Bracara Extreme Fest: Dia 02

2011-12-10, Braga
Nero

O segundo dia de festival trouxe uma maior afluência de público – quiçá resultado do entusiasmo que os Enslaved têm conseguido criar em torno da sua música – e a mesma intensidade de concertos, e se o doom metal gerou a maior desilusão da noite, também foi responsável pelos momentos maiores.

Os espanhóis Adrift mostraram poder, criatividade e groove. O guitarrista/vocalista Jorge destacou-se no uso de slide – que permitia uma certa expansividade à parede de riffs da banda. Há momentos em que esse extravasar de fronteiras sónicas faz as composições da banda perder foco, mas a verdade é que desde que a cena doom/sludge “explodiu” no país vizinho a quantidade de projectos com interesse tem sido grande.

Uma das surpresas do festival foi a ferocidade e qualidade técnica do som dos canadianos Archspire, principalmente dos dois guitarristas (Tobi Morelli e Dean Lamb) que brilharam em rapidez, coordenação – brilhante nos momentos de arpeggios harmonizados ou apenas dobrados – e sentido melódico. Tiveram a oportunidade de mostrar a quase totalidade do seu único álbum, “All Shall Align”, lançado este ano, que não é um colosso do death metal técnico, mas que não envergonharia o género ou Chuck Shuldiner [hoje completa-se uma década desde que o mentor dos Death faleceu].

Antes da decepção, um dos grandes momentos da noite e do festival. A actuação dos nacionais Process Of Guilt foi uma devastação sónica – entre o revisitar de “Erosion” e do álbum que está para ser editado a banda deu-nos “porrada”. Curioso não ter sido o concerto mais certinho da banda que já tive a oportunidade de ver, mas certamente o mais rock. Os temas novos mostram uma banda também com esse sentido mais desenvolvido, com as estruturas mais abertas, quer instrumentais (a bateria de Gonçalo com maior swing ou os apontamentos de guitarra de Nuno mais apontados à pentatónica), quer mesmo vocalmente (os vocalizos de Hugo mantêm o poder intocado, mas começam a crescer para fora do simplismo do death grunt). Os PoG são, neste momento, uma das melhores bandas nacionais em palco, os álbuns indiciam crescimento e desenvolvimento estético e musical, no fundo, o futuro destes alentejanos ébrios augura-se ainda melhor.

Cyanide Serenity e Fleshgod Apocalypse foram aquele tipo de concerto não aquece nem arrefece, mas a grande desilusão da noite foi mesmo a actuação completamente descaracterizada dos Mar De Grises, se a sonoridade está algo datada, mas pode fazer levantar a subjectividade do gosto pessoal, a prestação desgarrada da banda, sem postura nem concentração, foi um dos piores momentos do festival.

 

Felizmente viria surgir a procissão fúnebre que os Skepticism celebraram. Os filandeses quebraram barreiras: não deram um concerto, mas uma sinfonia macabra a conduzir-nos para a experiência do desespero, do fim. Com um som cru e vazio do corpo de produção que o último álbum, para desagrado de alguns, apresenta – os temas de “Alloy”, como “The Arrival” ou “The Curtain” tornaram-se odes sufocantes, cuja opressão (vinda sobretudo do registo colossal do vocalista Matti) só era levemente levantada pelos órgãos de Eero Pöyry.

 

A “frota de corvos” finlandesa trouxe o termo Extreme ao Bracara Fest. Terá sido das bandas que teve menos público atento à sua actuação, todavia completou com Napalm Death e Process Of Guilt a tríade dos melhores concertos do festival.

A partir da profundidade que os Skepticism deixaram no palco tudo o que restava seria redundante.

Aborted, Enslaved e Decapitated deram concertos competentes, mas sem atingir o extraordinário.

A maioria do público deslocou-se ao BEF para ver Enslaved (que tornarão a estar no nosso país no próximo ano), mas o som da banda parece caminhar num rumo de esterilidade estética que, ao mesmo tempo que os músicos ganham mais confiança em palco e desenvolvem mais a postura, tem vindo a remover personalidade à banda (curiosamente tem trazido mais fãs), além disso a cover de “Immigrant Song” roçou a heresia…