dEUS está nos detalhes!

dEUS está nos detalhes!

Ricardo Rego
Inês Barrau
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dEUS é daquelas bandas que não sendo Portuguesa, é como se fosse. O concerto desta noite no Hard Club marcou o 31º concerto da banda em solo nacional desde que se estrearam na Queima das Fitas de Coimbra em 1995. Inclusive, Tom Barman assentou arraias em Sesimbra em 2016, e até ver está a correr bem. Pelo menos ainda não há registos de pedidos de cavalos em palácios para aqueles lados.

O primeiro contacto que tive com a banda foi há pouco mais de 20 anos a 16 de Março de 1999 no programa da RTP1 Miguel Ângelo ao vivo. Tocaram “Magdalena” e “Instant Street”. Não foi amor, mas foi paixão à primeira vista. O álbum “The Ideal Crash” entrou para a minha colecção e esteve em grande rotação desse ano em diante. Foi precisamente esse álbum e esses 20 anos que os trouxeram ontem à noite ao Porto, com uma aura de Antuérpia, terra natal da banda, dada a chuva, humidade e baixa temperatura, a um Hard Club esgotado há várias semanas.

“The Ideal Crash” é um dos principais álbuns indie/alternativos a sair do velho continente e continua tão fresco e relevante hoje como quando saiu em 1999. A fórmula parece relativamente simples: boas melodias, uma Stratocaster e uma Les Paul a alternarem entre um bom som limpo e uma boa distorção, um baixo cheio, uma bateria, violino, teclas ou xilofone e boas backing vocals, todos os 5 músicos em palco cantam. O que não é simples, e acaba por fazer a diferença, é a capacidade da banda em manter as músicas interessantes, fluídas e dinâmicas. Em todas as músicas há pontes e passagens às quais se juntam pequenos, mas preciosos detalhes. O arquitecto alemão Ludwig Mies van der Rohee dizia que “Deus está nos detalhes” e efetivamente dEUS estão nos detalhes.

O arquitecto alemão Ludwig Mies van der Rohee dizia que “Deus está nos detalhes” e efetivamente dEUS estão nos detalhes.

Na primeira parte do set são tocadas as 10 músicas de “The Ideal Crash”, pela ordem em que aparecem no álbum. E tal como no álbum, ao vivo há um momento que no meio de tanta intensidade é particularmente intenso, o outro de “Instant Street”. O momento final desta música está, para mim, no top três dos melhores outros de sempre, ao lado de “Sir Psycho Sexy” dos Red Hot Chili Peppers e “November Rain” dos Guns n Roses, isto se não considerarmos outro o solo infindável da “Free Bird” dos Lynyrd Skynyrd. Viver esta esta música ao vivo foi incrível. Só imagino o bonito que seria este mesmo momento há uns anos atrás quando ainda havia mosh e crowd surfing.

Depois do set principal veio o primeiro encore com “Quatre Mains”, “Fell of the floor, Man” e “Hotel Lounge”. Tom Barman e companhia ainda voltaram para um segundo encore para fechar a noite com “Nothing Really Ends”, cantada a meias com o público da invicta. No final desta, e em português fluente, Tom despediu-se do público com um «Beijinhos e obrigado. Porto xau!»

A primeira parte ficou a cargo de Trixie Whitley acompanhada, em palco, por um baterista. A intenção é boa e o potencial está lá, mas falta qualquer coisa. Os White Strypes funcionaram bem em duo porque o que faltava em instrumentos e parede de som, era compensado pelo carisma e energia de Jack White. No caso de Trixie Whitley, mais instrumentos teriam dado mais corpo à música. Ao ver esta primeira parte, não pude deixar de imaginar como as músicas teriam crescido se estivesse um baixo ligado ao Ampeg que estava em palco no backline dos dEUS.

[fotos captadas no concerto realizado no Coliseu dos Recreios]