Morreu Sei Miguel, trompetista e compositor de referência no jazz português, aos 64 anos.
A notícia da partida do músico Sei Miguel foi confirmada por músicos e promotores próximos, entre eles o baixista Hernâni Faustino e Rui Pedro Dâmaso, do festival Out.Fest, através das redes sociais.
Nascido em Paris, em 1961, Sei Miguel viveu parte da infância no Brasil, fixando-se em Portugal durante a década de 1980. Foi nessa altura que fundou o grupo Moeda Noise, com Fala Mariam e João Parrinha, dando início a um percurso que cruzou o jazz com a improvisação livre e a experimentação sonora.
Em 1988, lançou “Breaker”, editado pela Ama Romanta, obra que se tornaria um marco na história do jazz nacional e um manifesto artístico de rara profundidade. A revista britânica The Wire viria a descrevê-lo como «o segredo mais bem guardado da nova música portuguesa», reconhecimento que contrastava com a relativa invisibilidade que o músico enfrentava no circuito institucional do jazz.
Com um estilo assente na contenção, no silêncio e na precisão absoluta do som, Sei Miguel desenvolveu uma linguagem musical própria, centrada no trompete de bolso, o instrumento que o acompanhou ao longo de toda a sua vida. Entre os seus muitos colaboradores contam-se Fala Mariam, Rafael Toral, Manuel Mota, César Burago e Pedro Gomes, com quem explorou novas dimensões entre o acústico e o elétrico, o ruído e a pausa.
A sua discografia inclui títulos de culto como “Songs Against Love and Terrorism” (1989), “The Blue Record” (1990), “The Portuguese Man of War” (1993), “Token” (1999), “Ra Clock” (2002) e o mais recente “Panorama” (2024), gravado com Fala Mariam e Daniel Levin.
Sempre fiel à sua visão artística, Sei Miguel recusava as convenções e o conforto institucional. Com a sua partida, desaparece um dos músicos mais singulares e visionários da música portuguesa, cuja obra continuará a ecoar nas margens do silêncio e da invenção.