R.I.P António Chainho

27/01/2026

António Chainho, referência maior da guitarra portuguesa e figura incontornável da música nacional, morreu aos 88 anos, deixando um legado que transformou para sempre a forma como o instrumento é ouvido, pensado e projetado dentro e fora de Portugal.

António Chainho, mestre da Guitarra Portuguesa, é um dos nomes mais marcantes da música portuguesa e referência absoluta da guitarra portuguesa, faleceu no dia 27 de Janeiro aos 88 anos, na sua casa em Alfragide, nos arredores de Lisboa. O músico partiu no próprio dia em que assinalava mais um aniversário, encerrando uma vida inteiramente dedicada à música.

«É com sentido pesar que a família de António Dâmaso Chainho informa que este homem completo, indissociável da história do fado e da música em Portugal, com mais de 60 anos de carreira, símbolo e embaixador da guitarra portuguesa em todo o mundo, partiu hoje, dia 27 de Janeiro de 2026, data em que cumpre 88 anos de idade.
Fica a imensa saudade, o silêncio da sua inigualável sensibilidade e a eterna companhia do seu talento, da sua música.  De uma história de vida ímpar. E acima de tudo, fica também a honra de ter partilhado um mesmo tempo, espaço e muitas histórias bonitas.»

Nascido no concelho de Santiago do Cacém, António Chainho construiu uma carreira singular, marcada pela vontade de expandir os horizontes da guitarra portuguesa. Sem nunca renegar a tradição, foi responsável por levá-la para novos territórios sonoros, cruzando-a com outras linguagens musicais e apresentando-a em contextos até então pouco explorados. Esse percurso abriu caminho a uma nova forma de escutar o instrumento, influenciando várias gerações de músicos. A colaboração com os Blasted Mechanism em “We” demonstra bem o seu espirito de aceitar desafios fora da sua zona de conforto.

Ao longo de décadas de atividade, Chainho colaborou com artistas de diferentes áreas e culturas, afirmando-se como um criador inquieto e atento ao mundo que o rodeava. A sua abordagem inovadora valeu-lhe reconhecimento dentro e fora de Portugal, incluindo distinções internacionais que sublinharam a relevância do seu contributo para a música de raiz e para a chamada world music.

«Dei a volta ao mundo, toquei em todos os continentes, e acho que me sinto feliz.»
António Chainho

 

Deixou uma discografia vasta e marcante, iniciada em 1975 com “Guitarradas”, a que se seguiram álbuns como “Guitarra Portuguesa”, “Ao Vivo no CCB”, “LisGoa”, “Entre Amigos” e “Cumplicidades”, trabalhos que espelham um percurso artístico aberto ao diálogo e à colaboração com intérpretes de diferentes universos musicais.

Como todos os verdadeiros talentos, ciente da herança cultural que transporta, Mestre António Chainho assumiu um relevante papel pedagógico enquanto Mestre da Guitarra Portuguesa. A sua profunda aprendizagem pessoal é transmitida através do papel desempenhado na criação do Museu do Fado, na fundação da primeira Escola de Guitarra Portuguesa em Lisboa e na criação das suas próprias escolas em Santiago do Cacém, Grândola e ilha da Madeira. Em “Cumplicidades, álbum lançado em 2015 com a colaboração de músicos de Portugal, Brasil, Angola e Cabo Verde – soa a toda a paixão, entrega e dedicação que apenas Mestre António Chainho consegue dedilhar num acorde, conter numa harmonia e abrigar, para sempre, nos corações. A gama de emoções para a qual nasceram e que torna inseparáveis a guitarra portuguesa e António Chainho.
Em Março de 2022, António Chainho é distinguido pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, pelos “serviços relevantes a Portugal”. Recebe o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

Em 2023 editou o seu último álbum “O Abraço da Guitarra”, o seu décimo disco de originais, um álbum integralmente instrumental que funciona como síntese e ponto de chegada de uma carreira ímpar, reunindo temas inéditos e um tributo assumido a grandes guitarristas e compositores de fado que o influenciaram, como José Nunes, Armandinho, Raul Nery e Santos Rocha, e contando com a participação de vários músicos e cúmplices que marcaram, de forma direta ou indireta, o seu caminho artístico.

Após mais de 60 anos de carreira, o guitarrista celebrou a sua retirada dos palcos em 2024, no coração de Lisboa, numa Praça do Município lotada, com os convidados especiais António Zambujo, Carminho e Marta Pereira da Costa.

Mais do que um virtuoso, António Chainho foi um pensador da música, alguém que acreditava na guitarra portuguesa como instrumento vivo, capaz de dialogar com o presente sem perder identidade. O seu legado permanece não apenas nas gravações e nos palcos que percorreu, mas também na forma como ajudou a transformar a perceção da guitarra portuguesa, hoje reconhecida como um instrumento de alcance universal.

Foi considerado pela revista Songlines «um dos 50 músicos mais influentes da world music».

«Se a guitarra portuguesa é um símbolo de um país, Mestre António Chainho é hoje o seu mais notável embaixador. Herdeiros de uma singular tradição, os mais de 50 anos de carreira de Mestre António Chainho interpretam e traduzem as múltiplas emoções deste instrumento único no mundo e o talento inigualável de um dos “50 músicos mais influentes da World Music.»
Songlines

A morte de António Chainho representa a perda de uma figura incontornável da cultura portuguesa, mas a sua obra continuará a ecoar, lembrando que a tradição também se constrói através da coragem de a reinventar.

Informação sobre cerimónias fúnebres:
O velório decorre a 27 de janeiro de 2026, no Seminário de Nossa Senhora de Alfragide, a partir das 18h00 e até às 23h00.
A saída para o enterro decorre no dia 28 de janeiro às 10h00 e o serviço de cremação terá lugar às 12h00 no Complexo Fúnebre em Setúbal.