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Crystal Castles

III

Polydor | Universal Music, 2012-11-07

Hugo Tomé

Há projectos que só pelo nome já são susceptíveis de desvelo e, se a isso, se juntar uma imagem marcante como a galardoada fotografia de Samuel Aranda durante os conflitos da Primavera Árabe impressa na capa do terceiro disco dos Crystal Castles, maior o fascínio se faz representar.

Recordando Miguel Esteves Cardoso, há discos que se podem explicar apenas pela sua apresentação. Naturalmente, este será um exercício arriscado, com um grau de dificuldade elevado e, propício ao tiro sair pela culatra. Contudo, pese embora o perigo eminente, uma imagem vale mais que mil palavras e III pode muito bem ser um disco assim.

Sobre o peso emocional que carrega um filho (Zayed) vítima de uma bomba de gás lacrimogéneo, nos braços de uma mãe (Fátima Al-Qaws), propaga a enigmática atmosfera que conjuga o “Locus Horrendos” de quem vê beleza no horrível. Ethan Kath projecta batidas esquizofrénicas (“Plague” e “Insulin”), linhas de baixo arrebatadoras (“Kerosine” e “Telepath”), e partículas electrónicas sensoriais (“Pale Flesh” e “Violent Youth”). Alice Glass projecta guinchos paranormais (“Wrath of God”), ecos assombrados (“Transgender”) e pureza cristalina (“Affection” e “Child I Will Hurt You”). E, o universo digital dos Crystal Castles em III soa sinistro, desconcertante e urgente.

Como o duo canadiano se quer, sombrio. Horrível, mas belo. Perturbador, mas ténue. Com a marca da Electrónica que vai para além da instintiva reacção motora, a dança, e entranha-se na introspecção de música que vale mais que mil palavras. III podia-se explicar apenas pela sua apresentação, podia, mas não era a mesma coisa.