A Arte Sonora esteve presente na primeira das duas noites dos Rádio Macau no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, a 30 de setembro, num regresso aos palcos que rapidamente encheu as duas datas na capital. A despedida continua agora pelo país, com passagem pelo Coliseu Porto Ageas a 15 de Outubro e, mais tarde, por Sintra, a 20 de Novembro, cidade onde os Rádio Macau nasceram.
A partir do final dos anos 70 e, sobretudo, ao longo da década de 80, começou a ganhar forma uma presença que até então era pouco comum no (pop) rock português, a das mulheres a ocuparem o centro de uma banda, não apenas como intérpretes, mas como vozes, compositoras e figuras determinantes na identidade dos próprios projectos. Lena d’Água foi uma das pioneiras desse percurso, primeiro nos Beatnicks e depois nos Salada de Frutas e na Banda Atlântida, afirmando uma voz feminina num território ainda maioritariamente masculino.
Os anos 80 trouxem depois uma nova geração e uma diversidade de vozes que ajudaram a alterar esse cenário. Os Roquivários, formados em 1981, tinham uma mulher na voz e no baixo. Em 1983 surgem os Rádio Macau, com Xana a liderar o projecto. Mais tarde, nos anos 90, outras mulheres haveriam de ocupar lugares centrais na música portuguesa, de Manuela Azevedo nos Clã a Viviane dos Entre Aspas, passando por Sónia Tavares nos The Gift. Percursos diferentes, vindos de universos musicais diferentes, mas que ajudaram a tornar menos excepcional a presença feminina no rock e na pop portuguesa.
É neste contexto que encontramos Alexandra Carmo. Nos Rádio Macau tornou-se parte essencial da identidade da banda, a sua voz, a sua presença e a forma como se relacionava com as canções ajudaram a construir uma figura que nunca precisou de se sobrepor à própria música. Numa época em que eram ainda poucas as mulheres a ocupar a frente de bandas de rock em Portugal, Xana construiu o seu lugar sem precisar de uma personagem maior do que as canções.
E essa é uma das características mais interessantes de Xana e de algumas das mulheres que vieram depois dela. Diferentes entre si, com vozes, linguagens e percursos distintos, foram ocupando o espaço da frente sem que a sua presença dependesse de uma lógica de diva. Xana foi, à sua maneira, uma espécie de anti-diva, segura, singular, reconhecível, mas sempre integrada num projecto em que a música esteve acima da personagem.

É também essa história que os Rádio Macau levaram ao Coliseu dos Recreios, a 30 de setembro, para iniciar aquela que será a sua despedida dos palcos. A sala lisboeta recebeu a banda de Xana, Flak, Alex Cortez, Luís Filipe Valentim e Samuel Palitos, numa primeira noite em que o passado se tornou presente, antes de se transformar numa memória para o futuro.
Uma despedida pela porta grande, daquelas que nos fazem desejar que um «até sempre» pudesse ser apenas um «até já».
«Hoje é o primeiro dia da nossa despedida», anunciou Xana perante o público. A frase estabeleceu desde cedo o tom de uma noite que sabia ao que vinha, sem dramatizar o momento. Em grande forma, começaram esta despedida pela porta grande, deixando-nos a desejar que este «até sempre» pudesse ser apenas um «até já.»
O alinhamento percorreu diferentes momentos da discografia, atravessando os oito álbuns da banda e deixando espaço tanto para os temas mais reconhecíveis como para canções que ajudaram a revelar a dimensão de um catálogo que vai muito além dos clássicos que ficaram na memória musical portuguesa.
No palco, a música foi acompanhada por uma componente visual marcada pela presença recorrente de uma estrela, reproduzida em diferentes grafismos ao longo do espectáculo. Logo no início, ao som de “Logo se vê” e “O hábito faz o monstro”, uma estrela de cinco pontas negra sobre fundo branco remeteu-nos inevitavelmente para “Blackstar”, de David Bowie, e para a dimensão de despedida que acabou por ficar associada ao último álbum do músico. Aqui, a associação ganha outra dimensão, porque os Rádio Macau também estão a percorrer aqueles que serão os últimos capítulos da sua história.

Visualmente bastante inteligente, a estrela acabou por ganhar uma leitura própria ao longo do espectáculo, como uma representação da banda, um símbolo que atravessou décadas, mudou de forma e de contexto, voltou a acender-se e que agora acompanha o início de uma despedida. Foi a imagem de uma estrela que, depois de mais de quatro décadas, ainda tem luz suficiente para iluminar uma sala inteira.
Foram os clássicos como “Cidade Fantasma”, “Anzol” e o saudoso “Elevador da Glória”, essas grandes malhas tugas, que fizeram levantar uma plateia confortavelmente sentada. Por momentos, éramos todos jovens outra vez.
Xana manteve no centro essa relação particular com o repertório. A voz que ajudou a definir os Rádio Macau continua imediatamente reconhecível, mas existe hoje uma dimensão diferente na forma como essas canções são recebidas. O que há umas décadas podia representar uma ruptura com uma cena musical predominantemente masculina é agora também memória de uma transformação que se foi fazendo ao longo de várias gerações.


Flak é um guitarrista de mão cheia e uma das presenças mais fortes em palco ao lado de Xana. O seu “virtuosismo” nunca é espalhafatoso, está na precisão, no timbre e na forma como constrói os temas. É uma presença constante durante todo o concerto e uma parte fundamental da identidade sonora dos Rádio Macau.
As linhas de baixo bem audíveis de Alex Cortez, o domínio das teclas de Filipe Valentim e as batidas certeiras de Samuel Palitos deram corpo a esta viagem, mantendo a banda coesa. Entre guitarras, teclados, baixo e bateria, o concerto foi construindo uma ponte entre os primeiros anos da banda e o presente, sem esconder o peso do tempo, mas também sem deixar que ele se sobrepusesse à música.



Pena que, por vezes, o som que nos chegava, pelo menos à bancada, estivesse demasiado alto e, em certas alturas, se tornasse estridente. Para quem não tinha tampões, houve alguns temas em que a intensidade acabou por ser um pouco incómoda, retirando alguma definição às canções.
O público que se apresentou no Coliseu respondeu à altura. Houve momentos de escuta concentrada, houve canções cantadas em uníssono e houve aquela cumplicidade particular que só existe quando uma banda regressa a um repertório que o público já transporta consigo há muitos anos.
Num alinhamento que percorreu mais de 30 anos de carreira, não faltaram as belíssimas canções de amor, esse sentimento que os Rádio Macau tão bem souberam cantar, em temas como “Acordar”, “Cantiga d’Amor” ou “Aos Meus Amores”. Não faltou também alguma intervenção política contra os males do mundo, em canções como “Guarda a Faca” e “A Última Gota de Mim”. O amigo Jorge Palma foi recordado em “Levo-me no Voo das Minhas Asas”.
Mais de 20 temas depois, a despedida fez-se com “A Vida Num Só Dia”. Foi precisamente isso que aconteceu no Coliseu, a vida e obra dos Rádio Macau condensadas numa só noite, ou em pouco mais de duas horas.
Os Rádio Macau começaram esta despedida em Lisboa, mas ainda não fecharam a porta. A última digressão levará a banda a outros palcos e permitirá prolongar um percurso iniciado em 1983, na Linha de Sintra, quando dificilmente alguém poderia prever que aquelas canções continuariam a ser cantadas mais de quatro décadas depois.
Essa é a melhor forma de olhar para esta noite no Coliseu. Não como o fim imediato de uma história, mas como o princípio do fim. A estrela continua acesa, ainda há palco, ainda há canções e ainda há público para as ouvir.
Setlist:
Logo se vê O hábito faz o monstro Amanhã é sempre longe demais Levo-me no voo das minhas asas Entre as memórias e o sonho É tão fácil De azul em azul 90 metros Quebra de atenção Acordar Cidade Fantasma Bom dia Lisboa Um dia a mais Entre a espada e a parede De volta ao espelho Guarda a faca A última gota de mim Cantiga d'amor Aos meus amores O Elevador da Glória O anzol Encore: Era uma vez (E não sei mais) A vida num só dia