Dead Combo e a Bíblia lisboeta

24/03/2014
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«O próximo chama-se “Miúdas e Motas”, o sonho de qualquer puto no liceu», diz-nos Tó Trips. A beleza da generalização é a conversão da realidade a larga escala, a uniformização. Beleza porque há momentos em que nos sentimos congregados sob a mesma atmosfera e, para lá daqueles que sonham com miúdas e motas, foi assim que uma plateia afortunada viveu o concerto dos Dead Combo no palco do Coliseu dos Recreios.

Estamos a chegar ao soundcheck [uma visita exclusiva da Arte Sonora] quando os céus de Lisboa se adensam e saturam, explodindo numa carga de pluviosidade que será esquecida com o calor de uma tundra imaginária, onde vagueiam dois mariachi com um ar de quem já viu melhores dias. A apresentação de “Bunch of Meninos” foi, naturalmente, o bloco angular do concerto dos Dead Combo. O calor tropical que emana de temas como “Povo que Cais Descalço” e “Waiting For Nick” contraria a ideia anterior mas, ao ouvir temas como “Mr. Eastwood” ou “Miúdas e Motas”, regressa rapidamente a noção de que Pedro Gonçalves ou Tó Trips poderiam subjugar-nos e fazer-nos uma “gravata mexicana” antes que a moeda que Trips coloca a girar nas costas da guitarra (no final de “Miúdas e Motas”) caísse. As tonalidades das guitarras acústicas ou do contrabaixo, misturadas com a densidade dos riffs de um tema como o novo “Waits”, recordam-nos que os Dead Combo se tornaram um dos mais interessantes projectos de guitarra dos últimos anos, não só a nível nacional, mas também mundial.

A guitarra eléctrica, nas mãos de Trips, é uma prostituta endurecida por uma vida na “fronteira”.

E a partir desse momento de maior electricidade, no eixo “Waits”, “Rodada” e “Pacheco”, Trips revela-se, não como um amante da guitarra eléctrica, mas como alguém que a usa, que a abusa. A guitarra eléctrica, nas mãos de Trips, é uma prostituta endurecida por uma vida na “fronteira”. Não há shred, mas há técnica [se ouvirmos o picking mudo de “Rodada”, talvez até seja errado afirmar que não há shred]. Há um sentido estranho e melódico cada vez mais maturado. E, acima de tudo, há uma exalação de autenticidade, mesmo em momentos inesperados como as ternurentas dedicatórias às filhas dos dois músicos (“Zoe Llorando” e “Welcome Simone”). Não há descaracterização, há transformação.

O projector de vídeo, em “Esse Olhar que Era Só Teu”, mostra-nos as carreiras desta Lisboa que foi a porta da evangelização do mundo – Santos 10, Prazeres 22, Sta Apolónia 24, Belém 30, Ajuda 13… – livros de uma Bíblia apócrifa, escrita pelo Fado e ressoada a guitarra. Sentimos uma nostalgia boémia e fantasmagórica por todos os excessos que não iremos cometer na noite alfacinha. E então, em “Eléctrica Cadente”, o público é esmagado por um truque simples e deslumbrante de produção – sobe a cortina do palco e olhamos as galerias de traço de arquitectura civil eclética do Coliseu (como é magnífico o trabalho de Manuel Garcia Júnior).

O encore, com “Malibu Fair” e “Lisboa Mulata”, foi, naturalmente, apoteótico. Lisboa é uma cidade de guitarras. Os Dead Combo são de Lisboa.

Fotos: Tomás Lisboa