Agora já todos gostam dos Parkinsons!

Agora já todos gostam dos Parkinsons!

2016-02-05, Sabotage Club
Tiago da Bernarda
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Os gigantes do punk regressaram ao Sabotage Club, desta vez para uma enchente que rompia com as costuras da sala lisboeta.

Os bilhetes foram postos à venda com uma semana de antecedência. Mesmo assim, quando chegou o grande dia, 5 de feveiro, já o Sabotage tinha anunciado que o concerto estava esgotado. «Esperámos pela sua chamada a semana toda. Agora já não dá», respondia o Carlos, dono do espaço, às várias chamadas que recebeu ainda durante o soundcheck, poucas horas antes do concerto começar. A verdade é que os Parkinsons, com quinze anos de carreira, entraram no novo ano com um buzz, um certo burburinho, parte devido ao documentário “A Long Way To Nowhere” que recolhe gravações dos seus primeiros gigs em Camden até aos dias de hoje.

Não que tenham sido necessários quinze anos para terem o seu devido reconhecimento no panorama português, mas é possível que se não fosse pela recente atenção mediática, os Parkinsons não teriam esta multidão em Lisboa aguardando a sua vinda. «Que hajam mais concertos esgotados dos Parkinsons em Lisboa», brindou Ricardo, dos The Dirty Coal Train, banda que há já algum tempo acompanha esta malta de Coimbra em palco.

(…) os balbuceios meio rockabilly, meio Biafra não enganam ninguém

Formados pelo front couple, Ricardo e Beatriz, e Kaló (Bunnyranch, Tédio Boys) a acompanhar na percussão, coube ao trio guitarra, guitarra, bateria abrir a noite. Mal o concerto começou, já o público rompia com as costuras da sala lisboeta. Foram muitos os que assistiram ao espectáculo na escadaria junto à porta da entrada, mas isso não pareceu incomodá-los. Os The Dirty Coal Train sabem como aquecer todos os cantos daquela sala. Aliás, já o fizeram em várias ocasiões. E fazem-no bem. Juntos portam maneirismos de voz com um jeito new wave. Mas os balbuceios meio rockabilly, meio Biafra não enganam ninguém. São aficionados fervorosos do psychobilly, do rock n’roll, do punk e não têm receio em demonstrá-lo.

Foi uma tarefa difícil trazer os Parkinsons ao palco. A afluência era de tal forma que demorou uns minutos para que conseguissem chegar aos seus respectivos instrumentos. Neste caso, Afonso no microfone, Victor Torpedo na guitarra, Pedro Chau no baixo, e a nova revelação na formação da banda, Paula Nozzari na bateria.

Começaram com “Bad Girl”. O Afonso enrola o cabo do microfone bem apertado ao braço e ao pescoço, em sinal de preparação, e poucos segundos depois já ninguém os paravam. Sim, são os The Damned, os Clash, os Stooges, os Sex Pistols. Mas é incrível como ainda hoje, tudo soa como se estivessem a tocar pela primeira vez. Apenas com uma ligeira diferença. Tinham uma legião de fãs acampados nas primeiras filas, prontos para cantar com eles e dar um pouco de carinho bem merecido. O segredo está na entrega dos Parkinsons. Aquela entrega que as bandas de Coimbra já nos acostumaram e que ajudaram a fomentar o seu legado. Talvez um pouco mais vestidos do que no início dos anos 00, mas ainda hoje não existe ninguém em Portugal que saiba incitar uma multidão tão facilmente como eles. O à vontade em palco é muito, mas o à vontade a nadar por cima dos fãs é maior.

Fuck disco!

Não tivesse visto eu com os meus próprios olhos, não teria acreditado que o Afonso, a certa altura, encontrava-se de pernas para o ar com a sola dos sapatos bem assentes no tecto. Prendia-se às condutas de ar, pontapeava a bola de espelhos («Fuck disco!», gritava ele) e quando chegava finalmente ao palco pedia mais cerveja ao Carlos. «Carlos, mais cerveja! Mais cerveja! CER-VEJA!», gritava do palco. Cinco minutos depois, já se via, lá do fundo, a aventureira que tinha de levar três cervejas na mão do balcão para o palco. Ninguém a deixava passar. É natural. O público, agora em cima do palco com a banda, estava determinado a não deixar ninguém sair dali.

Repetiram a “New Wave” e a “Bad Girl”, quase imóveis, e desapareceram. Gradualmente, o resto começou a dissipar-se também. Falei com o Carlos no dia seguinte. Encolheu os ombros meio incrédulo e disse apenas, «Foi incrível». Sim, foi. Mas sendo já uma presença habitual no Sabotage, sabe-se que aquilo foi uma sexta-feira habitual para os Parkinsons. Resta apenas desejar boa sorte à pessoa que tiver de limpar as pegadas do tecto.

Fotos: Vera Marmelo. Podes ver mais fotos dos concertos aqui.