A lusofonia atemporal de Alceu Valença

A lusofonia atemporal de Alceu Valença

2017-07-14, Time Out Estudio
Dewis Caldas
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Imaginem um grande muro de cimento chamado música brasileira, Alceu Valença é um dos tijolos importantes que reforçam esta estrutura. E sem nenhum medo de se reinventar, desempenha esse papel há quase 50 anos com ainda muito a dizer.

As pessoas se espantam quando digo que Alceu Valença tem dez concertos diferentes», disse o Alceu homem, sobre o Alceu artista, explicando no palco a sua inquietude mesmo depois dos 70 anos de vida. E continua: «É porque minha vida é tudo isso, uma hora eu sou forró, outra baião, aí vem xote, frevo, maracatu, samba meia bossa, depois sou carvanalesco, me adentro nas toadas de boi, tudo isso com blues usando guitarra, ou com orquestra, com trio, com banda de rock, e ainda mais…», dizia de jeito elétrico, com a beleza de quem fala sem pensar, para um Mercado da Ribeira lotado e animado não só de brasileiros, mas também de muitos portugueses.

Pelo menos quatro destes dez concertos foram apresentados em Portugal nos últimos três anos, evidenciando não só o carinho que Alceu usufrui nos corações lusos, como também reforça a intensidade desta relação de décadas em que o artista caminha por aqui, culminando nos quase dez anos que Alceu plantou morada na misteriosa zona em redor do Castelo de São Jorge. É lá que o poeta da música nordestina descansa e escreve sobre sua lusobrasilidade. «Eu estava vendo as ruas daqui de Lisboa, nessa atmosfera da chuva, e me veio esta canção», enquanto começa os versos de “Loa de Lisboa”: Chove chove chuva fria/Chove na Cidade Alta/Chove sobre a Mouraria/Chove na Cidade Baixa. Esta intrínseca relação com a cidade de Lisboa foi a grande questão levantada pela imprensa portuguesa na intensa “Semana Alceu” que tivemos ao vê-lo constantemente em programas de Tv, jornais impressos, rádios e pelas redes sociais.

É um concerto onde apresenta o Brasil profundo, baseado na musicalidade proveniente das áreas rurais da região Nordeste.

O concerto “Forró Lunar”, que é o nome destas duas apresentação de Alceu em Portugal (a segunda no Hard Club no Porto) revelam toda a pluralidade estética do qual Alceu amparou toda a sua discografia. É um concerto onde apresenta o Brasil profundo, baseado na musicalidade proveniente das áreas rurais da região Nordeste. «Canções inspiradas em cantos de trabalho, desenvolvidos nas antigas lavouras de algodão, sob influência árabe e mediterrânea, que marcam a música e a cultura da chamada civilização do couro», conta. Toda estas influências – juntando às referências portuguesas – somaram-se aos clássicos como “Vem Morena”, “Xote das Meninas”, “Olha pro Céu”, “Asa Branca”, “Sabiá, Juazeiro”, “O Canto da Ema” e ainda os grandes sucessos desta aventura musical que Alceu se lançou desde 1971 como “Coração Bobo”, “Táxi Lunar”, “Belle de Jour”, “Cabelo no Pente”, “Embolada do Tempo”, “Solidão”, “Anunciação” e “Tropicana”. O público não deixou passar uma música em branco, cantou e pulou todas elas. Uma noite com sotaque brasileiro e sabor português, linda de se viver em pleno coração de Lisboa.