Há concertos tão bons que nos atingem como sendo, de certa forma, quase consensuais na sua beleza – a qualidade do espetáculo e destreza dos músicos são tão evidentes que o conhecimento prévio do repertório torna-se um fator supérfluo na apreciação da performance.
O retorno de Avey Tare e Panda Bear, os mais essenciais dos Animal Collective, aos palcos portugueses para apresentar “Sung Tongs” não foi um desses concertos, ainda que se possa dizer que se fez especial pelos seus próprios termos.
É uma caracterização que se pode aplicar, grosso modo, a toda a discografia de Animal Collective (o eterno “ou se ama, ou se odeia”), mas que se fez sentir de forma especialmente vívida no Capitólio, principalmente tendo em conta o modo como a banda transformou um dos seus álbuns mais acessíveis numa das mais peculiares experiências ao vivo a passar pela capital nos últimos tempos. Não só pelo intrínseco experimentalismo da estrutura das suas canções, quase sempre desprovidas de refrões discerníveis e frequentemente baseadas em repetições de dois acordes, mas também porque conseguiram tornar o som de apenas duas guitarras acústicas em algo legitimamente estranho – e isso é de se louvar, considere-se o resultado aprazível ou não.
É por isso que simplesmente dizer que a apresentação de “Sung Tongs” em Lisboa foi boa ou má não leva em conta uma série de particularidades que, em boa verdade, poucos para além dos mais dedicados fãs do ethos de Animal Collective estarão equipados a apreciar. A esses, que estiveram e poderão atestá-lo, não faltaram motivos para sair de lá mais que satisfeitos com o resultado, mesmo que dos despreparados não se possa dizer o mesmo com total franqueza. De subjectividades se faz a música, afinal, e a mais sincera apreciação que se poderia fazer deste concerto é a de que, através de canções como “Who Could Win” a “Rabbit?”, “Winters Love” ou “We Tigers”, Panda Bear e Avey Tare capitalizaram a deles com perícia inegável.
