Foi onde tudo começou, no Bairro de Alvalade, que os Tara Perdida celebraram, não só, 30 anos de carreira, mas também todo o legado de João Ribas. Entre vários convidados e um público multigeracional, a noite foi de comunhão e uma prova da resistência de uma das mais icónicas bandas portuguesas.
Dia de Portugal, de Camões, das Comunidades e dos Tara Perdida, é assim que deveríamos, a partir de agora, assinalar este feriado nacional. Brincadeiras à parte, foi precisamente a 10 de Junho de 1995, que, em Alvalade, ali para os lados dos Coruchéus, João Ribas, essa figura que, à data, já era lendária no panorama punk nacional, formou os Tara Perdida depois de ter deixado marca em projetos como Ku de Judas e Censurados.
O nome da banda, essa marca de identidade e de rebelião que qualquer punk português se associa, já estava reservado antes de qualquer formação ou ensaio. A ideia surgiu numa madrugada em que Ribas avistou um placar luminoso a dizer Tara e rapidamente juntou a palavra Perdida, cunhando assim o nome da banda.
Depois, foi numa fusão entre a experiência e a paixão jovial pelo punk que a primeira formação da banda surgiu. Ribas e o baixista Vitor Matos (Cró) juntaram-se assim a dois talentosos músicos da nova vaga punk de Alvalade, o guitarrista Rui Costa (Ruka) e o baterista Hélio Moreira (Oregos).
O resto é história! Nove álbuns de estúdio editados, alguns deles em editoras major, a partilha de palcos com nomes relevantes da cena internacional como The Offspring, NOFX, Pennywise e Ratos de Porão, várias formações e muitos hinos que hoje em dia ainda são entoados a plenos pulmões em qualquer concerto de norte a sul do país.
Sem grandes produções e fiéis à politica do DIY, aquilo que se viveu no espaço de Alvalade foi mesmo um convívio familiar multigeracional e um reencontro com algumas caras velhas.
Habituados a apresentarem-se como um quinteto ao longo de quase toda a sua carreira, os Tara Perdida apresentaram-se, no dia 20 de Junho, na República da Música, um dos espaços míticos da cena punk/hardcore de Alvalade, no seu mais recente formato de quarteto com Ruka na voz e guitarra, Tiago Silva (Ganso) na guitarra, Filipe Sousa no baixo e Pedro Rosário (Kistos) na bateria. Sem grandes produções e fiéis à politica do DIY, aquilo que se viveu no espaço de Alvalade foi mesmo um convívio familiar multigeracional e um reencontro com algumas caras velhas.
«Estamos a jogar em casa!», soltou Ruka mal entrou em palco. “O que é que eu Faço Aqui” de “Dono do Mundo” (2013), o último álbum gravado com Ribas marcou o pontapé de saída para um moshpit que se revelou constante ao longo de todo concerto, com exceção, naturalmente, de “Lisboa”.
Para uma sala pequenina, com poucos recursos sonoros e habituada a receber eventos de música pesada, temos a dizer que o som mostrou-se com uma definição soberba logo desde o primeiro minuto do concerto. Da voz aos leads, do kick e tarola aos graves do baixo, tudo soou de forma equilibrada e sem qualquer sobreposição prejudicial.
Com a velocidade inerente do punk surgiram “Um Dia De Cada Vez”, “Sentimento ingénuo”, “Realidade (Não sou de ninguém)” e “Acreditar (Força de libertação)”, estas últimas três todas retiradas dessa obra prima do punk português que é “Lambe-Botas” (2005). Mas, uma celebração pomposa de um aniversário tão marcante não poderia ir para a frente sem uma lista de convidados de luxo provenientes de bandas que, numa altura ou outra, se cruzaram com os Tara Perdida ou com Ribas noutros projetos. Desta forma, Samuel Palitos (baterista de GNR e ex-Censurados) e João Pedro Almendra (vocalista de João Pedro e Os Almendras e ex- Ku de Judas) despertaram o espirito punk da velha guarda em “Baril”, tema do álbum de estreia homónimo, editado em 1996. Almendra e Palitos entrosaram-se com a banda e trouxeram um pouco do espirito do Rock Rendez Vous para a República da Música.
Já “Vou P’Ra Longe” antecipou aquele que é sempre o momento mais cómico dos concertos de Tara Perdida. Ainda antes do concerto começar já o público entoava os versos «batata frita pala pala é uma tara de sabor». Desta forma, assim que chegou o momento Ruka teve apenas que pedir para que o pit abrisse um bocadinho, o resto ficou a cargo dos fãs. O momento repetiu-se três vezes, sempre com uma mudança mais.
É certo que com uma data redonda e com ainda mais convidados, os Tara Perdida poderiam ter pensado perfeitamente num voo maior em salas com outra capacidade. Mas não, preferiram tocar em casa, para cerca de 800 pessoas, porque afinal de contas é em casa que está o coração.
“Jogar de novo e arriscar” antecipou o terceiro convidado da noite, Ivo Palitos, dos Trevo, que subiu ao palco para interpretar um tema da fase pós-Ribas, já com Tiago Afonso nas vozes. Em “A História”, uma malha que puxa para o pop punk à la Green Day, Ivo agarrou-se ao microfone com unhas e dentes e colocou todo o seu coração à disposição da letra. Já “Fizeram-se Amigos” enalteceu o espírito de camaradagem que se vive no público em concertos de punk. Muita porrada, letras berradas, mas sempre com aquele respeito e companheirismo.
“Nada me vai parar”, a primeira música dos Tara Perdida com Ruka nas vozes principais, foi recebida inicialmente com estranheza, mas hoje já é abraçada ao vivo como um clássico desta terceira incursão, se assim podemos chamar, da banda. Ruka sente as letras dos Tara como ninguém e a decisão de chegar-se à frente como vocalista pareceu ser a mais acertada para os próximos capítulos da banda. Se esgota a sua energia mais rapidamente ao partilhar as duas funções? Sim, é verdade. Mas, estamos a falar de concertos de punk. Aqui ninguém vem para ouvir tudo perfeitinho. Afinal de contas, os pregos também fazem parte da filosofia punk.
Sem grande perfil para discursos, o vocalista dedicou-se mais a agradecer e a puxar pelo público, a enaltecer João Ribas e a brincar com Ganso, o seu parceiro de longa data. Por sua vez, Filipe e Pedro mostraram-se mais discretos, mas com uma performance exemplar, sem qualquer tipo de falhas a apontar.
Seguimos com mais uma arrancada na setlist, e mais um convidado. Desta vez, o ilustre foi António Côrte-Real, guitarrista dos UHF. Músico profundamente dotado no campo dos riffs e dos leads, Côrte-Real lançou-se a um solo pleno de feeling e trouxe uma postura mais hard rock ao punk dos Tara Perdida.
Entretanto, “Patricia (Melhores dias te esperam)” e “Quanto mais eu grito” fizeram a ponte para os últimos convidados da noite, e sem dúvida o mais sonante. Falamos de Tim, dos Xutos & Pontapés, que subiu ao palco com o seu filho Vicente Santos no teclado para interpretar a balada “Lisboa”, o dueto que gravou com os Tara para o álbum “Dono do Mundo”. A emoção transbordou pela sala com o público a entoar a letra de cor e salteado, e nem um pequeno lapso por parte do frontman dos Xutos manchou o momento de profunda comunhão.
A descarga energética alongava-se, mas ainda antes de se dar o encore houve tempo para a profética “Isto Não Vai Melhorar” e o hino “Desalinhado”. A acabadinha de sair do forno “Tudo ou Nada” foi o primeiro disparo após o regresso ao palco. Sem muito tempo para maturar nos ouvidos dos fãs, a banda ficou deveras surpreendida com o coro de vozes que se levantou no refrão. Por sua vez, se há música que Ruka nem sequer precisa de abrir a boca para cantar é “Nasci Hoje”. A malha de “É Assim” (2002) é sempre uma das mais celebradas no concertos de Tara Perdida, e na República da Música não foi exceção.
Com as pilhas quase a esgotarem-se, ainda houve tempo para mais uma voltinha no carrossel do moshpit com “Dono do Mundo” e “Bairro de Alvalade”, esta última, uma faixa cujo simbolismo é maior que qualquer outra na discografia da banda. Poder tocá-la no bairro que viu a banda nascer e crescer deve ser uma experiência transcendental, assim como para todos os fãs que têm acompanhado esta caminhada ao longo dos últimos trinta anos. É certo que com uma data redonda e com ainda mais convidados, os Tara Perdida poderiam ter pensado perfeitamente num voo maior em salas com outra capacidade. Mas não, preferiram tocar em casa, para cerca 800 pessoas, porque afinal de contas é em casa que está o coração.
Longa Vida aos Tara Perdida!
