio, atribuiu-lhes uma visibilidade e uma voz que rompia com o pensamento vigente na altura. A adicionar, as atuações icónicas e a história assumida que o grupo tinha relacionado ao meio, torna-os uma parte significativa da cultura pré-queer em Portugal.
A ocupação permanente
Com a democracia já vigente, mas a ser sistematicamente atacada por vias partidárias retrógradas, uma nova geração começou a falar mais abertamente – mas ainda com algumas reticências – sobre relações com pessoas do mesmo sexo ou sobre questões de identidade de género. A representação da comunidade espelha-se em todos os estilos, desde o hip-hop, ao próprio fado – algo que comprova ainda mais a teoria do que é música queer.
Blaya é uma das vozes mais fortes do hip-hop e do dancehall português e nunca apresentou reservas quanto à sexualidade individual. Depois de ter saído dos Buraka Som Sistema, a cantora assumiu publicamente a bissexualidade. As letras dos temas a solo são um género de hino feminino que demonstra uma liberdade sexual que é poucas vezes ouvida na música portuguesa.
Estes dois fatores contribuem para se poder afirmar com certeza de que Blaya produz, sem dúvida, música queer. Temos como exemplo prático a faixa “Faz Gostoso”, onde Blaya fala sobre liberdade sexual da mulher, mesmo sendo numa relação heterossexual.
Mas há mais casos… No mundo da performance temos Natasha Semmynova, o nome artístico de Vitor José da Silva Fernandes. Natasha era uma drag, cantora e figura importante no cenário queer no Porto. Aparecida em 99, o nome artístico faz referência a uma “espiã russa” de um programa de televisão português chamado “Casino Royal”. Entre 2002 e 2006, estudou na Academia de Música de Paredes e desde sempre cantou e abraçou a comunidade, assumindo a própria identidade. Apesar de preferir o termo drag performer, Natasha destacava-se por ser andrógena, com barba, brincos, e não usava perucas ou seios de silicone, rompendo até com as expectativas e estereótipos que muitas vezes assumimos no mundo drag.
Em 2015, participou no The Voice Portugal, quando cantou “Creep” dos Radiohead. Esta participação televisiva, não só lhe atribuiu maior visibilidade como também deu maior destaque a esta comunidade no panorama nacional.
Outro dos grandes nomes da música queer é Inês Herédia, atriz e cantora portuguesa, de 35 anos, conhecida por colocar a sua orientação sexual e a narrativa do amor entre as mulheres no centro do portfólio musical. O trabalho mais exemplificativo da cantora é o tema “I Would Do It Again”, uma faixa que relata a história de amor entre uma mulher que se apaixona por outra ao vê-la dançar pela janela e que deixa que essa dança e esse amor a salve.
Temos muitos mais nomes que mostram que a música queer toca em muitos outros estilos, como: Sapatrux (uma dupla de DJ set que demonstra que a música queer não se baseia apenas em letras, mas também se refere ao ambiente, performance e espaços em que se apresenta) e Bruno Capinan, brasileiro, radicado no Canadá, que canta em português (é não-binário e o seu trabalho foca-se na identidade queer; o álbum “Tara Rara” demonstra a relação direta com desire/rare e identidade, onde explora género, raça e questões do mundo LGBTQI +).
Os Vaiàpraia são um outro exemplo da música queer em Portugal. São uma banda caracterizada por serem “punk-rock-queer-desabafo”. Contudo, vamos dar destaque a um projeto que não só dá visibilidade aos queer como rompe com quaisquer tradicionalismos inerentes no mundo de hoje em dia… Fado Bicha.
Este é um projeto musical de Lila Fadista e de João Caçador. Desde 2017 que trabalham no estilo do fado tradicional, mas transformam-no: utilizam a guitarra elétrica em vez da clássica, reescrevem as letras dos temas mais conhecidos para narrativas queer, com amor entre pessoas do mesmo sexo e falam sobre os problemas de identidade de género. O duo defende que pretende dar voz aos que estiveram sempre à margem e sublinha que é um projeto ativista, queer, anti-racista e feminista. O próprio nome demonstra logo para o que é que vêm: “Fado” (relativo ao género tradicional português) e “Bicha” (termo pejorativo e homofóbico que aqui é reivindicado).
Porque é que as Fado Bicha são um ótimo exemplo da música queer portuguesa? Porque pegam naquilo que os conservadores mais se orgulham de ter, o cartão de identidade do país a nível musical, ligado à saudade, à tradição e ao destino, e questionam e alteram elementos desse género, através da letra, dos instrumentos e da performance.
Porque é que as Fado Bicha são um ótimo exemplo da música queer portuguesa? Porque pegam naquilo que os conservadores mais se orgulham de ter, o cartão de identidade do país a nível musical, ligado à saudade, à tradição e ao destino, e questionam e alteram elementos desse género, através da letra, dos instrumentos e da performance.
O expoente e melhor exemplo do que acabámos de referir é o tema de 2019 “O Namorico do André”, uma adaptação de “O Namorico da Rita”, de Amália Rodrigues, onde alteram a letra para narrar a história de amor entre pessoas do mesmo sexo. Ao trazerem visibilidade queer e temas de identidade para o fado, o grupo expande o significado de quem pode cantar fado e sobre o que o fado pode ou não cantar.
Um Refúgio
Apesar de Portugal estar a viver uma época de extremos, onde cada vez mais as pessoas tendem a permanecer nos pólos “direita/esquerda” – à semelhança do que se tem passado no resto do mundo -, o impacto que a música queer possui é, sem dúvida, urgente e necessário. Utilizar-se a música para ajudar a abrir espaço para o que é “queer” em Portugal no contexto da tradição, ajuda, por si, a atrair visibilidade para artistas que não encaixam nas normas e que não deixam que tradicionalismos ditem as regras do jogo.
A emergência de artistas queer ou que trabalham com temas LGBTQI+ ajuda a que as pessoas que se veem fora da norma heterossexual ou cisgénero encontrem representação na cultura popular. Esta vertente da música atua como meio de crítica ou reflexão e há até quem defenda que é um ato político porque desafia o padrão dominante.
Além disto, a existência destes artistas, de festivais que acolhem a diversidade, de espaços musicais mais abertos, ajuda a criar redes de segurança e pertença para pessoas LGBTQI+, o que se torna especialmente importante para a saúde mental, visibilidade e para a própria cultura. A urgência e importância destas novas perspetivas e vertentes musicais é abismal para conseguirmos atingir a integração da diversidade sexual, de género e de tudo o que é diferente na cultura popular.
Artistas como os que referimos têm especial relevância porque fazem do estranho, extraordinário. E é este o principal poder da música: visibilidade, inclusão e dar voz àqueles que foram marginalizados durante décadas por não se inserirem em padrões anteriormente estipulados. É rasgar padrões cisgénero e dar espaço ao que é diferente.
De queer a queen, o movimento pretende visibilidade, inclusão e participar ativamente no choque, no extravagante, no que não é vulgar.