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Dead Can Dance, A Celebração

Dead Can Dance, A Celebração

2019-05-24, Aula Magna, Cidade Universitária
Nero
Inês Barrau
9
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Lisa Gerrard e Brendan Perry celebraram a carreira singular dos Dead Can Dance num grande concerto na Aula Magna.

A força de um ritual reside muito na sua preparação e no impacto sobre os fiés. Os Dead Can Dance (DCD) seguiram, sem mudar uma  única nota, a setlist que vem sido apresentada nas principais cidades europeias – afinal o mote da digressão é “A Celebration – Life & Works 1980-2019”. Enorme gáudio de quem pretendia a experiência de uma paisagem alargada à discografia da banda, cruzando as suas duas faces da banda (o gótico e o pós punk dum lado, a itinerância polirrítmica geográfica do outro), mas que acabou por proporcionar uma experiência mais fria a quem prefere, particularmente, os últimos três trabalhos: “Spiritchaser”, “Anastasis” e “Dionysus”.

Logo no arranque, com “Anywhere Out Of the World”, do histórico álbum “Within The Realm Of A Dying Sun”, o som surgiu com tremenda densidade e com um enorme recorte no baixo, ligado a um Markbass Micromark (por sua vez ligado a uma Ampeg). Se permitem a derivação, este é um amp capaz de um som bem espesso, por culpa dos 50 watts a 8 ohms ou 60 watts a 4 ohms debitados através de um altifalante de 8”. Por isso, está nas escolhas de amps de baixo portáteis que apresentamos na AS #61. Vê-lo no palco dos DCD fez-nos sentir, de alguma forma, legitimados.

Com esta parede impenetrável de graves, sobrecarregada com as sintetizações e com um recurso recorrente a samples, o instrumento de eleição de Lisa Gerrad,  o exótico yangqin, um instrumento de pouca projecção acústica, teve um papel (pelo menos de onde assistimos) quase figurativo. Para encerrar a obsessão com os instrumentos, Brendan Perry alternou o recurso à bouzoki com uma Fender 1950s Thinline Telecaster Relic Lime Green, um modelo Custom Shop, muito pouco comum e com um som cativante de médios, sempre sobrecarregado por uma panóplia de pedais.

Acerca das vozes de Lisa e Brendan, é sinceramente escusado procurar adjectivar a sua excelência. Na Aula Magna, através da voz de Lisa Gerrard, relembramos o som com que cada um de nós ouve a voz da sua mãe no coração. O poder, calor e ressonância que transmutamos dentro de nós. Isso acaba por ofuscar o trabalho de Brendan Perry, cujo timbre, naturalidade, suavidade e segurança das notas são simplesmente exemplares. Mas mesmo sendo um grande cantor, tal como sucede com os restantes elementos da banda, a sua função foi a servir uma força divina como aquela que se percebe na voz de Lisa. Todavia, isso não invalida que a outra metade dos DCD não tenha também deslumbrado, porque o fez, especialmente na rendição de “Song Of The Siren” e em “Severance”, como já é habitual.

Todo o poder emocional reunido no concerto foi apenas um leve sopro, comparado com o calor uterino que Lisa nos faz sentir na eufónica ária “Sanvean”. Com o passar dos anos, a voz de Lisa soa menos fogosa e mais maternal. Menos apaixonada e mais consoladora. Foi o coração do concerto. Foi assombroso.

“In Power We Entrust The Love Advocated” introduziu uma sequência de luxo no concerto. O sentido orgânico foi crescendo, com a bateria e percussões a ganharem cada vez mais destaque. Assim surgiu uma interpretação extraordinária de “Bylar”, a raridade composta por Lisa e por Robert Perry, o irmão de Brendan. E depois de “Xavier” viria o assombro…

Apenas introduzida por um tin whistle, Lisa cantou acapella a tradicional  balada irlandesa “The Wind That Shakes The Barley”, pungente poema de Robert Dwyer Joyce em homenagem aos combatentes da rebelião irlandesa contra o jugo da coroa britânica em 1798. Todo o poder emocional aí reunido foi apenas um leve sopro, comparado com o calor uterino que Lisa nos faz sentir na eufónica ária “Sanvean”. Com o passar dos anos, a voz de Lisa soa menos fogosa e mais maternal. Menos apaixonada e mais consoladora. Foi o coração do concerto. Foi, repita-se, assombroso.

Logo de seguida, “Indoctrination” soou bastante empalidecida. Mas talvez o intuito tenha sido precisamente, escoar o êxtase e criar uma nova sequência emocional. Algo conseguido com a vibrante, ascensional e polirrítmica “Yulunga”, outro dos momentos altos do concerto, e a interpretação de “The Carnival Is Over”, com Brendan Perry bem colado à elegância de Charles Aznavour. “The Host Of Seraphim” iria proporcionar outro pico de intensidade. Nota para as projecções, numa iluminação até aqui tão insípida, cujos focos de intensidade simples criaram a ilusão de corpos celestes a pairar sobre a banda.

“Amnesia” e “Dance Of The Bacchantes” foram os únicos ecos dos dois álbuns mais recentes. Os temas foram intercalados por “Autumn”, uma cover dos icógnitos Deleyaman, cuja versão original conta com a colaboração de Brendan Perry. Não deixou de ser frustante, se pensarmos na escolha deste tema em detrimento de monumentos como “Saltarello”, “The Song Of Sybil”, “Rakim” ou “Nierika”. Ainda que seja agradável ouvir Lisa cantar de forma mais casual. Caramba, haverá alguma forma que não seja agradável ouvi-la cantar?

Os encores trouxeram “Song Of The Siren”, e a única vez em que percebemos distintamente uma nota desafinada a Brendan, e outro dos momentos mais memoráveis da noite, quando “Cantara” foi interpretada com um instrumental mais orgânico e mais explosivo em relação ao que foi registado em disco. Depois, à vez, Lisa e Brendan vieram sozinhos dizer-nos adeus. Ela com a sublime “The Promised Womb” e ele com a calorosa “Severance”.

SETLIST

  • Anywhere Out of the World
    Mesmerism
    Labour of Love
    Avatar
    In Power We Entrust the Love Advocated
    Bylar
    Xavier
    The Wind That Shakes the Barley
    Sanvean
    Indoctrination (A Design for Living)
    Yulunga (Spirit Dance)
    The Carnival Is Over
    The Host of Seraphim
    Amnesia
    Autumn Sun
    Dance of the Bacchantes
    Song to the Siren
    Cantara
    The Promised Womb
    Severance