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Carlos Do Carmo & Bernardo Sassetti

Carlos do Carmo & Bernardo Sassetti

Universal Music, 2010-11-15

Nero

O disco assombroso que surgiu duma colaboração espontânea entre dois gigantes da música portuguesa.

Este é um álbum sem segredos, pelo menos no que respeita à voz [que surge pura, sem trapézios, com um processamento quase nulo] de Carlos Do Carmo. Mas que comportava um desafio, pois enfrentava o perigo de alguma monotonia. E se esse desafio é superado com distinção e classe, deve-se à prestação soberba e pujante de Bernardo Sassetti: o pianista nunca se coloca acima da voz, sabe dar-lhe espaço e respiração dinâmica e depois nos momentos em que assume maior força harmónica é brilhante, exemplar.

Depois, ambos os músicos entregam-se nas mãos do colega, acolhendo-o em troca. Sassetti acolhe um sentido popular, sem deixar de ser exuberante e Carlos Do Carmo recebe do pianista uma nova aventura, que abraça como um jovem, mantendo toda a sua sofisticação. Os takes, segundo confissão posterior dos músicos, foram directos e quase todos gravados “à primeira”, sem subterfúgios, o que se nota em algumas imperfeições e na extraordinária ferocidade e enorme sentimento.

Quase como punks janotas, a fazerem música por puro gozo de o fazer juntos. É um diálogo, que chega a ser comovente, de admiração mútua este disco, e também de admiração aos grandes autores da música portuguesa. Essas versões parecem mais apaixonadas, mais fogosas. As de Jacques Brel, “Quand On N’a Que L’Amour”, Léo Ferré, “Avec Le Temps”, e Violeta Parra, “Gracias La Vida”, são emotivamente mais distantes, mas talvez isso seja uma resposta também de amantes do nosso cancioneiro.

Um trabalho de espírito boémio que, paradoxalmente, evoca um renascimento da música portuguesa num sentido erudito, mantendo a sensibilidade mais importante de todas: a proximidade com o público.