Baroness, Das Tripas Coração

Baroness, Das Tripas Coração

2018-06-27, LAV - Lisboa ao Vivo
Nero
Joana Cardoso
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Súbita e temporariamente privados do seu baterista, os Baroness foram capazes de oferecer uma experiência singular aos fãs portugueses.

Na recente entrevista que John Baizley deu à AS, o músico afirmava que a sua experiência nesta indústria [da música] dizia-lhe que a mesma «só é viável quando múltiplos paradoxos se alinham simultaneamente… Caso contrário o que é que eu faço? Faço muito barulho e estou a entreter pessoas? Isso não é interessante para mim. É muito mais estimulante, em determinadas coisas, não fazer ideia do que vai acontecer e poder descobrir coisas através da nossa música, partilhando depois alguma dessa surpresa e epifanias que transporto comigo. Através de uma rotina bem ensaiada, não consigo transpor-me para um concerto ou um álbum. Tenho que estar no fio da navalha. Isso torna-se excitante».

Na altura, o músico não imaginava ainda que uma emergência familiar iria obrigar Sebastian Thomson, baterista dos Baroness, a deslocar-se aos Estados Unidos. Mas serve essa evocação para perceber que, se muitas bandas hesitariam em manter as datas, os Baroness possuem esse arrojo bastante particular, princípio do seu mentor, e que em vez de castigar os fãs, a banda procurou fazer das tripas coração e oferecer-lhes uma experiência singular.

A apreciação do concerto torna-se também bastante condicionada. Porque não se pode também castigar a banda por ter tido uma atitude extremamente louvável. Mas, claro que três ou quatro dias de ensaios é manifestamente pouco para criar algo compósito. Tudo o que faltava aos temas, não tinha forma de estar lá. Apesar de a banda ter, notoriamente, trabalhado mais o set que apresentou em relação, por exemplo, ao que fez no Hellfest. Os Baroness jogaram, naturalmente, pelo seguro. Isso implicou, desde logo, uma maior preponderância de canções de “Green & Yellow”, o terceiro e, talvez, mais contemplativo álbum da banda, e também de forma natural, pela sua estrutura nuclear, foram esses os temas que resultaram melhor.

O empenho de Baizley e Gleason nas prestações vocais, a emotividade e harmonia que criaram em conjunto foi um dos aspectos que mais sobressaiu no concerto.

Mas se por um lado o trio (com John Baizley e Gina Gleason nas guitarras e Nick Jost nas teclas) minimizou os riscos, para evitar danos, o que se notou claramente no dinamismo do concerto, por outro foi capaz de colocar todo o seu coração neste set que, de uma maneira ou outra, será histórico e aconteceu em Lisboa.

Baizley, muitas vezes propenso a algum descontrolo vocal nas suas prestações ao vivo, empenhou-se consideravelmente em fazer transparecer emoção e calor à sua voz, sem desafinações que, num corpo sonoro tão despedido seria demasiado danoso. E nesse aspecto foi secundado de forma sublime pelas harmonizações vocais de Gleason. “Eula” terá sido o momento alto de uma noite em que o público acarinhou a banda desde o primeiro momento, arriscando vários coros com as vigorosas melodias da banda.

Sem dúvida que esta noite poderá tornar-se catalisadora de algo mais. E se não foi tudo o que poderá vir a ser, certamente foi muito mais do que se poderia esperar à partida.

SETLIST

  • Foolsong
    March to the Sea
    Green Theme
    Cocainium
    Little Things
    If I Have to Wake Up (Would You Stop the Rain?)
    Fugue
    Chlorine & Wine
    Board Up the House
    Eula
    Shock Me