Chico Buarque e um Coliseu com cheirinho a alecrim

Chico Buarque e um Coliseu com cheirinho a alecrim

2018-06-09, Coliseu dos Recreios, Lisboa
Dewis Caldas
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Enquanto estou no saguão principal do Coliseu para assistir um concerto de um artista brasileiro, minha primeira dúvida é se há mais brasileiros ou portugueses na grande fila de entrada.

Esta questão é importante. É neste momento que descobrimos duas particularidades sobre o artista que vai se apresentar: Se há mais portugueses, quer dizer que o artista é muito mais que o músico brasileiro, é um estandarte da lusofonia, daqueles que tem uma obra que deixou de ser apenas em função da brasilidade, mas é sobretudo dedicada ao idioma português e aos fonemas lusófonos. Se há mais brasileiros, é porque o artista sobreviveu ao tempo e consegue representar o Brasil no tempo de hoje e no imaginário coletivo dos brazucas que vivem aqui. E ontem, a presença de Francisco Buarque de Hollanda no palco provou estas duas singularidades.

Quando as cortinas abriram, os aplausos, as batidas de pé e os gritos foram estrondosos. No meio das fortes ondas sonoras, surge um senhor de 73 anos, andando devagar, rindo sem muito alarde, cumprimenta o público de forma calma, parece que está na sala de casa e antes mesmo do primeiro ”boa noite” já começa os versos “Minha Embaixada chegou / Meu povo deixou passar / Ela agradece a licença / Que o povo lhe deu para desacatar.” Era a caravana se instalando bem ali, na frente de todos. A canção, escrita por Assis Valente e cantada com grande sucesso pela luso-brasileira Carmen Miranda não foi colocada ali por ser óbvia, mas serviu como um prenúncio de um concerto a partir de uma carreira que se debruçou entre fados, sambas e fonemas comuns e vulgares do Br’asile e de Purtugali.

O público, como era de se esperar, não se controlava na cadeira e começou a gritar alto antes mesmo do Chico entrar, no momento que o locutor apresentou a ficha técnica do espetáculo. A cada músico que era pronunciado ouvia-se os gritos da torcida. Como estamos a uma semana do Mundial de Futebol, desporto que Chico adora desde sempre, a leitura da apresentação da equipa de músicos mais pareceu a apresentação da equipa principal no estádio em dia de grande final. Isso tudo era Chico Buarque e sua íntima relação com o povo português, que remota antes mesmo do 25 de Abril. A própria revolução dos cravos, vivida por Chico, também foi cantada e lembrada durante todo o tempo, o público suspirava.

As canções de Chico pertencem à memória colectiva do idioma português, isso explica facilmente porque, em 2018, o músico carioca tenha lotado seis coliseus (duas noites do Porto, e quatro em Lisboa).

As canções de Chico pertencem à memória colectiva do idioma português, isso explica facilmente porque, em 2018, o músico carioca tenha lotado seis coliseus (duas noites do Porto, e quatro em Lisboa). Mas é preciso lembrar que isso não é de hoje. Há doze anos, em 2006, quando veio pela última vez tocar e cantar por aqui, apresentando o até então recém lançado disco “Carioca”, Chico lotou nove vezes o Coliseu (três concertos no Porto, uma apresentação no Casino de Espinhos e nada mais do que seis concertos em Lisboa). Isso é um feito que não é para qualquer Chico.

Além dos grandes músicos que pertencem a banda, Chico ainda trouxe muito mais Brasil nas suas bagagens, trouxe Tom Jobim, Vinicius, Edu Lobo e ainda homenageou o grande sambista Wilson das Neves, um grande companheiro de Chico, ”nas estradas, nos camarins, na vida, nos bares, na alegria…” como ele mesmo disse ao lembrar do velho amigo. Das Neves faleceu ano passado. Ao final, depois de sucessivos clássicos da sua obra, Chico ainda deu seu beijo de boa noite com uma das canções que representam bem suas ”coisas portuguesas”. Entoou aos quatro ventos “Tanto Mar”, feita sobre o 25 de abril e censurada pelo governo brasileiro em 1975. O público não conseguia sair do Coliseu. Era o cheirinho de alecrim que ninguém queria deixar de sentir.

No palco, junto com Chico, compondo a caravana estavam o maestro e arranjador Luiz Cláudio Ramos (violão), João Rebouças (piano), Bia Paes Leme (voz e teclados), Chico Batera (percussão), Jorge Helder (contrabaixo), Marcelo Bernardes (sopros) e Jurim Moreira (bateria).