Aposta ganha, Jameson Urban Routes!

Aposta ganha, Jameson Urban Routes!

Pedro Miranda

Numa cidade de movimentação tão efusiva e tempo de atenção tão acelerado quanto Lisboa, é digno verificar o quão solidamente tem sido estabelecida a reputação do Jameson Urban Routes, presença constante na leva de Inverno de festivais de música da capital.

Isto porque é raro que um festival de tão pequena dimensão abarque tão sonantes e capazes nomes da música nacional e internacional, e o JUR habituou-nos à grandeza tanto em atos de porte quanto em grupos de destaque do panorama alternativo/underground.

A Arte Sonora presenciou alguns dos concertos que passaram pelo festival, nos quais pelo menos um exemplo de cada uma das categorias acima mencionadas sagrou-se dono das luzes da ribalta do Musicbox, a já tradicional casa do JUR. No primeiro, a quase inacreditável presença de Havoc, uma metade dos celebradíssimos Mobb Deep, exemplo de excelência da cena boom-bap da Costa Leste Americana da década de 90. No dia seguinte, a respeitada fusão jazz/stoner entre o trio português Black Bombaim e o saxofonista americano Peter Brötzmann, outro dos mais exclusivos nomes do cartaz, ainda que menos conhecido e numa vertente completamente distinta.

O resultado foi a confirmação de que o Jameson Urban Routes se mantém atualizado às tendências da procura do mercado, confiante quanto à sua estrutura, pertinente pela descoberta musical que proporciona e,pelo menos em parte, rigoroso quanto à capacidade dos atos convidados. Havoc, um dos indiscutíveis ídolos do hip-hop nova iorquino, foi extensivamente adulado pelo público afeto ao género, que vibrou tanto com a sua performance abrasiva e em grande medida tão nua e crua quanto este estilo clássico pode proporcionar quanto com a abertura que se lhe antecedeu, que deixou a pista de dança à mercê de singles de nomes como Tupac, Wu-Tang Clan, Nas, Snoop Dogg, Dr. Dre ou The Notorious B.I.G.

Embora de índole diferente, foi com o mesmo apreço que, a 25, a plateia do Musicbox não deixou passar ao lado a presença de Peter Brötzmann, que goza de estrelato no panorama internacional de jazz de improvisação, ao lado de uma formação lusa que, primando por sonoridades mais pesadas e que raramente se associam ao advento do saxofone, está habituada a conduzir grooves e manejar a intensidade orquestrativa com uma desenvoltura que muito contribuiu para potenciar os devaneios exploratórios do instrumento em palco. Uma combinação que, depois de produzir o aclamado “Black Bombaim & Peter Brotzmann” em 2016, não se reúne para efeitos de espetáculo muitas vezes, o que só incrementou o valor da performance num espaço de tanta proximidade quanto é o do Musicbox.

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Guarnecido pelo privilégio da sua localização e a crescente reputação do seu espaço, o JUR prosseguiu com mais artistas de valor, tanto de índole nacional como internacional (o dia 27 viu o punk pop descomprometido dos americanos Black Lips, que levou o público à loucura e uma das bandas mais interessantes no panorama do rock feito em terras lusas, os Stone Dead , enquanto 28 trouxe a estrela em ascensão leiriense Surma à capital).

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E ainda que a consistência do cartaz, preço dos bilhetes ou logística geral do evento seja sempre passível de melhoria, a elevada afluência e visível satisfação do público teima em mostrar que o Jameson Urban Routes impôs-se como uma espécie de referência-urbana-fora-de-época, com alguma da imponência de um evento de grande porte, sem a habitual fadiga que se lhe acompanha e, por isso mesmo, vindo para ficar.

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