Aerosmith, Os Sonhos Não Devem Acabar

Aerosmith, Os Sonhos Não Devem Acabar

2017-06-26, MEO Arena, Lisboa
Nero
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Os Bad Boys from Boston ofereceram um arrebatador adeus a Lisboa, provando porque receberam o título de “America’s Greatest Rock and Roll Band”.

Qualquer idiota tem opinião. E, por aqui, havia a opinião de que o concerto de Aerosmith iria ser um fiasco. Porque a relação da banda foi inúmeras vezes noticiada como, no mínimo, atribulada – o que uma digressão de despedida parecia confirmar. Porque a prestação de Joe Perry no concerto de Hollywood Vampires, no Rock In Rio 2016, foi anedótica. Por isto e por aquilo… Uma idiotice, porque o que sucedeu foi precisamente o oposto!

Quando entrámos na MEO Arena e nos deparámos com lotação quase esgotada, a fé no poder da pentatónica foi um pouco restaurada. O ligeiro atraso da banda foi atenuado pelo groove da playlist disparada da mesa, desde o groove soul de Sam & Dave, em “I Thank You”, ao swing rock n’ roll incomparável de AC/DC e de “Shot Down In Flames”. A majestosa “O Fortuna, Imperatrix Mundi”, de Carl Orff, fez apagar as luzes e revelar no ecrã gigante uma série de imagens de carreira dos Aerosmith, com o poema mais famoso do compêndio “Carmina Burana” a lembrar-nos que nada na vida pode ser um dado adquirido, que a roda volúvel muda constantemente as sortes. Então Joe Perry surge, de repente, no passadiço, com a sua Dan Armstrong Plexiglass, a guitarra Ampeg translúcida, com um slide enfiado no dedo a “partir” as primeiras notas de “Let Music Do The Talking”. Steven Tyler surge ao seu lado e o poder rock n’ roll de todas incidências quebrou-nos o resto da resistência…

A música ia falar bem alto durante duas horas de um grande, grande concerto.

Há cerca de um ano, conversámos com os responsáveis pela remodelação acústica da MEO Arena e o todas as promessas de melhorias na sala foram cumpridas neste concerto! Desde o primeiro momento, o som esteve explosivo, com um poderoso troar de baixo e bombo e a tarola de Joey Kramer a acompanhar a agressividade de execução de Joe Perry. Que guitarrista e que mudança de atitude para a actuação de há um ano atrás! Riffs, solos, um desfile impressionante de diferentes modelos de guitarras. Um trovão! Os Aerosmith estavam a partir tudo e ainda iam apenas em “Nine Lives”. E depois, se “Rag Doll” obteve umas entoações corais do público, “Livin’ On The Edge” rebentou a Arena, com toda a gente a cantar (prova de que, de facto, metade da população portuguesa comprou, à época, o álbum “Get A Grip”). A banda foi tirando o fôlego a toda a gente, com mega clássicos como “Love In An Elevator” e “Falling In Love (Is Hard On The Knees)” e com Joe Perry e Brad Whitford a atingirem níveis de interacção épicos. Como se tivessem estado a aquecer para o que viria a seguir…

Se toda a gente pensou que ia descansar um pouco quando Steven Tyler se retirou, oferecendo o protagonismo a Joe Perry, foi puro engano. O guitarrista, filho de um madeirense, recordou a sua ascendência portuguesa, «It’s good to be back to fatherland. My father’s land». Podia também estar a evocar a ascendência do rock n’ roll, porque as ganas blues com que a banda se dedicou ao par de versões de originais dos Fleetwood Mac (“Stop Messin’ Around” e “Oh Well”) foi o momento mais alto do concerto. Uma prestação irascível do quintento, que fez aqui prova de todos os predicados que fizeram alcunhar os Aerosmith como «the Bad Boys from Boston». Se todos comprámos “Get A Grip”, talvez valha a pena comprar “Honkin’ On Bobo”, o álbum de covers – que viriam ainda a surgir em grande estilo no concerto, através de “Come Together”, que todos sabiam ser dos Beatles, e “Mother Popcorn”, que poucos reconheceram como clássico de James Brown.

Talvez apenas as calças de Steven Tyler possam rivalizar com o luxuoso desfile de guitarras promovido por Joe Perry…

O que toda, mas toda a gente cantou em extâse (e, tratando-se dos Aerosmith, esperava-se que assim sucedesse) foram as baladas “I Don’t Wanna Miss A Thing” e “Cryin’”, curiosamente, “Dream On”, o hino dos Aerosmith, foi menos aclamado. Para que não pensem que estamos a tentar mandar aquele ar de durões do rock, a verdade é que, se uma rifalhada como “Eat The Rich” ou o funk de “Dude (Looks Like A Lady)” nos encheram mais as medidas, sentimos falta de outras baladinhas, como a acústica “Crazy” ou a épica “Amazing”.

À banda é que não se podia pedir mais nada. Vieram despedir-se de Lisboa, que haviam visitado apenas um par de vezes (em 1994, na Praça de Touros de Cascais, e em 1999, no Jamor), e deram um concerto de rock n’ roll irrepreensível, que passa a concorrer directamente ao título de melhor do ano!

SETLIST

  • Let the Music Do the Talking
    Nine Lives
    Rag Doll
    Livin’ on the Edge
    Love in an Elevator
    Falling in Love (Is Hard on the Knees)
    Stop Messin’ Around
    Oh Well
    Hangman Jury
    Seasons of Wither
    Sweet Emotion
    Boogie Man
    I Don’t Want to Miss a Thing
    Come Together
    Eat the Rich
    Cryin’
    Dude (Looks Like a Lady)
    Dream On
    Mother Popcorn
    Walk This Way