Converge, da beleza e da violência

Converge, da beleza e da violência

2014-08-01, Viveiro, Galiza
Nero
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O triunfo de uma banda num ritual feito de uma convergência de dicotomias como violência/beleza, amor/ódio, racionalidade/instintos.

O culto em torno dos Converge “obrigou” a procurar filmes de concertos da banda. Desde as primeiras imagens efervescentes de palco a devoção a esse culto foi quase imediata. O concerto no Resurrection deixou bastante claro que essas filmagens não fazem a mínima justiça à descarga que é um concerto do quarteto, oriundo do local do mais famoso processo de “bruxaria” dos Estados Unidos.

Em Salem foram executadas por fogo uma mão cheia de Jane Does, porém, o espírito de vingança dessas mulheres vive nos Converge. A entrega incondicional de Jacob Bannon aos temas, ao concerto, é um furacão de energia tão electrificante quanto as guitarras de Kurt Ballou que, tema após tema, riff após riff, fomenta um instinto básico em cada ser humano, a paixão. Sentir com fúria e raiva, amar e odiar. “Aimless Arrow” remete-nos para esses sentimentos, para o sentido trágico de que “All We Love We Leave Behind”. Uma banda de hardcore capaz de transpor para o coração a fúria eléctrica do seu som, os Converge deram um concerto poético, épico. A tradução musical que a banda faz de emoções tão cruas é algo de predestinados. Num concerto como o do Resurrection percebe-se facilmente porque estamos diante daquela que será, porventura, a banda mais importante do género desde os Black Flag.

Capazes de transpor para o coração a fúria eléctrica do seu som, os Converge deram um concerto poético, épico.

Ballou sozinho na guitarra, com o apoio firme do baixo tão pesado como metronómico de Nate Newton, faz o que muitas parelhas não sonham fazer. Pensar que há fanáticos de guitarra que se remetem a Satrianis e Vais e olham de lado lobos famintos como Ballou é revoltante. Se as linhas complexas que Kurt Ballou desenvolve, em torno do trabalho polirritmico de Ben Koller, não fazem dele um dos melhores guitarristas do mundo, então que sejamos castigados com o fim da guitarra eléctrica e a ascensão definitiva dos DJ…

Seria de pensar que um tema mais lento, como “Grim Heart/Black Rose”, permitisse ao público em frente ao Ritual Stage respirar, mas o fanatismo que alastrou por todo o espaço impediu qualquer complacência, ou isso ou as sessões de porrada de temas como “Reap What You Sow” ou Concubine”. Durante uma hora viu-se o triunfo de uma banda mesmo sobre problemas mundanos como mau som de bateria, perda do sinal de voz ou baixo, num ritual feito de uma convergência de dicotomias como violência/beleza, amor/ódio, racionalidade/instintos. O volume foi aquilo que deviam ser todos os concertos de rock, demente!

SETLIST

  • Eagles Become Vultures
    Aimless Arrow
    Dark Horse
    Empty on the Inside
    Trespasses
    All We Love We Leave Behind
    Runaway
    Grim Heart/Black Rose
    Reap What You Sow
    Cutter
    Glacial Pace
    Concubine
    Fault and Fracture
    Last Light